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Festival Gastronômico Paladares do Sertão

“Voltar e tocar no interior pra mim é como voltar para a barriga”

20 de Junho de 2016

JosyAra_show_Caatingueiros.jpg [caption id="attachment_4764" align="aligncenter" width="672"]Apresentação no Caatingueiros Bar | Foto: Asley Gonçalves Apresentação no Caatingueiros Bar | Foto: Asley Gonçalves[/caption] Por Rodrigo de Castro A cantora e compositora Josyara Lélis, nascida às margens do Rio São Francisco em Juazeiro, no norte baiano, sempre se interessou pelo novo. Essa paixão pela novidade a levou desde cedo a por o pé na estrada, em busca de aprendizado e descobertas. Na adolescência, se mudou sozinha para Salvador, em busca do estudo técnico em música do Colégio Estadual Deputado Manoel Novaes. Não demorou muito até ela se iniciar no mundo artístico, se apresentando na seara da noite soteropolitana. Logo depois foi a vez de experimentar suas primeiras composições em festivais de música autoral como o Festival Anual da Canção Estudantil (FACE). O primeiro álbum, ‘Uni Versos’, veio em 2012, ainda como Josy Lélis. A artista, que mudou seu nome artístico recentemente (agora se apresenta como JosyAra), gravou treze canções via Lei Rouanet, por meio da qual conseguiu patrocínio da Petrobras. O trabalho, que foi disponibilizado para download na web, rendeu premiações no cenário estadual, como o Prêmio Sesc de Música (Ano 02) em 2013, e a levou para excursionar pela Bahia junto ao projeto ‘Intercenas Musicais’ do Conexão Vivo, e também a festivais interioranos como o Festival Edésio Santos, Canta Vale, Aldeia Velho Chico e a Virada Cultural de Bom Jesus da Lapa. Após oito anos de vida soteropolitana e crescimento como artista, ela se mudou duplamente. Primeiramente de cidade (e estado), indo residir na capital paulista. Depois, no embalo, aproveitou para mudar o nome artístico. “O ‘Ara’, em Iorubá, significa corpo; em tupi guarani, é um sufixo para nomear as aves, mas também quer dizer nascer, nuvem, hora, tempo. Nessa ressignificação, retomar o nome de batismo tem tudo a ver com esse novo ciclo, tanto de lugar quanto de parcerias”, explica. O produtor do show de JosyAra em Irecê (e também músico), Asley Gonçalves, diz que a vinda de uma artista talentosa e com uma história tão rica quanto a dela, apesar de ter ainda apenas 24 anos, é algo positivo para o cenário cultural local, e também inspirador para a cena, tanto de novos artistas quanto de produção de eventos. “Acho que a ideia é passar para a galera que não é preciso subir em um grande palco, em uma superprodução ou estar contratado junto à indústria fonográfica para você ter espaço para mostrar uma composição sua, mesmo sem nunca ter gravado de forma mais madura”. A Intermédio, produtora responsável pela vinda de JosyAra, promoveu este ano outros dois eventos com artistas do cenário independente: A cantora soteropolitana Renata Bastos e a banda Scambo, em parceria com AMFM Sonorização. Antes do show, realizado no dia 12/06 no Caatingueiros Bar, o jornalista Rodrigo de Castro conversou com a artista, onde ela fala sobre suas origens, influências musicais, a experiência de viver em SP e se integrar com os músicos locais e também sobre a vinda à Irecê. Confira a entrevista: C&R: Você é de Juazeiro, mas morou em Salvador e hoje está em São Paulo, a nossa megalópole aonde “tudo acontece”. Como se sente em voltar e tocar no interior, de certa forma semelhante a sua Juazeiro natal? JosyAra: Tocar no interior pra mim é extremamente acolhedor, porque a minha música, o que eu canto e o que eu componho, reflete tudo o que eu vivo, as minhas memórias, a minha raiz. Então sempre voltar pra terra natal ou ir para lugares menores, mas que remetem essa lembrança de Juazeiro - a minha terra, é uma felicidade, é voltar a ser criança, voltar pra minha infância. Então, como posso dizer? Voltar e tocar no interior pra mim é voltar para a barriga, tocar o meu interior artístico. C&R: Como você se define artisticamente, em meio a esse caldeirão de influencias que mescla Gal Costa, Fagner, Belchior, Caetano e outras figuras da MPB, junto a suas raízes ribeirinhas? O nome do seu álbum ‘Uni Versos’ é bastante sugestivo. [caption id="attachment_4765" align="alignright" width="400"]A cantora e compositora JosyAra | Foto: Taylla de Paula A cantora e compositora JosyAra | Foto: Taylla de Paula[/caption] JosyAra: A pergunta que eu mais temia, esse negócio de definir... nossa, eu não consigo fazer isso muito bem, mas enfim. Pegando esse gancho do primeiro disco, que se chama ‘Uni Versos’... É isso, né? Eu me considero uma artista curiosa, aquela que canta a raiz de onde veio, porque raiz também são os passos por onde eu ando, o chão por onde eu piso. Assim, sinto muita vontade de cantar os clássicos das músicas nordestinas, Gonzaguinha, Gonzagão, Dominguinhos, mas eu também sou muito deslumbrada com o moderno, com as coisas atuais, com o contemporâneo, então... Sei lá, a cantora e compositora Céu, por exemplo. Ela trabalha muito com essa coisa do eletrônico, Baiana System também. Então são sons modernos que me agradam e também me influenciam. Eu, que ainda só tenho meu primeiro disco, nem pude ainda experimentar com esse registro, mas minha vida profissional é a partir desses encontros musicais, desses recortes do cotidiano, com essas trocas com os músicos. Então cada show (clique para visitar seu canal no youtube) é uma surpresa para mim, porque eu gosto de experimentar sonoramente, então convido músico de, sei lá, de sopro, que eu nunca toquei, mas que eu acho que pode ser interessante somar naquela noite, naquele momento. Então eu convido e já vira outro show, porque cada elemento transforma a estética da musicalidade... É isso, eu me considero uma artista curiosa que gosta de experimentar. C&R: Fazer e principalmente viver de música no Brasil não é nada fácil, em um cenário de poucos investimentos em novos artistas por parte das gravadoras, que hoje enxergam cifrões somente no sertanejo universitário. Como vem sendo a sua experiência nesse sentido? A internet se mostra como o caminho para 10 em cada 10 artistas independentes, num contexto de riqueza musical que acaba não aparecendo muito nas mídias tradicionais como a TV e as rádios FM. Como é o seu “matar um leão por dia”? (risos). JosyAra: Então, como você falou, a internet é uma ferramenta essencial para o meu trabalho. Eu tenho um disco gravado apenas, o ‘Uni Versos’, que gravei em 2012 e foi a partir da internet que eu pude circular em alguns lugares, chegar ao público que eu tenho hoje e, enfim, todas as pessoas que me escutam e conhecem o meu trabalho, tá sendo dessa maneira, pelas redes sociais, não só pelo facebook, mas também pelo instagram que eu atualizo bastante, que é onde eu mesclo, aproveito essa questão audiovisual, de vídeos curtos, aí eu consigo projetar algumas coisas. Eu uso bastante a internet, faço produções mais intimistas, hoje em dia estão crescendo o número de coletivos em revistas artísticas, então eu produzo com estes coletivos aqui em Salvador, eventos, inclusive eu lancei alguns dias atrás (09/06), o projeto ‘Perambulante’, onde a gente tá fazendo financiamento coletivo pra bancar uma turnê. Então a forma é essa, produção independente mesmo, junto com amigos e trocas, é troca de trabalho onde um leva uma música, um amigo faz a questão gráfica, o outro vem com a instrumentação, somando, então tem diversas maneiras. Vou produzindo isso com a minha galera, com as pessoas que se identificam com o meu trabalho. E a internet é a grande sacada de tudo né, a internet, a forma como eu chego no público, onde tá realmente crescendo o número de seguidores. C&R: Você construiu sua carreira até aqui caminhando na cena musical independente baiana, mas de repente resolveu se mudar de cidade, estado e até mesmo de nome artístico, deixando para trás o sobrenome familiar. O que te moveu a buscar tantas mudanças? JosyAra: A mudança está sempre presente na minha vida. Desde que eu saí de Juazeiro, sempre fui fascinada pelo novo, pelo desconhecido. É o que me move na real, a novidade me comove, me dá esse gás. E a mudança do meu nome artístico veio há pouco tempo, tem menos de dois anos que eu me apresento como JosyAra. Não tem muito segredo não, é tudo que eu disse até agora, estou tão longe geograficamente, mas sempre voltando para as minhas raízes, pra minha família. Tirei o sobrenome da família do meu nome artístico, mas não tirei a família (de mim), essa ancestralidade da minha bagagem, do que eu sou. C&R: Como surgiu a oportunidade de vir se apresentar em Irecê? JosyAra: A proposta de show em Irecê surgiu dessa forma natural dos encontros que eu sempre falo, estava na casa da mãe, num sarau de música que acontece toda terça-feira, aí uma amiga minha, a Renata Bastos (que já se apresentou em Irecê, em Jan/2016), que também é cantora e compositora, chegou com um amigo dela de Irecê lá pra ver o movimento, né? E aí nisso eu cantei lá com a Vanessa Melo, clarinetista, instrumentista incrível daqui, e outros dois amigos percussionistas. Fizemos um show, e Asley, que é o produtor que levou o meu show para Irecê se interessou, se amarrou na sintonia e foi isso né, foi dessa forma assim: “gostou, viu, vamo vamo experimentar”. Rolou uma experimentação legal com um percussionista daí também (Dedê, músico ireceense), foi uma experiência musical mesmo, que deu partida a minha turnê Perambulante, que lancei em Salvador. A ideia é exatamente essa, passar pelas cidades e contactando músicos locais e fazendo esses shows. C&R: Fale um pouco sobre a nova fase em SP, a interação com os artistas locais e a produção do novo disco. O que vem por aí? JosyAra: São Paulo foi de uma forma muito espontânea, como tudo na minha vida profissional, artística, pessoal, pra mim é tudo a mesma coisa, tá tudo muito englobado. Em SP eu cheguei com a pretensão de passar algumas semanas e aí, de repente, eu estava lá há um ano já. E sempre assim, ia pra sarau de música, conhecia os músicos lá, com quem eu tinha uma identificação mútua né, porque eu gosto muito de trabalhar com pessoas que tenham uma sinceridade ali no gostar também, que se envolvem, sou muito sensitiva nesse sentido. Eu gosto de trocar com pessoas que estão a fim realmente de trocar, independente de status, independente de quem quer que seja, sabe? E foi assim, tá sendo assim até hoje, no momento eu estou passando uma temporada na Bahia, tô aqui criando algumas ideias com profissionais daqui (de Salvador), com os artistas daqui pra esse novo disco que não tem data ainda pra sair. Mas esse ano ainda vai ter alguma novidade, algum single. Sampa me fez crescer bastante, porque foi lá que eu comecei a ter relação com a rua, que é outro universo de espontaneidade, de você chegar, botar o som no centro de São Paulo, na cidade grande, e tocar o que você gosta, o que você fez e tal e as pessoas que estão ali vivendo o cotidiano pararem pra te escutar e oferecer em troca alguma coisa, sejam palmas, sejam olhares, seja dinheiro, enfim. E eu comecei a ter essa relação com a rua e pra mim foi uma das experiências mais marcantes que a cidade pôde me oferecer, porque é isso né, a base da minha vida e do meu trabalho são essas trocas pessoais e naturais, dos acasos, dos descasos. Não trabalho muito com planos, com coisas muito certeiras, eu vou me jogando, então pra mim tudo é sempre uma surpresa.