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Opinião C&R

Opinião C&R: Boatos são muito mais danosos do que a gente pensa

Rodrigo de Castro Dias - 22 de Março de 2017 (atualizado 27/Mar/2017 15h56)

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Foto: Durante o ataque, muitos ireceenses conviveram com o medo - real - de ser alvejado por uma bala perdida. Outros medos - como a da fuga em massa de presos - foram alimentados por boatos (Reprodução/redes sociais)

Por Rodrigo de Castro Dias*

O ataque ao Banco do Brasil em Irecê no começo desta semana foi pródigo na demonstração de um comportamento extremamente comum ao ser humano no ambiente social, mas que ganhou uma dimensão muito maior na era da Tecnologia da Informação: a contação de boatos.

Tão logo o som das explosões e de tiros irromperam na cidade, centenas de mensagens começaram a circular nas redes sociais, especialmente no WhatsApp, de longe o app de mensagens mais popular.

"Meu Deus, fiquei sabendo que estouraram três bancos de uma só vez!". "Um amigo policial me disse agora que os bandidos entraram na delegacia e renderam os policiais". "Jesus, tão falando que já soltaram os presos da delegacia, e agora?". "Fizeram reféns no Carrapateira (bar), quanta desgraça meu Deus". 

Em meio ao clima de medo e incerteza sobre o que de fato ocorria nas ruas, declarações como essas só serviram para causar (mais) desespero nas pessoas, já suficientemente assustadas com o estampido de tiros de pistolas e rajadas de metralhadoras.

A boataria, embora reprovável, é compreensível vindo de pessoas comuns, ávidas por entender o que de fato estava acontecendo. O clima de comoção é fértil para interpretarmos informações de forma distorcida. Cada suposto fato, recebido e passado adiante sem critério é como uma bola de neve que cresce continuamente. 

Ok. Isso é algo que não podemos controlar, cabendo a gente ter calma e não acreditar em tudo que chega aos nossos olhos e ouvidos. 

Mas o que fazer quando as informações chegam de quem a gente julga ter credibilidade?

É inaceitável tal comportamento partir de quem se espera critério e apuração dos fatos. No afã de "informar" o que estava acontecendo ao público, colegas jornalistas contribuíram para potencializar o clima de terror na cidade. Com desgosto presenciei veículos de comunicação locais e regionais passando adiante boatos como a da fuga de presos, ataques a outras agências, todas as entradas da cidade cercadas, pessoas sendo feitas reféns em bares, etc. 

Dito isso, é preciso dizer que equívocos são comuns a prática jornalística. Apurar informações é algo muito mais complexo do que se supõe, e muitas vezes somos induzidos a noticiar informações que depois se provam imprecisas. Com o Cultura&Realidade não é diferente. Erramos sim, e com certa frequência, assim como qualquer outro veículo jornalístico. 

A diferença está na humildade para reconhecer equívocos e buscar levar ao público sempre a informação correta, mesmo que para isso seja necessário pedir desculpas e fazer erratas - item importante no manual do bom jornalismo. Em situações limite como a da madrugada de segunda-feira, passar adiante boatos como a da fuga de presos - que só geram mais pânico, é de uma insensibilidade e irresponsabilidade flagrante. 

A exploração da violência nos meios de comunicação é um problema intensamente debatido no mundo todo, mas que ainda engatinha no Brasil, haja vista a proliferação de programas do naipe do Cidade Alerta, Se Liga Bocão, Brasil Urgente, dentre outros. Nossa legislação é extremamente permissiva com o sensacionalismo da violência - algo, aliás, que importamos dos EUA. Por outro lado o Uruguai, nosso vizinho, deu um passo importante e inspirador ao banir programas que explorem a violência de forma nociva nos seus meios de comunicação. Deveríamos olhar com atenção para essa iniciativa.

Nós jornalistas precisamos ter em mente que possuímos enorme responsabilidade com o que noticiamos. Em situações como a que vivenciamos anteontem, até mesmo questões de saúde estão envolvidas. Imaginem a reação de pessoas hipertensas ao saber que a sua vizinhança pode estar cheia de criminosos em fuga? E a preocupação de amigos e parentes com a integridade dos seus? Pessoas podem enfartar em situações onde as emoções ficam muito exarcebadas, caso tenham predisposição para ataques cardíacos. E isso é apenas um exemplo, existem muitos outros. Se me permitem um relato pessoal, minha esposa, a quem considero uma pessoa calma e segura de si, teve taquicardia nos momentos mais tensos do ataque. Moramos na região central, então ouvimos com detalhes o frenesi que acontecia. Chegamos a temer por balas perdidas, assim como todo mundo que mora nessa parte de Irecê. 

Muitas pessoas passaram pelo que nós passamos, várias outras viveram pânico muito maior do que nós. Tudo o que nós não precisamos é de uma imprensa que amplifique o medo com notícias baseadas em boatos. Já basta o enorme susto que presenciamos com nossos próprios olhos.

*Editor do Cultura&Realidade