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Opinião C&R

Opinião C&R: A imoralidade do aumento salarial de vereadores, prefeito e vice em Irecê

22 de Dezembro de 2016 (atualizado 27/Mar/2017 16h02)

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Foto: protestos desse tipo são fruto da descrença geral que se instalou sobre a classe política. Motivos existem de sobra (Reprodução) 

Por Rodrigo de Castro Dias

O assunto do momento no fim de ano ireceense não é o Natal, tampouco a recessão, muito menos os descalabros diários na política nacional. Todas as atenções estão centradas no quase corriqueiro aumento salarial que a classe política se dá na reta final do seu mandato.

Como já sabemos, a Câmara de Vereadores de Irecê se concedeu um aumento salarial, que se estendeu ao executivo municipal. Vereadores passam a ganhar R$ 10.128, prefeito, R$ 25.000 e vice-prefeito, R$ 12,5 mil.

Mas por que "quase corriqueiro"? Porque, em tese, todos os trabalhadores deveriam ganhar reajustes salariais para cobrir as perdas decorrentes da inflação. Por trabalhadores, entende-se toda a massa laboral que vende a sua mão-de-obra em troca de uma remuneração, e aí se inclui os agentes políticos, que são servidores públicos por definição.

Em um mundo menos injusto, todos teriam os seus ajustes para não perder poder de compra, e quem sabe ganhar um pouco mais todo ano. Mas estamos falando da vida real, mais especificamente do Brasil.

Aqui, existe um abismo entre o que ganha um político e o que ganha um professor de ensino fundamental, por exemplo. É apenas uma pequena amostragem do fosso gigante da desigualdade que nos aflige. Não podemos nos esquecer de que, além dos altos salários, os agentes políticos tem acesso a uma série de auxílios financeiros que custeiam um leque de despesas, que são garantidos por lei.

A nossa legislação concede uma excelente estrutura de trabalho e remuneração aos nossos políticos. A questão é: soa imoral falar em aumento para políticos em tempos de recessão econômica e desemprego, quando estes já ganham tão bem. O esforço dos vereadores ireceenses para fazer valer o seu aumento salarial prova aquela máxima de que "farinha pouca, meu pirão primeiro".

Que fique claro: não existe crime aí, está na legislação. Mas precisava? Era prioridade?

Com o país em frangalhos, aumentar o próprio salário, excelente por sinal, deveria ser a última coisa a se pensar. A classe política está extremamente desacreditada. Agir em benefício próprio, mesmo que dentro da lei, não vai ajudar em nada a melhorar a imagem de vereadores, prefeitos, deputados, senadores etc com os seus eleitores. O índice de abstenção eleitoral em Irecê passou de 20% na última eleição municipal. Especialmente entre os jovens, a desilusão com a escolha democrática é flagrante.

Não é para menos, ora. "Para quê votar se a política como um todo não me inspira confiança? Pelo contrário, só me decepciona". Este é o pensamento de muitos. Ao mesmo tempo que o poder legislativo, executivo e judiciário aumenta o próprio salário, os direitos dos cidadãos - apesar de tudo, cidadãos - estão sendo sistematicamente enfraquecidos, em nome da austeridade fiscal, do corte de gastos. Se você quer que as pessoas aceitem arrocho, é de se esperar que os líderes deem o exemplo.

Estamos fartos de privilégios para poucos. A reaçao popular contra o aumento promovido pela Câmara em Irecê é um exemplo disso. Apesar de tudo, cabe aqui um aplauso aos vereadores Pascoal Martins e Margarida Cardoso, que votaram contra na sessão derradeira que aprovou o reajuste. Demonstraram atenção a insatisfação popular e agiram com decência nessa questão.

O prefeito Luizinho Sobral, que vetou em novembro o aumento, merece elogio pela postura, embora seu veto tenha sido derrubada posteriormente pela Câmara. Ou seja, ficou mais como um "não concordo", que foi rejeitado pelos vereadores, inclusive os que compõem sua base partidária. Por isso fica a dúvida se houve de fato uma discussão política entre prefeitura e Câmara sobre rejeitar o aumento.

Mas que fique também a lição para todos nós. Quando não participamos ativamente da vida política da nossa cidade (e do nosso país), é isso que acontece. 2016 é o retrato da imobilidade do nosso povo, que até protesta, mas sem saber para onde mirar. A cidadania não se encerra com o voto. Na verdade, começa nele. Se nos intervalos entre as votações ficamos mudos e surdos, de nada adianta.