file-2017-02-08175959.335653-Banner-CR-topo-notcia_22b9a9f62-ee39-11e6-aece-047d7b108db3.jpg

Opinião C&R

Opinião C&R: a vitória do novo contra o falso novo

03 de Outubro de 2016 (atualizado 27/Mar/2017 23h17)

file-2017-03-27201700.818713-cer7b2be282-1343-11e7-b24c-047d7b108db3.jpg

Por Rodrigo de Castro Dias*

Nos últimos dias da campanha eleitoral deste ano, assistimos a um misto de razões e emoções transbordando pelas ruas ireceenses. De um lado, o desejo de mudança e renovação contra a figura que havia sido eleita, 4 anos antes, justamente com o lema do novo. Do outro, a ilusão ofertada pela propaganda aliada ao medo que só a opressão pode proporcionar. Dolorosamente, o novo se revelou antigo em seus anos à frente da administração municipal. Afeito a escola política da oligarquia e do coronelismo governou, tal como um senhor de terras, a cidade que uma vez foi administrada por seu pai, de quem herdou seu legado político. Teve no marketing o ponto alto da sua administração. As palmeiras imperiais, as tintas e o photoshop mostravam uma cidade que parecia, mas não era. Eram as reformas eternamente remendadas a marca de Irecê nos últimos tempos. Um símbolo tão marcante que rendeu a música mais tragicômica de toda a campanha: "É fazendo e desmanchando, fazendo e desmanchando, suas obras são malfeitas, prefeito não me engano". Para não ser injusto, é preciso dizer que Luizinho Sobral sempre manteve o salário dos servidores em dia e realizou grandiosas festas de São João, que trouxeram milhares de turistas à cidade. Mas isso é muito pouco diante de lacunas crônicas da administração municipal, especialmente no campo da saúde. Reinaugurar um hospital as vésperas da campanha - quando poderia tê-lo feito muito antes - é uma piada. Esse hospital não funcionar como um de verdade, inclusive com falha elétrica no dia seguinte a abertura, é uma afronta. Já do lado da renovação - que esperamos ser verdadeira - vemos um indivíduo oriundo de uma escola diferente. Servidor público, construiu sua trajetória trabalhando em empresas públicas. Chegou a presidência da Codevasf, uma empresa pública estratégica para o Nordeste. Quando esteve na Embasa, deixou sua marca na região, ao colaborar amplamente para a implantação da adutora do São Francisco, que abastece a população de cidades do platô ireceense. Tal obra resolveu, de uma só tacada, os problemas crônicos de abastecimento de água para mais de 100 mil pessoas. Legados postos frente à frente, coube ao cidadão e cidadã de Irecê decidir o que queria. Porém, tentativas de dissimulação foram escancaradas aos olhos da cidade. Entre outras coisas, o atual prefeito privou a população de assistir ao embate de propostas entre ele e seus adversários. Fugiu fragorosamente do debate. Não satisfeito, recorreu a velha prática de fazer obras em plena campanha eleitoral. Como num passe de mágica, brotaram asfalto (de péssima qualidade), semáforos (sem planejamento algum) e diversas maquiagens pelas ruas da cidade. Houveram ainda tentativas de manipular a opinião pública por meio de pesquisas com resultados que não refletiam a realidade da opinião do eleitorado. O resultado das urnas demonstrou, porém, que a estratégia não deu certo. Luizinho Sobral deixa a prefeitura de Irecê, derrotado mais pelo que semeou do que pelo que foi apresentado pelos adversários. Elmo Vaz representa a esperança de um fazer diferente, mas ainda é uma incógnita em termos de representação política e popular. Possui currículo notável na gestão pública, mas ainda é inexperiente em matéria de articulação política/partidária e diálogo com diversos setores sociais e a população em geral. Irecê não é a Codevasf, tampouco a população ireceense é a equipe de servidores de um órgão público. Terá que lidar com as mais variadas pressões e interesses de diversas figuras e grupos que habitualmente transitam nos bastidores do poder público. Sua campanha, por outro lado, demonstrou que ele está disposto a enfrentar na prática a dificuldade que é estar a frente de uma cidade, atendendo aos mais variados anseios dos seus cidadãos. Ele foi o único candidato que demonstrou vontade para dialogar com a população nos bairros, ouvir as necessidades das pessoas em sua campanha. Se terá êxito em cumprir com o que pretende, só o tempo dirá. Por hora, nos resta celebrar a vitória do novo. E torcer para que desta fez o novo faça jus ao significado de renovação.

*Rodrigo é jornalista e editor do Cultura&Realidade