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Por que a ministra Damares precisa maratonar “Sex Education”?

Cultura&Realidade - 11 de Fevereiro de 2020

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Educar sexualmente é acima de tudo promover uma sociedade saudável - Foto: Ilustração

Além de claramente heteronormativa, a ilusão da abstinência sexual associada à falta de diálogo gera um efeito reverso para os jovens
Nos atendimentos do nosso dia a dia enquanto profissionais de saúde, nos deparamos diariamente com situações de gestações indesejadas, infecções sexualmente transmissíveis, queixas sexuais e dificuldades em relação à sexualidade em sua forma mais ampla. Ao questionar os/as pacientes, encontramos inúmeras informações erradas ou distorcidas sobre sexo e tudo que ele pode envolver: relacionamentos, cuidado com o corpo e planejamento familiar.


Quando avaliamos em trabalhos científicos ou na prática diária questões como “onde você aprendeu sobre sexo e sexualidade?” “Quem te deu as primeiras orientações sexuais?” “Com quem você conversa sobre sexo?”, encontramos como respostas mais frequentes: conversas com amigos, internet ou com o parceiro ou parceira quando iniciou a vida sexual. A lacuna causada pela falta de uma educação sexual formal pode levar a prejuízos individuais e sociais importantes.


Desde a última campanha para a presidência, estamos diante de uma crescente falta de informação sobre o que é educação sexual. Os partidos mais conservadores fizeram crescer inúmeras quantidades de fake news sobre “kit gay” – amplamente comprovado que não existia -, “mamadeiras em formato de pênis” que nunca foram desenvolvidas e aulas sobre sexo que supostamente seriam dadas em escolas. Tais informações geraram medo e desinformação em boa parcela da sociedade que acredita que educar sexualmente estimula a prática sexual, leva a sexualização precoce, estimula orientações sexuais diversas ou mudança de gênero, entre outros conflitos religiosos como a “perda do valor” para mulheres.


Em concordância com essas ideias, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do atual governo, Damares Alves, sugeriu que a abstinência sexual até o casamento fosse defendida como campanha para o carnaval de 2020, deixando em segundo plano o uso de preservativos e a testagem gratuita para IST. Tal campanha já recebe críticas diretas da Defensoria Pública da União, por não se embasar e ir de encontro a inúmeros estudos e pesquisas de cunho científico mundial que apontam a estratégia como falha para a diminuição de gestações precoces e infecções sexualmente transmissíveis (dados da Associação de Pediatria e Adolescência dos EUA – em coadunação com vários outros trabalhos nacionais e de outros países).


Na contramão dessas ideias, há cerca de um mês entrou em cartaz na Netflix o seriado inglês Sex Education. Em sua segunda temporada, ainda mais polêmica que a primeira, aborda temas sobre sexualidade adolescente e adulta, falta de conhecimento da população jovem sobre seus corpos, práticas sexuais e métodos de prevenção de forma ampla e irrestrita, e logo tornou-se uma das mais assistidas no Brasil no momento, tanto por jovens como por adultos. Esse dado nos mostra de forma clara o quanto o tema é interessante e necessário neste momento.

Além de claramente heteronormativa, a ilusão da abstinência sexual associada à falta de diálogo claro sobre o corpo humano, suas funções e sua sexualidade, gera um efeito reverso para os jovens, que de forma universal pensam e querem se informar sobre sexo. Não falar com os jovens apenas muda a fonte de informação, que passa a ser a informal com efeitos extremamente deletérios.


Para a população LGBT+ em especial, a educação sexual quando existe é feita apenas com a finalidade de contracepção, e não leva em consideração as diferenças e peculiaridades deste grupo de pessoas. Como mostrado no seriado, meninos gays precisam ser informados sobre cuidados com a prática sexual anal adequada, meninas lésbicas precisam aprender sobre cuidados com sexo oral, e todos devem ser informados sobre essas práticas que são realizadas também por aqueles em relações heterossexuais. Mas o que vemos é uma educação sexual informal, em que praticamente se fala em termos heteronormativos, em que a mulher é ensinada a dar prazer ao homem, não aprende sobre o seu próprio corpo e a espera que o parceiro seja amoroso e delicado, enquanto homens adquirem informações sobre sexo através da pornografia, aprendem de forma distorcida sobre performance sexual e esperam uma parceira sempre pronta para o sexo. Estudos apontam que essa dicotomização da educação sexual entre homens e mulheres seja a principal causa de disfunções sexuais em ambos os sexos, independente da orientação sexual, mas com maior expressão da população heterossexual.


Mas se por um lado a população LGBT+ apresenta menor índice de queixas sexuais, por outro, a falta de educação sexual a deixa mais vulnerável a doenças, sejam elas sexualmente transmissíveis ou relacionadas às práticas sexuais inadequadas. Além disso, quando a diversidade sexual não é abordada, a população LGBT+ fica sujeita a mais um agravo: o mental. Quadros de ansiedade por não obter informações adequadas, preconceito ao procurar profissionais para tirar suas dúvidas, depressão e abuso de drogas por frustrações em relacionamentos não saudáveis ou abusivos em várias escalas devido à falta de amadurecimento sobre questões afetivo-sexuais.


Educar sexualmente não é estimular. Estudos norte-americanos e europeus demonstram há décadas que crianças que recebem educação sexual formal iniciam sua vida sexual mais tardiamente, com mais responsabilidade, tem menos gestações indesejadas e acima de tudo são menos vulneráveis a abusos sexuais. Crianças LGBTs, sobretudo mulheres trans e lésbicas, são as mais submetidas a abusos sexuais para “aprender a ser homem ou mulher de verdade”. E esses abusos em sua maioria não são relatados. Alguns por medo das ameaças sofridas, outros porque a criança não é capaz de identificar que está sofrendo um abuso. Essas crianças crescem com inúmeros agravos mentais e físicos, tem índices aumentados de suicídio e abuso de drogas, por vezes tornam-se replicadores do abuso sofrido em suas relações na vida adulta.


A educação sexual é um dever de todos: família, escola e governo. Medidas públicas em formatos de campanhas servem para aumentar o foco no assunto e devem ser desenvolvidas com responsabilidade, clareza, abrangência e norteadas por pesquisas sérias sem vieses religiosos, patriarcais ou políticos. A sexualidade em sua definição mais ampla envolve mais do que corpos que se encontram para um ato de prazer e/ou procriação. Ela define como aquele ser interage com o mundo a sua volta e consigo mesmo. Aprendendo corretamente sobre sexualidade, aquele ser humano se desenvolverá de forma mais plena, segura, autoconfiante, mais tolerante consigo e com o outro.


Por Karina Cidrim, Carta Capital