JOVEM ESCRITOR C&R

Rafaele Xavier estuda pedagogia na Unopar, é de Irecê e a autora desta sexta

Cultura&Realidade - 13 de Dezembro de 2019

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REFÉNS DO SILÊNCIO

O que acabara de acontecer, poderia ser comparado à cena que antecede uma tragédia num filme de terror: os gritos, os prantos... E por fim, o silêncio. O silêncio que anuncia que para um dos protagonistas, a cena acabou. 
Era sempre daquele jeito – brigas em vez de amor; humilhações em vez de carinho. Na covardia das forças desiguais, diariamente os crimes eram cometidos na vida daquela família. A pobre menina queria tanto fazer alguma coisa: gritar, pular em cima dele, puni-lo por suas malvadezas... Ela não merecia aquilo. Pensava em pedir socorro, proteção, mas quem a ouviria a tempo? Ficar ali agachada, envolvendo o corpo com os braços, na esperança de que aquilo terminasse logo, como fizera das vezes anteriores, parecia-lhe a única solução cabível – tornou-se refém do medo. Ele a agredia de forma dura e ininterrupta, revezando entre murros, chutes e pontapés... Instantes depois, na tentativa de justificar seus atos de covardia, colocava a culpa na bebida. Como lobo em pele de cordeiro, ele pedia-lhe perdão, jurava que nunca lhe bateria novamente; até virem as próximas agressões. 

Ela fazia de conta que os ferimentos nem estavam ali entranhados em sua pele, por debaixo da longa saia preta, a mesma que usara semana passada, quando suas pernas ganharam a pigmentação de um roxo avermelhado. Se não fosse triste, seria quase um tom bonito – quase. Quando lhe perguntavam sobre alguma marca que estivesse por seus braços, pescoço e rosto, ela dizia que tinha escorregado no chão do banheiro ou que havia se machucado, enquanto limpava algo. Embora seus lábios revelassem apenas a rotina desastrosa de uma dona de casa, o seu olhar trazia consigo a tristeza de uma mulher, que outrora gozara de liberdade e pudera imaginar para si uma vida feliz; agora, entretanto, se vira presa a uma vida de dor e humilhações causadas por quem deveria protegê-la.  Ela sempre esperava por um gesto de amor, de companheirismo, um presente qualquer. Mas ao invés de rosas vermelhas, o "presente" que sempre lhe fora dado, eram marcas roxas, que combinavam com os antigos hematomas negros em sua pele, consequências das ações dele – motivadas pelos sentimentos dele. Embriagado, na certeza da impunidade, ele impôs o silêncio aos inocentes. Sentia-se o juiz sentenciador do veredicto e, sem limite na sua insanidade, ainda se gabava sobre a dor da sua vítima: negando o amor, impunha a violência. Terrivelmente, a noção que se tinha é que naquele dia, ele tinha ido longe demais. 

O silêncio que havia se sucedido foi destruído, quando se ouviram murmúrios de uma voz chorando e pedindo perdão. Infelizmente, era a voz dele que ecoava pelo ar. Seu coração ainda pulava, agora em sincronia com as batidas que estavam sendo feitas na porta do armário, onde estava escondida. Ao abri-las, um par de olhos aterrorizados revelavam o que tinha acontecido – seu pai acabara de assassinar sua mãe. Diante daquela cena, o brilho, outrora presente no olhar infantil, desapareceu, assim como a inocência de criança. O pequeno anjo acabara de perder uma parte preciosa de si – uma parte tão preciosa feito as estrelas que habitam o céu. A dor do luto veio de imediato. 

Ver o corpo sem expressão de sua mãe, que em nada se parecia com a mulher que conhecera e com quem aprendera a verdadeira personificação do amor, era doloroso demais. Uma pena que não tenha havido amor suficiente para libertá-la de sofrer até o último instante nas mãos de um tirano, deixando ao diminuto ser apenas lembranças de um lar há muito tempo destruído. A tristeza fez morada no órfão coração; onde antes se tinha a ilusão de que sua mãe era eterna. Com o passar dos anos, só restou seguir em frente, embora nosso herdeiro soubesse que carregaria consigo a sensação de vazio, e todos os traumas vividos naquele lar, até o último dia de sua vida.

Rafaele Xavier mora em Irecê, está no VI semestre de pedagogia na Unopar.

“Desde criança sempre gostei de escrever, e meu amor pela leitura me ajuda na inspiração. Escrevo para expor sentimentos, principalmente quando leio um livro que tenha um impacto muito grande em minha vida. Livros com temas como pedofilia e violência contra a mulher. As palavras vêm na minha mente como uma descarga de energia e eu preciso colocar para fora. É surreal.“

 

JOVEM ESCRITOR C&R

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Da Redação.