Educação

Robótica na escola: 288 jovens cientistas competirão em torneio neste fim de semana

Cultura&Realidade - 06 de Fevereiro de 2020

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Batizado de “Casarões 3D: Memórias e esquecimentos”, o projeto conta com um aplicativo móvel que contém a história, descrição e modelagem 3D de três casarões históricos de Salvador. - Foto: Ilustração


First Lego® League será realizado em Salvador e terá competidores da Bahia, Alagoas, Piauí e Sergipe
A vida escolar já não se resume a sentar e anotar o que o professor fala. A nova geração de estudantes ainda nem chegou à universidade, mas já tem currículo científico. Neste próximo final de semana, depois de meses de estudo e preparação, 288 estudantes do Nordeste, com idades entre nove e dezesseis anos, participarão do First Lego® League (FLL), um torneio internacional de robótica que nesta edição reunirá soluções inteligentes para as cidades. Ao todo, 36 equipes apresentarão e defenderão seus projetos.


Uma delas é a TecGold, da Escola Sesi Reitor Miguel Calmon, na Fazenda Grande do Retiro, em Salvador, onde o FLL será realizado. Os nove componentes desta equipe, orientados pelos professores Fabiana Dunham e Augusto Ost, desenvolveram uma iniciativa que tem título de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).


Batizado de “Casarões 3D: Memórias e esquecimentos”, o projeto conta com um aplicativo móvel que contém a história, descrição e modelagem 3D de três casarões históricos de Salvador: o Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, o Palácio Arquiepiscopal, no Pelourinho, e o Casarão dos Azulejos Azuis, no Comércio.

Equipe TecGold

Equipe TecGold

Equipe TecGold
Estudante do 9º ano e participante da TecGold, Catharina Leite, 14, conta que a ideia surgiu quando uma das integrantes da equipe passou pela frente do Solar Boa Vista e viu que o estado de conservação do imóvel não estava dos melhores. Não bastasse estar caindo os pedaços, os colegas identificaram um problema ainda maior: a deterioração do solar poderia significar uma perda histórica. “É que fazendo esse trabalho a gente descobriu que ali foi a casa do escritor Castro Alves”, justifica a jovem.


Para não deixar essas memórias perdidas no passado, o grupo criou um QR Code, uma espécie de código de barras que pode ser lido pela câmera do celular e que leva às informações sobre o casarão. Fixado à uma placa em frente ao local, o código levará ao conteúdo que contempla, inclusive, pessoas com deficiência visual e estrangeiros, já que a galerinha está atenta ao tema da acessibilidade. Para isso, a TecGold investiu em áudio descrição e tradução para inglês e espanhol. 


O trabalho, inclusive, foi apresentado no Fórum Agenda Bahia 2019, promovido pelo CORREIO, onde os estudantes tiveram a oportunidade de entrar em contato com autoridades municipais para solicitar autorização para instalação das placas.


Tecnologia assistiva


Quem também vai estar na disputa pelo torneio é a galera do time Robograma, do Centro Juvenil de Ciência e Cultura, em Nazaré. A equipe que tem um membro de apenas nove aninhos desenvolveu uma tecnologia assistiva para pessoas com deficiência auditiva. Esse tema foi escolhido após uma palestra do coletivo Surdos Que Ouvem, formado por pessoas que tiveram perda auditiva e que utilizam aparelhos para escutar melhor.


De acordo com Victor Hugo de Jesus, 15, estudante do ensino médio, a ferramenta foi desenvolvida com base nas necessidades dessa comunidade. Ele explica que as pessoas totalmente surdas têm a língua de sinais disponível como política pública, mas quase nenhuma iniciativa governamental contempla quem tem baixa audição. A partir daí, eles desenvolveram um modelo usando aro magnético, que atua como um amplificador de som.


“Esse aro converte a voz humana em ondas eletromagnéticas FM, que são transmitidas para o aparelho auditivo da pessoa. É uma tecnologia que já existe, mas é pouco usada no Brasil”, explica o jovem cientista.

 

Victor Hugo e Beatriz, ambos da equipe Robograma - Foto: Betto Jr


Ainda conforme Victor, o dispositivo de acessibilidade se conecta com o tema das cidades inteligentes porque é passível de ser aplicado em locais como teatro, cinema, metrô, aeroporto e guichês de atendimento, o que ajuda a eliminar a presença de outros ruídos para facilitar que as pessoas tenham acesso à comunicação.
Assim como na produção acadêmica, o processo de desenvolvimento desses projetos é todo documentado incluindo, por exemplo, as dificuldades enfrentadas, ferramentas utilizadas e ações desenvolvidas junto à comunidade. Além de produzir essas inovações, no torneio, os competidores têm que construir e testar a agilidade de robôs construídos com peças Lego®. Para essa fase, a equipe TecGold personalizou sua arena montando um casarão antigo.


Jogo de cartas


A Escola Municipal Deputado Cristóvão Ferreira, no bairro de Itacaranha, também estará bem representada com o time R2D2, que desenvolveu o jogo de cartas Conect People - Resolvendo Problemas com Empatia. A estudante Laiane Alves do Santos, de 10 anos, conta que o projeto tem o objetivo de fazer com que as pessoas enxerguem os problemas uns dos outros de maneira coletiva. 


No jogo, os participantes são perguntados sobre situações que envolvem problemas da comunidade, como uma situação em que um terreno baldio está virando ponto de proliferação do mosquitos da dengue.


“A gente quer fazer com que as pessoas vejam que é um problema de todos e a gente inventou isso porque queríamos deixar as pessoas mais próximas”, explica Laiane. Na brincadeira, ganha quem responde de forma que dependa menos do governo para solucionar o assunto em questão.


Há oito anos, uma equipe baiana chamada Lovetec venceu o torneio estadual com uma solução para melhorar o acesso de idosos ao transporte público. Os estudantes criaram o Elevatec, um sistema formado por um elevador, localizado nos pontos de ônibus. Composto por barra de segurança, o dispositivo tinha acionamento através de sensor infravermelho.


Para Fernando Didier, coordenador de robótica do Sesi e responsável pela competição, essa é uma espécie de aprendizado chamada de sala de aula invertida. “O aluno se torna protagonista no que faz”, explica. Em todos os projetos inscritos, é necessário ter pelo menos dois professores técnicos, que fazem a mediação do desenvolvimento das ideias. 

Professores técnicos da equipe Robograma - Foto: Betto Jr.


O coordenador acredita que essa interdependência e troca de conhecimento entre os tutores, colegas de equipe e a comunidade está formando uma nova geração de estudantes que, na opinião de Didier, terá melhor capacidade de se relacionar. “Esses jovens começam a entender as necessidades do mundo e veem que sozinhos não vão muito longe”, avalia.


Apaixonada pelo conceito do torneio, Kalyane Alves, 21, atingiu há cinco anos a idade limite de participação, mas nunca quis abandonar o FLL. A paixão pela robótica que aprendeu na competição a fez decidir qual faculdade queria cursar. Atualmente estudante de Engenharia Química da UFBA, ela descobriu que tinha outras formas de continuar envolvida com o FLL e nesta edição participará como técnica de uma equipe de garagem. Kalyane crê que a participação no torneio a fez chegar mais preparada para encarar a universidade.


“O conhecimento de programar um robô eu não chego a utilizar na faculdade, mas toda a lógica por trás, de pensar em equipe, de inovar, de não entregar qualquer projeto, aprendi competindo e tudo isso hoje se reflete na forma como atuo na universidade. Quando tenho um projeto, um trabalho para entregar, hoje sei quais pontos preciso reforçar, fazer melhor”, completa a jovem.


Competidores


Além da Bahia, estarão na disputa pelo FLL estudantes de Alagoas, Piauí e Sergipe. Aqui no estado, colégios de outras dez cidades baianas estão inscritos. Na ocasião, virão à Salvador estudantes de Alagoinhas, Barreiras, Caetité, Camaçari, Candeias, Feira de Santana, Ilhéus, Luís Eduardo Magalhães e Vitória da Conquista. Os quase trezentos competidores concorrem à três vagas na etapa nacional que será realizada em março, em São Paulo. O torneio é aberto ao público.


Neste fim de semana, haverá também a seleção para a etapa nacional do F1 In Schools, desafio que faz parte de um projeto internacional da própria Fórmula 1 em que estudantes de ensino médio utilizam diversos recursos tecnológicos para projetar, modelar e testar um protótipo de um carro de F1. Estreante na categoria F1 In Schools no ano passado, o SESI Bahia foi campeão brasileiro na disputa realizada no Rio de Janeiro e representou o Brasil na competição internacional, realizada em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes.


First Lego League


Quando? 8 e 9 de fevereiro
Que horas? Das 7h às 18h
Onde? Escola Sesi Reitor Miguel Calmon, que fica na Rua Visconde de Monte Alegre, s/n, Fazenda Grande do Retiro
Quem pode ir? O evento é aberto ao público
 
Da Redação, com informações do Correio da Bahia