O filme ‘A Incrível História da Ilha das Rosas’ e o indivíduo como autor de sua própria história

COLUNISTA | Cultura&Realidade, por Diogeano Marcelo de Lima

Meus amigos leitores, vocês já devem ter notado meu grande apreço por filmes baseados em histórias reais, e a história retratada no recente lançamento da Netflix: A Incrível história da Ilha das Rosas, é uma comédia italiana leve, empolgante e divertida que nos fazem pensar a respeito do que queremos construir no próximo ciclo que se iniciará com a chegada do ano de 2021.

Ambientada em Rimini, Itália dos anos de 1960, essa longa-metragem conta a história de um engenheiro recém-formado que gostava de construir com as próprias mãos e que não se encaixava nos padrões impostos por seus pais, pela sociedade ou por seu governo.

Giorgio Rosa (interpretado pelo premiadíssimo Elio Germano), é acima de tudo um idealista, uma pessoa que vê o mundo e o interpreta pela ótica das lentes de sua própria sensibilidade. Carrega dentro de si a chama da liberdade de ser quem ele realmente é: um sonhador.

Diante da impossibilidade de moldar o mundo ao seu redor ao próprio gosto, decide criar o seu próprio mundo particular, longe dos padrões sociais e acima de tudo, da burocracia estatal que vê como nocivo a liberdade individual, a liberdade de pensamento e a criatividade humana incondicionada.

Junto com seus amigos, ele construiu em seis meses uma ilha no mar adriático sob uma plataforma nas águas internacionais, ou seja, fora da jurisdição do governo da Itália e de suas regras fiscais. Com apenas 400 m² abrigava um restaurante, um bar, uma loja de souvenirs e, inclusive, uma agência dos correios.

No entanto, o problema maior veio quando ele decide que a sua ilha é, na verdade, uma nação independente, com bandeira própria e se proclama presidente. Logicamente, a repercussão não agradou ao governo italiano que usa de todos os meios apagar a existência da Ilha das Rosas.

Em suma, é “uma história sobre liberdade, sobre a resistência de Giorgio Rosa contra o governo”, explica o diretor Matteo Rovere. “Ele não queria se render contra a lei, porque a lei dos anos 60 dizia que se você estivesse a mais de seis milhas da costa, não é terra de ninguém, então você pode fazer o que quiser – como se estivesse na Lua”.

“E então ele construiu a ilha, o que foi incrível porque era muito complicado. Ele a construiu com quatro amigos e um grupo muito pequeno de trabalhadores, em seis meses. Na verdade, quando falamos com ele sobre fazer um filme, ele não ficou muito interessado na história, mas ficou entusiasmado em nos contar sobre a tecnologia que inventou para construí-lo”, finaliza Rovere.

Crítica: 'A Incrível História da Ilha das Rosas' é comédia inusitada na  Netflix
Cena na ilha das rosas

Parece absurdo? A realidade tem o direito inalienável de ser a mais absurda possível, quantos acontecimentos inacreditáveis estão fora de nossa percepção? Nem toda boa história é fruto da imaginação de um roteirista, a realidade é capaz de ser uma professora indispensável, e as lições que podem ser aprendidas da “A Incrível história da Ilha das Rosas” são incontáveis, além é claro, de seu um filme divertido, com toques sutis de humor que vale a pena ser assistido.

Conhecer “A Incrível história da Ilha das Rosas”, resgata o idealismo de sermos quem realmente nós somos, e nos faz refletir a respeito do papel do governo em nossas vidas, indo muito mais além que o direito de criar as próprias regras, mas também do quanto devemos aceitar que um governo interfira em nossa esfera individual.

Não se trata da liberdade em construir uma ilha, ou de manter um clube de férias sem pagar tributos ou passar por todo o processo burocrático para abertura de um novo negócio, e sim da liberdade de existir sob a luz de nossas próprias convicções, de nossa própria ideologia, da própria religião, da própria etnia ou da própria orientação sexual. E todas essas aspirações dependem da devida atuação do governo, seja pela permissão ou seja pela proteção que deve ser garantida a todos aqueles que almejam seguir o próprio caminho a luz de suas próprias escolhas sem ferir o direito do próximo. Como bem retrata o trecho da música “De lhe pague” de nosso Chico Buarque:

“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir

Deus lhe pague”

Fica a indicação para assistir ao filme: “A Incrível história da Ilha das Rosas”, e claro, da música: “Deus lhe pague” de Chico Buarque.

Caso queiram conhecer um pouco mais a respeito dessa incrível história real, indico o artigo: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/a-verdadeira-saga-por-tras-de-a-incrive-historia-da-ilha-das-rosas-da-netflix.phtml

Sugestões e Feedbacks através do Instagram: https://www.instagram.com/diogeano.marcelo.lima/

Não perca as publicações anteriores:

1. https://www.culturaerealidade.com.br/corra-porque-vale-a-pena-assisti-lo/

2. https://www.culturaerealidade.com.br/filme-fome-de-poder-e-a-insaciavel-ganancia-que-move-a-especie-humana/

3. https://www.culturaerealidade.com.br/a-importancia-do-afeto-familiar-e-o-filme-esqueceram-de-mim/

4. https://www.culturaerealidade.com.br/a-vida-social-do-jovem-os-dilemas-as-drogas-e-o-filme-era-uma-vez-um-sonho/

Diogeano Marcelo de Lima.
Advogado, colunista,
palestrante e pesquisador.

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta