CRÔNICA

Um Bolero para Dois

Cultura&Realidade - 06 de Setembro de 2019

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Por: Arlicélio Paiva*

Beno é um jovem recatado de 30 anos, casado e que se comporta de modo receoso diante das pessoas. É o funcionário mais dedicado na empresa do Dr. Figueira, a quem muito admira. Ele vive um desejo de cada vez. A aspiração do momento é estrear no teatro durante o festival de dança da academia, formando um par com a sua amada esposa para dançar bolero, um gênero musical de origem latina.

Acredita-se que o bailarino espanhol Sebastian Cerezo foi o criador dessa dança, por volta de 1780, inspirado em outros ritmos populares da época. Mas, foi em Cuba que o bolero ganhou adaptações e, principalmente, notoriedade, pela dedicação de Pepe Sanchéz, que compôs e gravou “Tristezas” em 1885.

O bolero continuou a evoluir, sendo cantado e decantado no mundo inteiro. Memoráveis canções, compostas na década de 1940 – 1950, ainda são regravadas pelas gerações atuais, com destaque para “Besame Mucho”, composta pela mexicana Consuelo Velásquez em 1941, aos 15 anos de idade; “Solamente Una Vez”, do mexicano Augustin Lara, escrita em 1941 para homenagear o seu amigo José Mojica, quando soube que ele iria abandonar a carreira de ator de cinema para se tornar um Frei Franciscano; e “Historia de Un Amor”, composta pelo panamenho Carlos Almarán em 1955, inspirado na viuvez do seu irmão.

Beno escolheu com muito esmero “Quizás, Quizás, Quizás”, do compositor cubano Osvaldo Farrés, de 1947. Ele estava tão imbuído na sua aspiração momentânea que cuidou em detalhes do seu bolero – a sua versão preferida foi gravada pela cantora guatemalteca Gaby Moreno!

Desde a noite anterior que não parava de chover na cidade. Beno acordou com a certeza de que o seu dia não iria ser normal. Estava concentrado na estreia que aconteceria logo mais à noite. De olhos fechados, Beno repassava mentalmente cada gesto e cada passo da dança. Como de costume, foi de carro para o trabalho. Porém, passou antes no posto de combustível para abastecer o seu veículo. Já com o carro parado, ele observou uma senhora que se parecia com alguma conhecida sua. Baixou o vidro da porta dianteira direita do caro e pôde comprovar que era D. Rosália, esposa do seu chefe. Incontinente ele gesticulou para ela, perguntando se estava precisando de ajuda. A esposa do Dr. Figueira, uma senhora muito distinta, disse que teve problemas com o carro e estava tentando chegar à empresa do seu marido. De imediato, Beno ofereceu carona para D. Rosália, pois não queria perder aquela oportunidade de fazer bonito perante o seu chefe!

A ligação do posto de combustível até a empresa era feita através de uma avenida de, aproximadamente, 6 km e com pistas largas que estavam completamente alagadas.  No início do percurso, D. Rosália acalmou o seu preocupado marido, avisando-o da carona. No primeiro diálogo, a simpática dama disse que, em toda sua vida, não se lembrava de chover a cântaros tanto quanto aquele dia. Beno não entendeu o que a vaidosa dama havia falado, mas preferiu fazer outra pergunta, justamente a indagação que jamais deve ser feita à mulher alguma! – Quantos anos a senhora tem, D. Rosália? A presunçosa dama retrucou – Eu costumo ter 19 anos de idade na ausência do meu marido!

Perplexo, Beno tentou seguir viagem, mas os limpadores não davam conta de retirar tanta água do para-brisa. Não dava para saber quem estava mais embaçado, se o funcionário exemplar do Dr. Figueira ou a parte interior dos vidros! Por prudência, ele parou o veículo. Era a oportunidade que a atrevida dama esperava – avançou sobre ele e roubou-lhe um beijo! Durante o gesto afetuoso, Beno foi invadido por uma mistura de sensações. Não sabia se aproveitava a excitação provocada pela sedutora dama ou se festejava a conquista daquilo que só ele e o seu chefe haviam conseguido. Embora confuso, Beno aproveitou a oportunidade para deixar o seu “cartão de visitas”, caprichou no beijo para que, depois que os seus lábios se afastassem, os sentimentos perpetuassem no corpo e na mente da mulher do seu patrão.

A chuva abrandou e eles seguiram viagem. D. Rosália solicitou reservas sobre o acontecido, pacto que o seu amasiado prontamente concordou!  Ao chegarem à empresa, lá estava o Dr. Figueira esperando no pátio. Muito cordial, o chefe cumprimentou o seu devotado funcionário e recebeu da sua esposa um afago no rosto e um beijo na boca. Sem titubear, Dr. Figueira perguntou – Hum... Que cheiro gostoso é esse na sua boca, meu amor? A insolente dama respondeu – É da boca do Beno! O chefe olhou para o seu abnegado funcionário e berrou – Francamente, Beno! Eu não esperava isso de você!

Beno não teve tempo nem de tentar se explicar, foi invadido por uma mistura de sentimentos completamente opostos àqueles ocorridos durante o beijo – suou frio, sentiu tontura, náusea, apneia, estase, sensação de ataque cardíaco e de morte iminente. Tudo junto e misturado! Observando que o seu pupilo não estava bem, o Dr. Figueira o abraçou “ombro a ombro” e disse: Bom garoto! Vejo que você tem outras qualidades! Ciente de que estava “tudo dominado”, D. Rosália sorriu e disse para Beno que eles estavam o esperando para o almoço de logo mais.

Definitivamente, Beno teve consciência de que o seu dia não iria ser normal! Tentou em vão se concentrar nas atividades corriqueiras e consultava o relógio a cada minuto com a preocupação de não chegar atrasado para o súbito compromisso. Na hora exata, o agora intrépido funcionário, chegou ao restaurante onde o Dr. Figueira tinha mesa cativa e tratamento exclusivo. Mesmo em um ambiente com manobristas, luzes, mesas, garçons, maître e uma infinidade de copos, taças e talheres, avesso ao que ele era acostumado a frequentar, Beno “tirou de letra” durante o almoço, onde conversaram descontraidamente e combinaram a diversão de logo mais.

Mais uma vez, Beno chegou na hora marcada. O que mais o impressionou na mansão do Dr. Figueira foi a beleza dos jardins. Momentos depois, Beno já estava no quarto do casal que, pelo tamanho, parecia mais um “estádio de futebol”. Como o Dr. Figueira já tinha “amarrado as chuteiras”, Beno iria representá-lo naquela “partida contra a equipe” de D. Rosália. O seu chefe, vestido com o mais estiloso terno italiano, semelhante a um técnico de futebol europeu, ficou na “arquibancada”, “torcendo” e, às vezes, atuando como “técnico do jogo”. “Abriram-se as cortinas e começou o espetáculo”, rolou de tudo no “gramado”, não faltando “bola na trave”, “ripa na chulipa”, nem “pimba na gorduchinha”. “Ao final dos 90 minutos”, “as equipes estavam exaustas” e o “técnico” plenamente satisfeito com o “desempenho dos jogadores”. Na opinião da D. Rosália, a “equipe” de Beno “bateu um bolão”.

Os três continuaram no “gramado” após o “encerramento do jogo” conversando sobre amenidades e predileções. Foi aí que Beno revelou que mais tarde iria estrear no musical, dançando um bolero com a sua mulher. Ao saber que Beno se tornara um exímio dançarino de bolero, D. Rosália pegou o seu iphone, acessou a sua playlist e tocou exatamente o mesmo bolero que Beno havia escolhido para dançar com a sua amada esposa. Ela se dirigiu para o meio do “estádio” e o convidou para dançar. O “garotinho” ficou extasiado ao perceber que o mesmo bolero serviria para dois momentos!  Naquela altura, Beno, que ainda trajava apenas “samba canção” e meias sociais pretas, só teve tempo para colocar os sapatos. Partiu para os braços da sua “cocota”, mas a insólita dama fez um rodopio e o jogou de encontro ao Dr. Figueira que o estava esperando com os braços abertos e o sorriso de que, enfim, iria realizar mais um desejo naquela prazerosa tarde. O empresário de sucesso que, aos 75 anos, se comportava com um velho mentecapto, agarrou o seu servil empregado e, com muita destreza, começou a bailar.

O “estádio” parecia pequeno para o casal que começou a dançar em ritmo lento e sensual, seguindo de passos longos e abrangentes. Os dois dançarinos esbanjaram romantismo, diversidade de postura e muita sedução. Não faltaram passos do tipo “dois pra lá, dois pra cá”, “vai e vem”, “vai e vem com saída lateral”, “trocadilho” e “giro”. Apresentaram uma grande diversidade de comandos nos quais utilizaram as pernas, o corpo e as mãos. Naquele momento, o casal estava impregnado pela magia da música, que uniu corpo e espírito.

Ao final daquele ato, Beno se vestiu rapidamente e partiu em disparada para não se atrasar para a sua segunda apresentação do dia. Passou por D. Rosália no jardim que sorriu para ele e o disse – apareça! Ele olhou para a sacada e lá estava o Dr. Figueira também sorrindo, acenando e jogando beijinhos. Feliz da vida e muito orgulhoso do seu “show de bola”, Beno saiu cantarolando “Siempre que te pregunto / Qué, cuándo, cómo y donde / Tú siempre me respondes / Quizás, quizás, quizás...

(*) Professor doutor da UESC, Ilhéus, Bahia