CORONAVÍRUS

OMS alerta para "transmissão descontrolada" sem saída gradual de quarentena

Cultura&Realidade - 16 de Abril de 2020

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A OMS alertou sobre o risco de promover "curas e profilaxias, sem qualquer prova de benefício" - Foto: Ilustração

Numa nova estratégia mundial apresentada para lidar com a pandemia, a OMS (Organização Mundial da Saúde) apela para que governos assumam a liderança no combate contra o coronavírus e indica que, depois de três meses de estudos e evidências, começa finalmente a "conhecer melhor o inimigo" que já matou mais de 120 mil pessoas e jogou a economia em sua pior recessão desde a década de 30.


 Mas, pela primeira vez e com 2 milhões de pessoas contaminadas, a nova estratégia fala abertamente sobre o risco de que a transmissão do vírus pode ocorrer de forma "descontrolada" se países que adotaram quarentenas resolvam suspender as medidas de forma abrupta. A agência defende uma transição cautelosa e gradual.


O plano, publicado na noite desta terça-feira em Genebra (Suíça), revela que a taxa de mortalidade do vírus é de 3% e que 20% das pessoas infectadas desenvolvem um estado severo ou crítico. 
A nova estratégia está sendo revelada no momento em que Donald Trump, o maior doador de recursos para a OMS, anuncia que suspendeu o repasse. 


De acordo com o novo plano, a "proliferação explosiva" do vírus colocou até sistemas de saúde sólidos em risco. Apenas 40% dos casos identificados são suaves, contra 40% num estado moderado (incluindo pneumonia).


Taxa de mortalidade maior entre idosos Se a taxa geral de mortalidade é de 3%, ela chega a 15% para pessoas com mais de 80 anos de idade. 


De acordo com a OMS, as medidas de distanciamento social e as restrições de movimento podem retardar a transmissão. Em locais com contaminação comprovada, a entidade sugere que "autoridades devam adotar e adaptar imediatamente medidas de afastamento da população e restrições à circulação, para além de outras medidas de saúde pública e do sistema de saúde, a fim de reduzir a exposição e suprimir a transmissão”.
Segundo Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da entidade, ao colocar populações inteiras em quarentena, "reduzimos a capacidade de propagação do vírus nas nossas comunidades". 


"Estas medidas defensivas ajudaram a limitar alguns dos impactos a curto prazo do vírus e deram-nos tempo para traduzir o que aprendemos sobre o vírus em soluções para que possamos regressar a um modo de vida mais normal: um novo normal", destacou. 


Durante a quarentena, Tedros apela para que todos os casos sejam "encontrados, testados e isolados". "Este princípio irá salvar vidas e atenuar o impacto econômico da pandemia", disse. Para a OMS, a agilidade dos governos em suprimir novos surtos e ampliar a capacidade dos sistemas de saúde é o que vai garantir algum resultado.


A estratégia ainda conta com os seguintes componentes:


- Suprimir a transmissão comunitária através de medidas de prevenção e controle de infecções adequadas ao contexto, medidas de afastamento físico da população e restrições adequadas e proporcionadas às viagens nacionais e internacionais não essenciais;
- Reduzir a mortalidade, prestando cuidados clínicos adequados às pessoas afetadas pelo covid-19, assegurando a continuidade dos serviços essenciais de saúde e sociais e protegendo os trabalhadores da linha da frente e as populações vulneráveis; 
- Desenvolver vacinas e terapias seguras e eficazes que possam ser fornecidas em grande escala e que sejam acessíveis com base nas necessidades.


Impacto social 


A agência aponta que essas medidas podem ter um profundo impacto negativo nos indivíduos, comunidades e sociedades, ao pôr quase fim à vida social e econômica. "Tais medidas afetam de forma mais dura os grupos desfavorecidos", alertou. 


Para a OMS, governos precisam avaliar de que forma precisarão responder às necessidades dessas populações afetadas pelas quarentenas e dar alternativas de renda.


Transição 


Para a OMS, países que introduziram medidas de afastamento físico generalizado e restrições à circulação a nível da população precisam, de forma "urgente", planejar uma "transição em fases para a retirada dessas restrições, de forma a permitir a supressão sustentável da transmissão a um nível reduzido, permitindo simultaneamente o reinício de algumas partes da vida econômica e social, prioritariamente através de um equilíbrio cuidadoso entre os benefícios econômicos e os riscos epidemiológicos".


"Sem um planejamento cuidadoso, e na ausência de um aumento das capacidades de saúde pública e de cuidados clínicos, é provável que o levantamento prematuro das medidas de afastamento físico conduza a um ressurgimento descontrolado na transmissão e a uma segunda onda amplificada de casos", alerta.

 
"Para reduzir o risco de novos surtos, as medidas devem ser levantadas em fases, com base numa avaliação dos riscos epidemiológicos e dos benefícios econômicos do levantamento das restrições em diferentes locais de trabalho, estabelecimentos de ensino e atividades sociais (tais como concertos, eventos religiosos, eventos esportivos)", disse a OMS.


O ideal seria que houvesse um período mínimo de duas semanas (correspondente ao período de incubação da covid-19) entre cada fase da transição, recomenda o documento.


Seis critérios foram apresentados nesta semana pela OMS para que governos levem em consideração a retirada das restrições. Um deles é a garantia de que há um sinal de que a transmissão está controlada, além de investimentos no setor de saúde e o engajamento da sociedade.


Papel do governo Para a OMS, o central na resposta à pandemia é o papel do Estado e de seus líderes. "A determinação e o sacrifício dos profissionais de saúde da linha da frente devem ser correspondidos por cada indivíduo e por cada líder político para pôr em prática as medidas necessárias para pôr fim à pandemia", defendeu. 


Para preparar o sistema, a OMS pede que governos atuem com agilidade. A agência defende que governos devem "liderar e coordenar a resposta superando linhas partidárias para permitir e capacitar todos os indivíduos e comunidades a serem donos da resposta através da comunicação, educação, envolvimento, desenvolvimento de capacidades e apoio".


A OMS ainda alerta para o papel em informar a sociedade. "As populações informadas e habilitadas podem proteger-se a si próprias tomando medidas a nível individual e comunitário que permitam reduzir o risco de transmissão", disse. 


"Em contrapartida, informações enganosas, ambíguas e falsas podem ter graves consequências negativas para a saúde pública, nomeadamente ao comprometerem a adesão a medidas de afastamento físico e restrições à circulação, ao promoverem aglomerações", disse. 


A OMS também alertou sobre o risco de promover "curas e profilaxias, sem qualquer prova de benefício". 
"Sabemos agora o que enfrentamos, e nós estamos aprendendo a vencer. A covid-19 ameaça a vida humana, ameaça os meios de subsistência e ameaça o modo de vida de cada indivíduo em cada sociedade", completou a OMS.


Com conteúdo de Uol