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Cultura, Esporte e Lazer

A pedrada em Alcymar e a ovação a Marília são um fragmento alegórico da disputa musical pelo São João

01 de Julho de 2017 (atualizado 03/Jul/2017 20h08)

Alcymar Monteiro e Marília Mendonça fizeram show no São João 2017 em Irecê.

Fotomontagem: Alcymar Monteiro e Marília Mendonça tocaram em palcos diferentes no São João de Irecê. Eles se envolveram em entrevero sobre espaço nos palcos do São João (Reprodução)

Por Rodrigo de Castro Dias*

Não dá para fechar os olhos para a descaracterização cultural que o São João nordestino vem sofrendo.

As festas de São João se assemelham cada vez mais aos festivais de música como Villa Mix e Festival de Verão, feitos para grandes multidões.

Os promotores de eventos estão cada vez mais privilegiando um círculo restrito de artistas escudados por enormes aparatos de mídia.

O sertanejo universitário está na ponta de lança deste movimento. 

Em resposta a isso, um grupo crescente de forrozeiros aderiram a campanha Devolva Meu São João.

Eles querem que os organizadores parem de contratar tantos artistas de outros gêneros musicais.

O movimento é legítimo. Centenas de músicos do forró pé-de-serra reclamam com razão da forma como eles vem sendo progressivamente excluídos dos eventos de São João, sejam eles públicos ou privados.

Um exemplo ireceense: a festa Forró Sertão trouxe como principais atrações Ivete Sangalo, Anitta, Leo Santana e Gustavo Lima. 

Desafio alguém a encontrar um traço de forró que seja neste evento.

Contudo, é ingenuidade pensar que os organizadores vão fechar os olhos para a preferência musical do público.

Este se transforma com o passar dos anos. E é mediado principalmente pelo poder da mídia. 

E nela, a bola da vez é o sertanejo universitário. Assim sendo, é esperado que isso interfira na agenda musical dos organizadores.

O assunto foi o motivo da grande polêmica desse São João, o entrevero envolvendo Elba Ramalho, Marília Mendonça e Alcymar Monteiro.

Os dois últimos estiveram no São João de Irecê. 

A primeira foi o grande destaque, a menina-dos-olhos da programação. O segundo também foi destaque, mas no palco do São Pedro da Boa Vista. Um palco menor, digamos assim.

Isso talvez espelhe o retrato musical do país atualmente.

O forró, assim como outros gêneros, foi eclipsado pelo fenômeno do sertanejo universitário. O Brasil canta sertanejo hoje. 

Até aí, nenhum problema. Os artistas do meio são muito organizados e batalharam duro pelo espaço conquistado.

O problema é quando essa conquista passa a prejudicar o espaço e ganha pão dos outros.

É o que está acontecendo com o pessoal do forró.

"Se o artista é bom, ele se garante. Só quem é bom fica na boca do povo", alguns podem afirmar.

Não se trata disso. Quem faz sucesso é quem tem estrutura de marketing por trás.

Aparece na tv. Vai ao Domingão do Faustão. Toca em todas as rádios. 

Que, por sinal, vivem do jabá que as gravadoras e artistas pagam para que estas toquem suas músicas por dias e semanas a fio.

Não é uma reclamação, e sim uma constatação.

Voltando a falar em Marília e Alcymar, enquanto a princesa do sertanejo foi recebida com pompas, o rei do forró foi acolhido à pedradas. Literalmente.

Foi no show do forrozeiro cearense que ocorreu o episódio mais lamentável deste São João 2017 em Irecê.

Uma pessoa, aparentemente bêbada, jogou uma mão cheia de brita no palco, acertando uma das dançarinas. Acabou sendo notícia no Brasil inteiro.

Uma pena. O São João de Irecê, que foi ótimo, não merecia terminar com uma manchete negativa, ainda mais por causa de um episódio isolado de destempero.

O episódio não mancha o legado desta edição. Mas representa, de forma alegórica, como os dois gêneros musicais vem sendo tratados pelos organizadores das festas de São João.

Ao sertanejo, pompas e confetes. Ao forró, migalhas e pedradas.

*Rodrigo de Castro Dias é jornalista e editor do Cultura&Realidade