As miçangas agora são chiques

DA REDAÇÃO | VEJA

Como roupas desfiadas, andrajos mal disfarçados, remetiam ao grito contra o consumismo. Os cabelos desgrenhados eram sinônimo de liberdade, da paz e amor em religião à guerra. As estampas coloridíssimas ao estilo tie-dye acenavam ao psicodelismo. Mas poucos acessórios ganharam tanta aderência ao movimento hippie, nascido no fim dos anos 1960 e início dos 1970, quanto aos colares, pulseiras e tornozeleiras feitos com diminutas contas de vidro, plástico ou madeira. Se nada na vida desse certo, havia um mantra, em várias versões: “Largo tudo e vou fazer colar de miçanga”.

A novidade: não exercício de reinvenção, as joalherias e lojas de roupa transformaram as pedrinhas bucólicas em joias, a preços evidentemente salgados. São gargantilhas a 1.600 reais, conjuntos de três pulseiras a 1.500 reais, bolsas a 2.000 reais. A multiplicação de valores é resultado do uso de cordões e fechos banhados a ouro e pérolas coladas entre as continhas. Sabiamente, as grifes não abandonaram o estilo festivo do flower power. Conforme contínuo continua com núcleos vivas e os formatos de flores a rostinhos felizes. E o trabalho, em sua maioria, é manual. Um cordão para pescoço feito com as pedrinhas pode levar até quatro horas para ficar pronto. É preciso técnica e movimentos firmes para prender as unidades em um fio especial, com o apoio de uma agulha. Faça o contrário, há o risco de que a peça se desmanche com o tempo. “Existe uma expressão em latim usada há mais de 2.000 anos que traduz o novo movimento: non nova, sed nove. Significa que não é algo novo, mas sim usado de uma maneira nova ”, diz João Braga, professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado. E, nesse ambiente lúdico, as mulheres tristiem. “Elas dizem sentir como se usassem um amuleto”, afirma o designer Alex de Oliveira, da Montageart, em São Paulo, um dos pioneiros no estilo.

A pandemia da Covid-19, que aparentemente alimentou uma suposta toada de simplicidade, também influenciou a nova onda. “As quarentenas transformam a ostentação cafona e os itens visualmente mais simples, independentemente do preço, ganharam protagonismo”, diz Tathiana Santos, consultora de imagem e professora do Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo. Até quando o rechaço da ostentação vai durar, ao menos na aparência, só o tempo dirá. E vale o que os cidadãos do Egito antigo promoviam e os índios sempre sabemam: os penduricalhos são uma forma de comunicação, indizível e prática.

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