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Geral

Relato de um pescador em cenário de genocídio ambiental no rio São Francisco

Rodrigo de Castro Dias - 28 de Agosto de 2017

Peixes mortos na Lagoa de Itaparica, em Xique-Xique/BA

Peixes mortos na Lagoa de Itaparica, local de reprodução da fauna pesqueira no rio São Francisco (Reprodução/YouTube)

Por Railton do N. Barbosa

Relato enviado pelo professor, pescador e ambientalista Railton, de Xique-Xique, contando da operação empreendida no último dia 23 de agosto por ele e pessoas da comunidade local para salvar peixes da morte na Lagoa de Itaparica, no rio São Francisco.

Naquele dia, logo cedo, na companhia do Soldado PM Erivelton e alguns filhos de Pescadores Artesanais, resolvemos improvisar um equipamento para monitorar a Lagoa de Itaparica...

Para tanto, confeccionamos alguns equipamentos de pesca, tais como puçás feitos com cestinhas de bicicletas e com sacos novos de cebola.

Na oficina de  Urbano, o soldado Erivelton conseguiu emprestado um automóvel D-20 para o translado da equipe. 

Numa loja de materiais de construção, o referido policial militar também conseguiu uma caixa d'água de 1000 litros para um possível resgate de alevinos.

Enquanto isso, nas oficinas  de Baixinho e do amigo Cleones Oliveira, conseguimos duas câmaras de ar com uma pequena mangueira, para, numa tentativa de improviso, tentar oxigenar a água de onde transportaríamos os respectivos peixes.

De posse de todo o material e com a devida autorização da Direção da Escola Polivalente, instituição onde leciono para cerca de 500 estudantes do ensino fundamental II, nos deslocamos para a ipueira do rio São Francisco, que banha a cidade de Xique-Xique, onde enchemos a caixa d'água para o possível resgate dos peixes.

De mão em mão, com a ajuda dos jovens filhos de pescadores,  conseguimos encher a caixa d'água e nos deslocamos para a Lagoa de Itaparica.

Ao chegarmos no local, nos deparamos com um cenário desolador, no qual havia pouca água e muitos peixes sendo perseguidos por alguns pescadores, onde alguns os matavam com facões e outros os capturavam com tarrafas e outros tipos de rede com malha fina. 

No mesmo contexto, fizemos a primeira captura dos peixes, onde haviam muitas piabas, curimatelas sabirugas e sobretudo, tilápias.

Nos reunimos e decidimos resgatar apenas as tilápias e transportá-las para um tanque com 500.000 litros na propriedade do senhor Francisco de Assis Freire, apelidado Chico do Cachimbo. Esta medida de resgatar apenas as tilápias vivas foi no sentido de armazenar um pouco de alimentos, pois com a seca da Lagoa, não sabemos o que poderá acontecer no porvir.

Quanto aos peixes nativos que ainda restavam naquele ambiente, aguardamos que fossem resgatados por Instituições que dispunham de um moderno equipamento de transporte e salvamento, no caso o transfish.

Por volta das 17:00hs, encontrei, ainda na Lagoa, um estudante da escola Polivalente de Xique-Xique, que estava pescando no ambiente. Me desloquei ao encontro do mesmo e começarmos a conversar. Durante o diálogo, ele me relatou sobre a existência da mortandade de peixes há alguns metros dali. De pronto, fomos verificar o local e nos deparamos com uma catástrofe: milhares ou talvez milhões de peixes amontoados e mortos, num rastro de destruição. Segundo o mesmo, no dia anterior, houve uma ventania muito forte na Lagoa, a qual arremessou a água pra bem longe. Quando o temporal cessou, a água se espalhou e os peixes não conseguiram retornar para o local de origem, onde morreram agonizando aos poucos, em busca de pessoas para resgatá-los ainda com vida e devolvê-los a um local seguro onde poderiam aguardar a enchente, ou talvez eles tivessem que morrer ali mesmo garantindo a continuidade da cadeia alimentar, pois outros animais se alimentarão de suas carcaças.

Por volta das 18:00hs daquele inesquecível dia, nos deslocamos para a cidade, onde fomos, já à noite, para a fazenda Algaroba, propriedade do senhor Chico do Cachimbo, onde colocamos cerca de 250 tilápias vivas, pois este peixe trata-se de uma espécie exótica e não poderia ser levada para o rio.

Portanto, estes foram os pormenores do que ocorreu naquele dia sinistro.

Aproveitando o ensejo, gostaria de parabenizar os SOLDADOS pelo seu dia. Parabéns Cabo Carlos Social da CAESA e Soldado Erivelton da PMBA, membros deste grupo. Que Deus os proteja sempre!