file-2017-02-08175959.335653-Banner-CR-topo-notcia_22b9a9f62-ee39-11e6-aece-047d7b108db3.jpg

Opinião C&R

Opinião C&R: pesquisa divulgada em Irecê despista mais do que revela

20 de Setembro de 2016 (atualizado 27/Mar/2017 23h17)

file-2017-03-27201716.573233-cer848fe26a-1343-11e7-a2a7-047d7b108db3.jpg

Por Rodrigo de Castro Dias*

Eis que surge a primeira pesquisa eleitoral registrada - ou seja, publicada - em Irecê desde o início da campanha eleitoral oficial, em 15 de Agosto. Isso não significa que os candidatos não tenham feito as suas pesquisas. Chamadas de "consumo interno", elas servem apenas para monitoramento do eleitorado, tanto que não são registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não podendo ser divulgadas. Mesmo assim, informações sempre acabam vazando e chegando a várias pessoas em forma de boatos. Chegamos, contudo, a reta final da disputa eleitoral. Contando a partir de hoje, faltam apenas 12 dias para as eleições municipais. Já era hora de haver informações oficias a respeito das intenções de voto do eleitorado ireceense. O resultado não chegou a surpreender: Luizinho Sobral lidera nas intenções de voto. O atual prefeito, candidato a reeleição, tem estado à frente da corrida eleitoral desde as primeiras sondagens, ainda em 2015. O próprio Cultura&Realidade, por meio do seu instituto C&R Pesquisas, realizou um levantamento em setembro do ano passado, onde Luizinho contava com 40% das intenções de votos em uma simulação contra todos os nomes da oposição juntos, que somaram 44%. Elmo Vaz, seu adversário nessa reta final, mal foi cogitado nessa simulação: suas intenções de voto rondavam os 3%. No confronto direto simulado entre Luizinho e Elmo no levantamento de um ano atrás, os dados apontavam 58% a 22% a favor do atual prefeito. Nenhuma novidade até aqui. Vamos então aos números da pesquisa realizada pela Âncora Pesquisas e Publicidade (guardem este nome). O placar mostra Luizinho com 61.3%; Elmo com 29,3% e Dorinha Lélis com apenas 1,5%. Apesar dos números ratificarem a liderança de Luizinho, a diferença traz uma intrigante diferença de cerca de 30% nas intenções de voto, que não se conectam com o que é visto nas ruas muito menos regista a notável ascensão do candidato do PSB no cenário político ireceense desde o final do ano passado, quando ainda não era o principal nome da oposição. Além disso, tirando a pirotecnia típica de campanhas eleitorais (não dá pra levar muito a sério hipérboles como "as maiores carreatas e passeatas de todos os tempos", convenhamos), Irecê vive uma polarização eleitoral que simplesmente não condiz com os 30% de diferença no resultado divulgado hoje. Para completar, a pesquisa foi veiculada em meio a uma polêmica ligada a pesquisas eleitorais que vem ganhando força em uma cidade vizinha nos últimos dias. Em Central, uma pesquisa divulgada pela mesma Âncora Pesquisas e Publicidade foi posta em xeque pelo site Central Notícia (leia aqui), que questionou a eficácia do trabalho do instituto. O CN levantou informações sobre outras pesquisas realizadas pela mesma em que o resultado da eleição foi bem diferente da projeção apontada no levantamento. Que fique claro que uma pesquisa não precisa necessariamente apontar o resultado exato, até porque existe uma margem de erro (que no caso da pesquisa divulgada hoje é de 5%, uma margem considerável), sem contar que a opinião das pessoas pode mudar dentro de poucos dias. O que realmente causa incômodo no imbróglio em Central é que a reportagem do CN tentou entrar em contato com o instituto, sem sucesso. Contato telefônico, nada. O que vos escreve tentou algumas vezes para confirmar. Ligação - para celular - só dá o famoso "fora de área ou desligado". A propósito: caso interesse a alguém tentar contato, o telefone comercial divulgado pela Âncora é o 71 9 9924-5822, único número disponível. Soa estranho que uma empresa não tenha telefone fixo para contato. A reportagem do CN enviou ainda uma pessoa até o endereço informado pelo instituto, em Salvador, apenas para descobrir que o escritório não funciona no local, apesar de ser o endereço cadastrado no registro de CNPJ da empresa. A pesquisa está registrada no TSE, conforme a lei determina. Ou seja, até que algum fato diga o contrário, ela deve ser aceita como documento idôneo, apesar do mistério que envolve o instituto que a realizou. E antes que me perguntem, pouco importa quem tenha sido o contratante. A obrigação é que qualquer levantamento estatístico de interesse público deve ser realizado com lisura e qualidade, independente de quem encomende. O histórico de levantamentos estatísticos na Bahia, no entanto, nos leva a desconfiar. Além dos próprios exemplos de equívocos do instituto Âncora, episódios como da eleição anterior para a prefeitura de Irecê, na qual Luizinho Sobral foi apontado com folga como líder em uma pesquisa divulgada às vésperas da eleição em 2012 (relembre aqui), porém venceu de forma apertada, abastecem a desconfiança sobre os números. Quem não se lembra dá célebre pesquisa que apontava empate nas eleições para governador em 2014? A pesquisa foi divulgada no dia da eleição; poucas horas depois, Rui Costa era eleito governador com mais de 1,1 milhão de votos à frente de Paulo Souto. Analisando todo o contexto, situações de bastidores e histórico de pesquisas eleitorais, os números divulgados hoje devem ser compreendidos à luz dos conselhos do Marquês de Maricá: "Confiar desconfiando é uma regra muito salutar da prudência humana".

*Rodrigo é jornalista e editor do Cultura&Realidade