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Opinião C&R

Opinião C&R: ainda há esperança quando uma menina de 16 anos dá uma aula de democracia a deputados

27 de Outubro de 2016 (atualizado 27/Mar/2017 16h04)

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Foto: Ana Júlia discursa em plenária na Assembleia Legislativa do Paraná (Reprodução)

Por Rodrigo de Castro Dias*

O avanço da PEC 241, que foi votada favoravelmente na Câmara de Deputados em duas rodadas e segue agora para o Senado, motivou milhares de estudantes a se levantarem contra a medida que enfraquecerá sistematicamente o já combalido sistema educacional brasileiro, que já sofre a ameaça do projeto Escola Sem Partido.

Neste momento, passa de mil o número de escolas ocupadas por todo o país. Estudantes de dezenas de universidades estaduais e federais também aderiram ao movimento, que ganha força a cada dia, a despeito da cegueira da imprensa para o assunto. Esta atende a outros interesses, lamentavelmente.

A morte de um adolescente em uma escola ocupada no Paraná foi utilizada de forma oportunista - canalha, mesmo - pela imprensa, pelo governo e por parlamentares do Paraná para desmoralizar e desestabilizar o movimento.

Sim, o mesmo Paraná do governador Beto Richa (PSDB) que assistiu a uma enorme paralisação de seus professores da rede pública, que protestavam por melhores salários e condições dignas de trabalho. Lembremos: Richa é o mandatário do massacre promovido pela PM contra os professores durante protesto em Curitiba.

E foi do mesmo Paraná que hoje reúne um governador truculento com as classes menos favorecidas e uma Justiça arbitrária e parcial (vide tratamentos diferenciados para denúncias, mesmo não comprovadas, feitas contra segmentos da esquerda e da direita, mas que somente da esquerda são investigadas), personificada na figura do juiz Sérgio Moro, que veio um exemplo revigorante de democracia e luta por direitos.

Convidada para explicar aos parlamentares paranaenses nesta quarta (26) por que as escolas estão sendo ocupadas, Ana Júlia, 16 anos, deu uma aula de democracia aos que em tese deveriam ser escolados nos valores democráticos. “Sabemos pelo que estamos lutando. A nossa única bandeira é a educação”, começou, exibindo segurança e controle emocional, mesmo estando visivelmente emocionada. “Somos um movimento dos estudantes pelos estudantes, que se preocupa com as gerações futuras, com a sociedade, com o futuro do Brasil. É por isso que nós ocupamos as nossas escolas”.

Conforme seu pronunciamento seguia, as câmeras da TV legislativa passeavam pelos olhares incrédulos dos deputados - alguns não escondiam o desconforto e o constrangimento. Para ela, “é um insulto sermos chamados de doutrinados. É um insulto aos estudantes e aos professores”.

Eis o ponto mais importante.

De fato é um insulto, e um insulto que deveria ofender a todos nós, estudantes ou não. É um insulto ver que nossos direitos sociais estão na iminência de serem desmontados graças a medidas como a PEC 241. Sobre a Escola Sem Partido, Ana Júlia foi ainda mais contundente: “é uma escola sem senso crítico, é uma escola racista, homofóbica. É falar para os jovens que querem formar um exército de não pensantes, um exército que ouve e baixa a cabeça. Não somos isso. Escola Sem Partido nos insulta, nos humilha, nos fala que não temos capacidade de pensar por nós mesmos”.

Que o exemplo de Ana Júlia inspire a comunidade acadêmica da Uneb em Irecê. Hoje (27) a tarde os estudantes do campus XVI vão decidir em Assembleia Geral se aderem ou não ao movimento de ocupação. Na Bahia, a maior parte das universidades estaduais e federais, além de vários campi de Institutos Federais (Ifba), estão com seus estudantes mobilizados.

E os estudantes de Irecê e região? Ficarão impassíveis ao que acontece no Brasil inteiro?