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Opinião C&R

Opinião C&R: Irecê, uma cidade "de açúcar"

16 de Novembro de 2016 (atualizado 27/Mar/2017 16h03)

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A "viela" que escoa água das chuvas para... a praça Clériston Andrade. Os pedestres que façam a volta para atravessar. (Rodrigo de Castro Dias)
 
Por Rodrigo de Castro Dias* (atualizada às 22:58h)
 
Uma gíria recorrente na linguagem coloquial do nordestino, sobretudo aquele que vive no interior, diz que as pessoas são "de açúcar" quando não podem se molhar na chuva, uma alusão ao comportamento do açúcar quando vê água: ele se desmancha.
 
Geralmente usamos tal figura de linguagem com pessoas que se enclausuram em suas casas sempre que a chuva vem, desacostumadas que são com a água - muito bem vinda, por sinal - que cai do céu em períodos cada vez mais curtos e concentrados a cada ano que passa.
 
Sabe como é. Não temos prática com guarda-chuvas ou capas de chuva, afinal, na maior parte do tempo não precisamos deles. Quando a chuva vem, estamos destreinados para lidar com ela nas situações do dia-a-dia.
 
Mas e quando uma cidade - no caso, Irecê - veste perfeitamente a carapuça do indivíduo que não pode tomar uma chuva, senão derrete?
 
É trágico: Irecê não sabe lidar com o período de chuvas que, por sinal, está apenas começando. A cidade não possui uma estrutura decente de drenagem de águas pluviais.
 
Na verdade, drenagem é um item que aparenta nunca ter marcado presença na lista de prioridades das gestões municipais em toda a sua história. A praça Clériston Andrade, uma referência no centro da cidade, se transforma em uma lagoa, com as ruas adjacentes se comportando como riachos que a alimentam.
 
Ao lado do prédio do SAC, existe uma "viela" (na falta de definição melhor - vejam a foto), dedicada a passagem de água que vem das ruas próximas. O destino final dessa estrutura é a própria praça.
 
A Rua Lafaiete Coutinho (rua do antigo Fórum) é outro descalabro. Quando chove, se transforma em algo análogo a uma raia olímpica das provas de natação. Você pode colocar uma canoa e praticar para provas de canoagem, se quiser. Toda a região central é afetada.
 
Praça do Feijão, Avenida Santos Lopes, Mercadão e vizinhanças ficam alagadas no período de chuva. É também uma questão de topografia, que direciona a água pluvial para esses locais.
 
E a infraestrutura ireceense não suporta a carga. No Loteamento Fernandes, a população também sofre. Em todas estas áreas, com certeza, existem construções em descompasso com as normas. Não é preciso dizer que isso é um enorme problema para os moradores.
 
No meu roteiro de casa para o trabalho, passo pela região relatada nas linhas acima. Hoje, tive que fazer desvios, praticar salto em distância, entre outras peripécias. Assim como eu, várias pessoas fizeram o mesmo.
 
E a reação de praticamente todas elas é semelhante, uma mistura de descontentamento com resignação. "Irecê quando chove fica impraticável", ouvi de uma senhora na frente do SAC. O rapaz do mototáxi brincou, dizendo que "dependendo de onde eu passo, preferia um bote pra trabalhar".
 
Mas a melhor definição veio do vendedor de lanches ambulante: "Bicho, na verdade Irecê foi feita na base do facão!". Claro que o problema não é somente de locomoção - este, aliás, é o menor deles. É uma questão de saneamento básico, pois diz respeito ao risco de proliferação de doenças. Uma dor de cabeça a mais para o serviço de saúde e limpeza pública municipal.
 
Os alagamentos afetam também as habitações, que sofrem com umidade e infiltrações. Atrapalha o trânsito. Prejudica a cidade de diversas maneiras. Irecê é uma cidade em crescimento, que sofre duramente com a ausência de planejamento, e não pode ignorar uma questão estrutural como a da drenagem de águas pluviais, algo que está intimamente ligada ao saneamento básico.
 
Quanto mais a solução desse problema for adiada, mais difícil será para agir a respeito no futuro. O governante que ousar encarar e solucionar esse problema certamente entrará para a história local.
 
A partir de janeiro, teremos um engenheiro civil na prefeitura, técnico de carreira da Embasa e especialista em gestão de águas e resíduos. Decerto, não terá como resolver um problema histórico que vem desde a fundação da cidade. Porém, poderá apontar caminhos para os futuros gestores - quem sabe através de melhorias no Plano Diretor - e adotar medidas minimizadoras.
 
Quem sabe fomentar a cultura da expansão urbana planejada, de modo a coibir o crescimento desordenado? É o que se espera dele, devido a sua expertise no ramo. Algo diferente disso será decepcionante, sem dúvida. Enquanto isso não acontece, seguimos lidando com a nossa cidade que não pode ver água, senão derrete. Irecê de açúcar.  
 
*Rodrigo de Castro Dias é jornalista e editor do Cultura&Realidade