JOVEM ESCRITOR C&R

Pedrinho Pereira mora em São Gabriel, tem 17 anos, é discente do IFBA-Irecê e o autor desta quarta, 20

Cultura&Realidade - 20 de Novembro de 2019 (atualizado 21/Nov/2019 08h25)

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Canto da sobrevivência de um escravo

Olha só, foi num dia de penumbra,
Que assim fui concebido,
Pelo fim do século XIX,
Onde os pilares da escravidão,
Ainda não tinham sido totalmente destruídos,
Numa noite de devaneios,
Minha mãe escrava de um senhor de engenho,
Maltratada e humilhada sempre,
Sem ter direito algum de revogar direito sobre
Seu próprio corpo, ele a chamou a num canto,
E a pediu que o molestasse,
Minha mãe recusou é claro sem nenhum disparate,
Nem adiantou rebater antes que ele a estuprasse,
Então o tempo se passou,
Com minha mãe grávida,
O coronel infeliz só a maltratava,
A batia sem piedade,
E a obrigava a trabalhar sem nenhuma compaixão,
Ainda a fazia sangrar,
Então logo nasci,
E não vi diferente,
Só aumentavam as mortes,
E o descaso da minha gente,
Assim que cresci um pouquinho,
Fiquei totalmente sem amor,
O desgraçado do coronel vendeu minha mãe,
Para um tal de outro senhor,
Cresci as amarguras,
Sofrendo e vendo meu povo sofrer,
Mas levei no peito o nome Zumbi dos palmares,
Que não ei de esquecer,
Fui testemunha das lutas de Besouro,
vi ele queimar o canavial,
Mas tarde transbordei em ver,
Getúlio Vargas declarar a capoeira,
Como esporte Nacional,
Trago cicatrizes nas costas,
Pois foi assim que quase morri,
Amarrado num tronco de Jataí,
Mas sobrevivi às dores e consegui fugir,
O meu povo e eu lutamos,
Para valer a assinatura da princesa Isabel,
Pois a abolição naquela época só constava,
Num simples pedaço de papel,
Fizemos revoluções,
Criamos comunidades quilombolas,
Fizemos que o nosso povo,
Não virasse só história,
Buscamos nossos direitos até de vez conseguir,
E quero que saibam de fato que não foi bem fácil assim,
As correntes da nossa alforria,
Não foram abertas simplesmente com a lei Áurea
Muita gente morreu, muita gente sofreu,
Muita gente foi assassinada,
Hoje estou morto claro e não morri escravizado,
Quase cheguei no século XXI,
E te juro que mesmo daqui não tô sossegado,
Minha sepultura treme,
Em ver o que meu povo ainda passa,
Todo o racismo que é imposto,
Todas as morte e ameaças, “.................
................”
De certo que é visível de noite e de dia, 
Que esse é o século da tecnologia, 
Mas não nego que também é o da hipocrisia, 
E te conto que vi outro dia uma senhoria, 
Dizer que no meu Brasil,
A escravidão nunca existiu e que nunca existia, 
Que nós nos escravizávamos, 
Por nossa própria valia,
E que nunca precisamos gritar pela nossa alforria, 
Enquanto eu temia, eu chorava, eu sofria, 
E todos os dias eu repetia, 
Eu repetia meu pai onde e quando vai parar essa agonia, 
Boa parte se passou, 
Mas não é o momento de se calar, 
Nem agora nem depois, 
Nunca há de silenciar, 
Agora mais do que nunca, 
É hora de negar a reverência, 
Pois se fere a minha existência, 
Eu serei resistência,
Não importa a diferença, opção sexual ou cor,
Só sei que vamos embriagar o ódio, 
Com uma dose de amor,
Seja aqui onde for,
Viva a diversidade meu amor,
E morra as desigualdades por favor.

Pedrinho Pereira mora em São Gabriel tem 17 anos e é discente do 3º ano e Curso informática no IFBA - Campus Irecê.
 


“Quando me descobri nesse universo, jamais hesitei em viajar o máximo que pudesse. Escrever me faz ser eu mesmo, me faz sentir prazer na vida, prazer em fazer pessoas felizes, representadas, vivas e inspiradas com meus textos,  afinal a maioria dos meus textos são armas que atiram informações e resistência; uso a escrita pra representar o meu povo, as nossas minorias dessa sociedade esdrúxula e enfim escrever pra mim é viver essa poesia chamada vida!”

 

JOVEM ESCRITOR C&R

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Da Redação.