Rastilho de pólvora: Mudança de percepção sobre militância pró-governo pode virar o jogo

O ano agora é 2020. O país passou por uma turbulenta eleição presidencial - Foto: Ilustração
O ano agora é 2020. O país passou por uma turbulenta eleição presidencial - Foto: Ilustração

DA REDAÇÃO Fernando Duarte 


Desde 2016, quando o Brasil estava longe de ser um terreno tão fértil para ações autoritárias, manifestações pró-governo aconteciam sob olhos desconfiados da imprensa. À época, Dilma Rousseff era presidente e acabaria apeada do Palácio do Planalto em meio a um controverso processo de impeachment. Até ali, apenas mobilizações contra o governo, que tiveram um auge em junho de três anos antes, eram consideradas legítimas. Era essa a tendência: ato pró-governo era fruto da militância, enquanto atos críticos ganhavam espaço sistemático na mídia.

O ano agora é 2020. O país passou por uma turbulenta eleição presidencial, com um atentado contra um dos principais candidatos. De ilustre desconhecido, Jair Bolsonaro é eleito com forte comoção popular e uma aguerrida militância, que o segue cegamente, independente de haver lógica ou razão nas declarações. Desde o primeiro ano do governo, mobilizações de apoiadores ganham espaço na imprensa como atos em defesa do presidente. Nesse primeiro momento, mesmo que comecem a aparecer críticas, há seletividade da mídia, que evita usar as palavras certas contra esses segmentos. Não há “militância”, mas “apoiadores do governo”.

Após sucessivos atos que subvertem o republicanismo, a imprensa passa a adotar as expressões mais adequadas para tratar esse movimento ideológico. São ações antidemocráticas, que recebem o endosso irrestrito do presidente, cujos sinais truncados dão margem a interpretações diversas. Para os adversários, Bolsonaro tenta arregimentar uma ruptura institucional sem qualquer pudor. Para os aliados, o chefe do Executivo reage às tentativas de “enquadrá-lo” dentro das regras do jogo. Os dois lados estão certos.

Há uma complacência – para não dizer certa cumplicidade – da mídia ao avaliar os movimentos pró e contra o governo de 2013 até aqui. Tal qual aconteceu com Dilma, os interesses foram mudando de acordo com a perda de sustentação política nas esferas de decisão. As pedaladas fiscais, como se sabe, foram a justificativa legal para um parlamentarismo indireto – Michel Temer, que assumiu o Planalto, era, antes de ser vice, um homem do Congresso Nacional. Bolsonaro começa a dar sinais de que essa verve que o sustenta pode não ser mantida no médio e longo prazo, o que explica a aproximação com o centrão. Nessas disputas, nunca há inocentes.

Ao que parece, a pandemia do coronavírus e as sucessivas crises criadas e alimentadas pelo núcleo próximo ao presidente fortalecem o processo de fragilização das relações institucionais. Isso explica parte da origem da sugestão de que uma ruptura não é questão de se, mas de quando, levantada por um dos príncipes da República. A operação da Polícia Federal para investigar o financiamento dos atos antidemocráticos pode ser o rastilho de pólvora para uma virada de mesa. Até o dia 16 de abril de 2016, Dilma acreditava que poderia reverter o impeachment. No dia seguinte, tudo viraria história…
Por Bahia Notícias

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