Dentro de casa, jogados no mundo: só metade dos pais monitora o que os filhos acessam

Confira relatos e ‘descobertas’ feitas pelos pequenos nas redes e entenda os riscos da falta de acompanhamento parental na internet

DA REDAÇÃO | Correio*

“Guilherme não queria nem saber mais de jogar bola, ele agora quer ser jogador de Free Fire”. Acredita que até o ídolo mudou? Deixou de ser Neymar para ser Nobru, o youtuber sensação referência desse jogo online de tiro que acumula só no Google Play mais de 65 milhões de downloads. “Meu filho ficou reativo, impaciente, bruto, não comia nos horários, perdeu totalmente o interesse pelo esporte que sempre praticou e pelos estudos”, desabafa a assessora executiva e mãe de Guilherme, de 10 anos, Luciana Nascimento.

O Free Fire é indicado para maiores de 12 anos. Na descrição do jogo, que é gratuito e disponibilizado pela Garena International, consta a presença de conteúdo de  violência, além de temas relacionados a terror e  medo. Fundada em Cingapura,  a Garena acumulou de receita R$ 15 bilhões no último ano. “Eu já estava exausta de reclamar, brigar, tomar celular, dar castigo. O maior desafio é ensinar o que é limite”, completa Luciana, que após muita conversa com o filho conseguiu estabelecer um acordo.

A exposição em maior grau nas redes durante a pandemia acendeu o alerta vermelho. Preocupa mais ainda o fato de que só metade dos pais e mães acompanha, efetivamente, o que seus filhos estão fazendo na Internet. O dado faz parte da Pesquisa Tic Kids Online Brasil feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Ao todo, foram ouvidos 2.954 crianças e adolescentes e 2.954 pais em todos os estados do país, inclusive a Bahia,  entre os meses de outubro de 2019 e março de 2020.

A pesquisa mostra que 22% das crianças e adolescentes consumiram algum tipo de conteúdo com cenas de violência. Outro número que chama atenção é que 15% viram na Internet imagem ou vídeo de conteúdo sexual. Além disso, 24% dos meninos e 31% das meninas já foram tratados de forma ofensiva. As meninas, na maior parte dos casos (33%), sofreram discriminação pela cor ou raça, assim como os meninos (20%). Em seguida, pela aparência física, 26% delas e 15% deles.


Efeitos 


“O que a gente tem visto, sobretudo na pandemia, são crianças com traço depressivo e transtorno de ansiedade devido à essa exposição sem controle e sem mediação. Muitos pais têm medo de deixar um filho atravessar a rua para ir sozinho até a padaria. Porém manter horas  e horas na tela, sem monitoramento, é muito mais danoso”, analisa a psicanalista, orientadora educacional e educadora parental,  Larissa Machado (@lari_machado).

Para a especialista não é a Internet que é a vilã, mas a negligência parental. É preciso sim, definir tempo, conteúdo e falar sobre todos os perigos. “Sabemos que os pais estão sobrecarregados, mas é fundamental ter presença, diálogo e limite. Se eles ficam ausentes, a referência se torna as redes e isso vira um caos. É importante defender que as plataformas estão aí e a tecnologia vai ficar. Os pais que não têm muita informação sobre tecnologia devem  buscá-la. Isso se encontra hoje muito fácil. Não é proibir o uso, mas fiscalizar”, argumenta. 

Quase 80% dos domicílios contam com acesso à internet e 76% das crianças e adolescentes usam a rede mundial de computadores  mais de uma vez por dia, conforme apontam ainda os dados da Tic Kids Online. Larissa Machado acrescenta que, na hora de definir as condições de uso, os pais entrem em consenso. “Se isso não for possível, que o mais coerente não abra mão das regras e seja essa a referência, diferente do que não deu limite”. 

Neuropediatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Rita Lucena reconhece que as crianças estão sendo inseridas de maneira cada vez mais precoce nas redes e estimuladas a existir nesse universo virtual. “É a síndrome de FOMO, da sigla em inglês Fear of Missing Out, ou ‘o medo de ficar de fora’. O medo de perder as novidades ou de não se fazer presente implica na contínua necessidade de conexão. A faixa de uso deve estar dentro do aceitável, junto com o estímulo por parte dos pais de experiências sociointeracionais reais”, destaca.


Caminhos


Para se ter um perfil em redes sociais como o Tik Tok, Facebook, Instagram e o Youtube, por exemplo, a idade mínima é de 13 anos. A barreira, no entanto, não impediu que os filhos de Letícia* (Lara, de 6 anos, João*, de 7 e Miguel*, de 12 anos) pesquisem por vídeos no Youtube sobre ‘como namorar’, além dos de terror. 

“O ‘boom’ mesmo foi decorrente da quantidade de vídeos e de coisas que eles passaram a assistir por estarem 24 horas em casa. Eles não brincam de casinha como eu brincava. Hoje, minha filha constrói uma casa dentro do jogo e ali ela convida o irmão para entrar e brincar com ela. Só que aí, nessa casa dela, entram crianças que a gente não conhece”.

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