Educação

Primeiro aluno com a deficiência visual recebe título de graduação no IFBA-Irecê

Cultura&Realidade - 18 de Novembro de 2019

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William foi o primeiro aluno com a deficiência visual a se formar no Campus - Foto|: Ilustração

 

Muita emoção marcou mais uma colação de grau no IFBA Campus Irecê. A cerimônia aconteceu no último dia 01. Na oportunidade receberam grau correspondente ao curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas (ADS) os(a) alunos(a) Débora Miranda da Gama, Harley Pontes Pereira, Helder Paiva Rodrigues, Luciano Alves Machada Júnior e William Gomes Borges.

Alunos fazendo o juramento. Da direita para esquerda: Débora Miranda da Gama, Luciano Alves Machada Júnior, Harley Pontes Pereira, Helder Paiva Rodrigues e William Gomes Borges

Apesar de ter sido muito especial para todos, esse momento foi ainda mais marcante para William, primeiro cego a receber diploma de graduação no IFBA Campus Irecê.

William iniciou sua jornada no IFBA em 31 de março de 2014, ainda no curso técnico subsequente em biocombustíveis. Segundo ele essa experiência foi fundamental para eu conseguir uma vaga através do SISU no curso superior em Análise e Desenvolvimento de Sistemas - ADS, curso este iniciando em 16 de março de 2015, primeira turma do curso no Campus.

Natural do povoado de Tiburcio, Canarana/BA, Willam teve de deixar sua família para morar com parentes naquela cidade. 
De lá seria possível pegar o ônibus que o conduziria até o IFBA. Isso ainda representaria viajar cerca de 70 km todos os dias para ir e voltar da instituição.

William assinando a ata da colação de grau

O mesmo relembra que nos primeiros meses do curso, por mais de um ano e meio, não havia transporte para retorno logo após o período de aula, tendo ele que ficar das 18h20 até às 22h30 aguardando o ônibus que o conduziria de volta.

William lembra que quando ingressou no curso superior não tinha habilidades para utilizar o computador, nem como usuário comum. Por isso, a ajuda de alguns servidores foi fundamental. "Os professores sempre estavam prontos para me ajudar, desenvolvendo métodos e técnicas para promover meu aprendizado", comenta. " O desenvolvimento de programas, e sua adequação à minha realidade me fez aprender coisas muito boas na prática, saindo do campo teórico" ressalta o discente.

Os serviços e atuação do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas - NAPNE, também foram muito importantes para seu desenvolvimento. Segundo ele, "o setor atuava na orientação dos professores e adaptação dos materiais a serem usados nas atividades de aulas, tornando o aprendizado interativo e mais fácil". "O uso das tecnologias assistivas adquiridas pelo campus fez com que esse Núcleo pudesse desenvolver essa importante função," completa.

Iza Rocha, coordenadora do NAPNE, lembra como foram esses anos de trabalho com William. " Quando William chegou ao Campus, foram necessárias algumas ações para garantir a sua inclusão, ele conseguiu inicialmente o acesso, mas seria necessário assegurar sua permanência, aprendizagem e conclusão com êxito, para isso houve um empenho do Campus para aquisição de recursos referentes à Tecnologia Assistiva, com o objetivo de garantir a sua acessibilidade" relata. "Foi disponibilizado para o estudante um notebook com o software Virtual Vision, também uma máquina de escrever em Braille. Outros produtos em relevo e em Braille, inclusive uma impressora foram adquiridos para o NAPNE, onde foi disponibilizado para ele o atendimento no turno oposto à aula, para o estudo do Braille, visto que a sua alfabetização foi apenas oral, e também Orientação e Mobilidade, sendo que antes ele sempre dependia de outras pessoas para se locomover por não saber usar a bengala. Também se cuidou da acessibilidade arquitetônica com a colocação de piso tátil e sinalização em Braille", ressalta a servidora.

 

Iza se sente muito feliz por ter participado desse processo de inclusão. "Foi emocionante acompanhar o seu desenvolvimento acadêmico e a sua autonomia, mas, mais que aprender, aqui ele nos ensinou. Depois de conviver com ele, seus colegas, professores e demais servidores certamente passaram a ter outro conceito a respeito das pessoas com deficiência visual. William nos ensinou a ver as coisas com outros olhos," finaliza emocionada.

 

William treinando o uso da bengala nas instalações do campus

William mostra-se muito grato por tudo que a instituição fez para lhes proporcionar a inclusão e aprendizados necessários para sua formação. Para ele "foi muito gratificante e satisfatório estudar no IFBA, não tenho palavras para agradecer, mais feliz ainda por conseguir a graduação no IFBA, uma instituição federal, e na minha região".

Para Robério Batista, Diretor-Geral Pro Tempore, "essa colação de grau foi um momento muito importante para o instituto, em especial para o campus Irecê, por conta, além da formação dos outros alunos, a colação de grau de Willam, aluno cego". "Sabemos que conseguimos dar passos largos para garantir a inclusão desse aluno. Mas temos plena consciência de que há muito a ser feito para garantir o acesse e a formação de mais pessoas com necessidades específicas no campus" pontua. "É um momento de muita felicidade e ao mesmo tempo de reflexão, para que possamos garantir que mais pessoas com necessidades específicas possam entrar e formar nessa instituição" finaliza. 

Da Redação, com informações do IFBA - Irecê.