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Festival Gastronômico Paladares do Sertão

Uibaí, um debate para o desenvolvimento com responsabilidade

12 de Fevereiro de 2016

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EDIMA

“Precisamos de um pacto da humanidade para mudar nosso relacionamento com a natureza”

  Pergunta - Você tem sido um articulador nas áreas de cultura e meio ambiente em Uibaí e região. Como se vê nesses papéis? R - Francamente não me vejo nesses papeis. Minha atuação é bastante localizada e limitada a uma ação ambiental no Projeto de Restauração Florestal Grota do Mané José e uma agenda cultural no Grêmio Cultural Voz do Povo. Não se trata, assim, de uma articulação, mas apenas de pequenos embriões de iniciativas nessas áreas, que poderão vingar ou não. P  – São iniciativas que já estão rendendo frutos, como a revitalização do “Banheirão” e da vegetação nativa da “Gruta do Mané José”, além do despertar de reflexões sobre os nossos recursos naturais e as intervenções desenvolvimentistas, mas, também, alguns incômodos por parte de algumas pessoas que o acusam de ser um ambientalista “contra o progresso”. Como avalia este julgamento? R – Você é o que as pessoas percebem que você é. Nesse aspecto vale mais a embalagem do que o conteúdo. Se alguns, de boa ou de má fé, começam a dizer que você é contra isso e contra aquilo, outras pessoas vão ouvindo e vão espalhando, até que, num dado momento, muitos dos que não lhe conhecem começam a pensar que você é aquilo mesmo que estão falando. P – Como podemos esclarecer esse ponto? R – A gravidade da questão ambiental chegou a um estágio que, a meu ver, diminui bastante o papel do ambientalista ou do ecologista. O momento exige uma revolução educacional de curtíssimo prazo, para estabelecer um novo modelo de relacionamento do homem com a natureza. Então, passamos a duvidar da eficácia da ação isolada de um ambientalista ou de um grupo de ambientalistas. O mundo depende agora de um pacto de todos para mudar radicalmente nossa maneira de usar os recursos naturais. Quanto ao progresso, entendemos que o empreendedorismo é a mola propulsora da caminhada da humanidade em nosso planeta. As iniciativas de preservação ambiental não precisam necessariamente ser ações contra o progresso. O que temos defendido é que toda e qualquer ação empreendedora neutralize completamente os impactos negativos que ela possa causar na natureza. Desejamos o progresso, mas, também, que cada ação humana seja ela própria geradora das iniciativas para neutralização dos danos causados nos ecossistemas diretamente afetados. P – Esclareça melhor sobre o termo “neutralizar os impactos negativos”... R – É simples. Entendemos que é preciso promover o desenvolvimento para gerar emprego, renda e assim a redução dos problemas sociais. Beleza... até aí estamos todos alinhados com este desejo. Pois isso é muito bom e eu também quero que ocorra. Porém, o que as pessoas não entendem, é que eu e outros companheiros da causa ambientalista queremos isso para a vida toda. É o que chamamos de permacultura, ou cultura permanente, agricultura permanente. E para isso precisa-se mudar o modelo, as práticas e as tecnologias envolvidas. O atual modelo promete desenvolvimento rápido com pouco esforço, mas degradando tudo, deixando um caos vegetal, de solos e de água, logo, não tem durabilidade, não tem como ser permanente, não é sustentável e logo resulta em desemprego, dívidas e problemas sociais graves, como está ocorrendo em toda a região. Queremos o desenvolvimento, mas de forma planejada, com uso racional dos recursos naturais. Não adianta desmatar tudo, estragar os solos, usar as águas de forma abusiva, sem saber quanto tempo suportarão produzir. O que queremos, repito, é que o desenvolvimento desejado para todos, seja com plano de uso dos solos e das águas. P – Na sua avaliação, o que leva alguns ambientalistas a se posicionarem contra projetos que são fundamentais para o desenvolvimento do país, contra o progresso, digamos assim? R – Penso que não é errado acreditar que os poderes públicos são, em regra, incapazes de garantir o cumprimento da legislação ambiental. Então há os que elegem como forma de luta embarreirar, inviabilizando ou retardando a implantação de empreendimentos que são impactantes na natureza, mas vitais para o desenvolvimento. Não deixa de ser uma forma de enfrentamento, já que, infelizmente, o mundo empresarial, salvo honrosas exceções, trata a questão ambiental como um item de planilha a ser objeto de compressão de custos. P – Está previsto um parque eólico nas serras de Uibaí. Qual tem sido sua posição quanto a esse empreendimento? R –Por princípio, somos a favor de empreendimentos que não tragam prejuízos para o meio ambiente ou que neutralizem os danos ambientais inevitáveis. É claro que esse empreendimento vai gerar danos ambientais, que precisam ser reparados pelo empreendedor. Também vai trazer problemas sociais, que devem ser igualmente compensados. Temos uma posição clara no sentido de que a lei ambiental seja cumprida. Nesse sentido realizamos em 2013 o 1º Grito dos Boqueirões, audiência pública que aprovou a linha de ação de nossa entidade, a União Municipal em Benefício de Uibaí – UMBU, quanto aos assuntos ligados à preservação da natureza. Há quem acredita que lutar para que a lei seja cumprida é o mesmo que ser contra a instalação do parque eólico, mas esse é um ponto de vista com o qual não concordamos. Temos falado sempre que a energia eólica é boa para o mundo, é boa para a Bahia, mas é um péssimo negócio para Uibaí, por não ser uma atividade geradora de empregos e por não pagar impostos na produção, ou seja, por trazer para o município praticamente os problemas ambientais e sociais. Em razão disso, nossa contribuição será para que, na eventual implantação do parque eólico, a sociedade se mobilize com o fim de assegurar a neutralização de todos os danos ambientais que possam ser causados e para que sejam dadas ao município de Uibaí todas as contrapartidas no que se refere à solução dos problemas sociais que a implantação do empreendimento trará. Não dá para gerar riquezas para os empresários da energia eólica e deixar para o município apenas os problemas sociais e ambientais. P – Como você mesmo reconhece que o mundo empresarial trata o meio ambiente como um item de planilha, acredita que o empreendedor do parque eólico cumprirá a legislação ambiental? R – Vai depender muito do nível de informação e de organização da sociedade local e da vontade política dos poderes públicos envolvidos. Não é incorreto colocar aqui a questão da necessidade de energia. Nós precisamos da energia elétrica e, se precisamos desse produto, temos que admitir que ele possa ser produzido, com as consequências ambientais inevitáveis, que devem ser prontamente neutralizadas pelo empreendimento. É exatamente nesse ponto que reside a importância da organização e mobilização da sociedade, tanto para fiscalizar, quanto atuar para que os poderes públicos cumpram seu papel. P - Outro ponto que gera polêmica nessa luta em defesa do meio ambiente é a questão dos caçadores. Você mesmo recebe críticas por ser contra os caçadores. Como vê esse ponto? R – Não somos contra a caça nem inimigos dos caçadores, pois entendemos que o ser humano é um predador natural e o predador natural é necessário para manter o equilíbrio da cadeia alimentar. Vou dar um exemplo: no Projeto Grota do Mané José não permitimos a caça sem licença ambiental. Pois bem, há um animalzinho lá chamado mocó, que teve um enorme crescimento populacional, exatamente pela falta de predadores naturais, inclusive o homem. A população de mocós cresceu sem controle e devora as mudas que são plantadas no projeto e até mesmo árvores adultas. Já solicitamos ao IBAMA uma permissão para liberar a caça, mas o órgão até o momento não autorizou. P – A que você atribui então esse boato de que é contra caçadores? R – Acredito que o principal ponto é a desinformação. Quando encontro um caçador e tenho a oportunidade de dialogar com ele, o ponto de vista muda. Mas é importante deixar claro que não é aceitável o que podemos chamar de ação burra de caçadores, como aconteceu na localidade de Brejo Velho, Uibaí, em que foram sacrificadas cerca de 600 juritis, quando essas aves estavam com filhotes nos ninhos. Isso é irracional. O caçador que faz isso dá um tiro no próprio pé, pois está contribuído para a extinção da espécie, com prejuízos para ele próprio e para toda a sociedade. Não podemos ser a favor desse tipo de caçador. Agora, a caça legal e racional, aceitamos como uma intervenção de equilíbrio da cadeia alimentar, um processo natural. Não somos contra. P – Uma palavra sobre os desmatamentos e queimadas. R – São jogados cerca de 30 bilhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera terrestre a cada ano. A concentração desse gás já ultrapassou 400 partes por milhão, a maior em 800.000 anos. Cada hectare queimado corresponde às emissões de cerca de 70 automóveis rodando durante um ano. Em nossa região, com mais de 90% da caatinga devastada, é incontestável que os ecossistemas não suportam mais desmatamentos e queimadas. Essas duas ações configuram crimes ambientais, se realizadas sem licenciamento prévio, e devemos cobrar das autoridades ações prontas e enérgicas para impedir que continuem ocorrendo. Mas não devemos confundir desmatamento com, por exemplo, a retirada de postes em uma propriedade para a realização de cerca na própria área. A retirada de postes de forma manejada para uso a mesma propriedade é uma ação que defendemos. Já os desmatamentos e queimadas são ações que a humanidade não pode mais tolerar, pois contribuem para aumentar a quantidade de gás carbônico na atmosfera (situação que já é alarmante), provoca assoreamentos, afeta o regime de chuvas, contribui para elevar a temperatura do planeta e destrói a fauna. A maneira mais eficaz de tirar gás carbônico da atmosfera é plantar árvores. Isso é o que devemos fazer urgentemente e não promover desmatamentos e queimadas. Não é bom o argumento de que sem desmatar não é possível produzir alimentos, isto porque existem vastas áreas desmatadas que podem ser usadas para pastagem e produção de alimentos e simplesmente foram abandonadas. P – Para encerrar, qual sua posição sobre a corrida de irrigantes para abertura de poços artesianos no município de Uibaí? R – Todos somos brasileiros e temos o direito de viver, trabalhar e produzir em qualquer parte de nosso país. Mas acho que essas pessoas que estão comprando terras e abrindo poços em Uibaí estão realizando investimentos de risco. Ora, se já não há água no lençol freático em quase toda a região, o que leva a crer que em Uibaí exista um mar de água subterrâneo? Nossa posição é no sentido de que o poder público realize um diagnóstico e um plano de uso das águas subterrâneas em Uibaí. Se constatar que há um mar de águas, ótimo. Uibaí será a meca da agricultura irrigada. Se, ao contrário, existir apenas a “rapa do tacho”, que se implante um plano de uso racional das águas subterrâneas. Defendemos essa posição para preservação ambiental do que ainda resta, assim como para proteger os irrigantes da região que estão investindo suas economias no município de Uibaí, com riscos de prejuízos se a água acabar e, principalmente, para proteger a economia familiar do município, cujas pequenas propriedades dependem do uso da água subterrânea e entrará em colapso caso o lençol freático venha a exaurir, como já aconteceu em vários municípios de nossa Região.