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Opinião C&R: os peixes agonizando no Velho Chico é um aviso do que pode acontecer conosco se não agirmos

28 de Agosto de 2017 (atualizado 28/Ago/2017 17h35)

Peixes morrendo na Lagoa de Itaparica

Milhares de peixes morrendo na lama da Lagoa de Itaparica, outrora um santuário natural (Reprodução/YouTube)

Por Rodrigo de Castro Dias*

A tragédia registrada no vídeo acima é um retrato de que a morte é o presente na bacia do Rio São Francisco. Um rio em que peixes agonizam asfixiados na lama que deveria ser uma lagoa marginal com água abundante - a Lagoa de Itaparica, um (ex) patrimônio natural - é um rio em coma profundo. 

Acompanhando o vídeo com fortes ventos prejudicando a captura de áudio, segue em texto divulgado no WhatsApp o relato desesperado de Railton Barbosa, professor, ambientalista e filho de pescadores. Alguém que deve sua vida ao Velho Chico. 

"Como nunca antes visto, ela vai secar totalmente num intervalo de menos de dois anos consecutivos", sentencia Railton, com o amargor de quem sabe bem o significado do que está falando. Estamos em fins de agosto, e a chuva só chegará provavelmente em novembro. Até lá a lagoa vai secar ainda mais, matando a maioria dos peixes.

O estado vegetativo que o maior berçário natural de toda a enorme bacia do São Francisco se encontra é fruto do descaso. Das autoridades, que insistiram na transposição de milhões de m³ de água sem um plano equivalente de revitalização do rio e dos seus afluentes. E da sociedade, que pouco se importou com as consequências da exploração desenfreada dos recursos naturais da região. 

A Lagoa de Itaparica possui cerca de 2.400 hectares de extensão, algo equivalente a 2.400 estádios do Maracanã. A área, irônicamente situada em uma unidade de conservação estadual, sempre foi suporte para a população ribeirinha da região de Xique-Xique e Barra, que depende da pesca como pilar econômico e de subsistência. Com a situação atual, sabe-se lá o que essa população irá fazer como alternativa para sobreviver.

Assim como Railton e a população ribeirinha, todos nós que vivemos na área de influência da bacia do São Francisco também depende dele para sobreviver. A agonia progressiva do rio deveria nos comover, mas o que se vê é apenas a resignação inaudita de quem considera os problemas ambientais coisa pequena e distante.

Prova disso é a discrepância entre a atenção dedicada aos temas da preservação e revitalização em comparação com os projetos de exploração econômica de recursos da bacia, como o Baixio de Irecê - que nunca decolou de fato - e o mais recente Canal Da Redenção, este mais uma proposta de caráter faraônico que aposta no desvio de águas do já combalido rio. Sabe-se lá quantos milhões de reais custará, se sair do papel. 

Cuidar do que nos provê vida não está no topo das nossas prioridades. Espremer o suco que ainda resta dele parece ser mais importante.

O nordeste brasileiro sofre com a falta de água, mas a transposição, da forma como foi feita, não vai resolver o problema conforme prometido, pois a água continua concentrada na mão de poucos - ou seja, na mão do agronegócio. O saldo fica com o rio, que a cada ano demonstra não aguentar a carga da retirada de vazão. Some-se o desmatamento das margens, que gera assoreamento (entupimento) do leito e a poluição gerada pelos agrotóxicos do agronegócio, e temos um quadro clínico de um paciente terminal. 

Aqui, fico com a sabedoria das palavras de Railton: "ou tomamos decisões sábias que contribuam com a preservação da água e dos recursos pesqueiros... Ou sofreremos as consequências futuras, pois o rico tem pra onde migrar em caso de crise, e o pobre, ficará a mercê dos políticos corruptos e das instituições inoperantes?"

Diante da realidade importa, restou a Railton e sua comunidade salvar o que dá dos peixes, transportando-os para tanques particulares. Atitude louvável, de verdadeiros heróis. Mas se o rio continuar minguando, de nada adiantará.

Hoje são os peixes que morrem por não ter como respirar. Amanhã seremos nós a morrer sem ter o que beber. 

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*Rodrigo de Castro Dias é jornalista, ex-editor e colaborador do Jornal Cultura&Realidade