CRÔNICA

O Restaurador do Sertão

Cultura&Realidade - 03 de Junho de 2019 (atualizado 04/Jun/2019 14h06)

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Amirton Machado, Pita Paiva e Arlicélio Paiva.

Por: Arlicélio Paiva, professor doutor da UESC, Ilhéus, Bahia

Com o objetivo de ilustrar a importância da cobertura vegetal para proteger o solo e evitar a erosão, eu sempre exibia o vídeo “O Homem que Plantava Árvores” para os alunos da disciplina Manejo e Conservação do Solo e da Água do curso de Agronomia da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus, Bahia.

O premiado vídeo canadense é baseado no livro homônimo do escritor francês Jean Giono, que narra uma incrível história de um solitário pastor de ovelhas, Elzéard Bouffier que, após perder a sua família, passou a viver em uma região isolada no interior da França, onde restaurou uma área completamente degradada pela atividade humana, plantando mais de dez mil mudas de carvalho. Um único homem mudou completamente o ambiente! Onde havia uma área desprovida de vida passou a ter uma verdadeira floresta na qual “soprava uma brisa suave carregada de odores”, como diz a narrativa, e com abundância de água e de várias formas de vida. Não é exagero comparar a relação entre Elzéard Bouffier e a floresta que ele mesmo criou, com um trecho de uma música das Coleguinhas, Simone e Simaria – “A gente vai ser assim, eu cuido de você, você cuida de mim”.

O empenho individual e silencioso de Elzéard Bouffier servia como estímulo e inspiração para que os estudantes debatessem sobre as formas de menor impacto para desenvolver as atividades agrícolas. Mas, no final, a decepção dos alunos – a história não era real! Eles expressavam a sua indignação: como assim, professor, isso não pode ser apenas uma ficção! Tal qual ocorria com os meus alunos, confesso que eu também ficava desalentado. Não pode ser, isso tudo é tão perfeito, tem que ser verdadeiro! Acreditei que aquela história poderia existir de verdade em alguma parte do mundo, mas não imaginava onde. Talvez em algum lugar longe!

Em uma das constantes visitas à casa dos meus pais na Região de Irecê, o meu saudoso pai me apresentou o livro “Um Conto de Cada Canto”, escrito pelo poeta e escritor Pita Paiva. Nesse livro, Pita Paiva garimpou diversos depoimentos (contos) de pessoas simples que moravam em vários locais (cantos) do Município de Uibaí, Bahia. Dentre os extraordinários contos chamou-me a atenção “O Plantador e a Ingazeira Ameaçada”. Nesse episódio, um homem simples e de enorme sabedoria, após vivenciar todo tipo de atividade predatória ao meio ambiente, achando que aquilo era normal, mais tarde mudou o seu modo de comportar-se perante a natureza e estava extremamente preocupado com uma ingazeira, que apresentava severos sintomas de que morreria em breve. A planta havia sido queimada e o seu tronco estava oco, com uma parte dela já morta. Até chegar à ingazeira, ele ia apresentando as diversas árvores que, sozinho, havia plantado por uma área que ele adquiriu já degradada. Apesar do seu esforço, a ingazeira acabou morrendo!

Aquele conto me provocou uma profunda reflexão e descobri que “O Homem que Plantava Árvores” existia e estava bem próximo a mim! Vale aqui lembrar a frase do escritor Richard Bach – Longe é um lugar que não existe.

Passei então a adotar “O Plantador e a Ingazeira Ameaçada” nas aulas, após a exibição do vídeo “O Homem que Plantava Árvores”. Os alunos faziam a mesma analogia que eu fiz entre Elzéard Bouffier e Amirton da Rocha Machado (Amirtão), o homem que lutou para salvar a ingazeira.

Aproveitando o entusiasmo da turma, marcamos uma viagem que duraria um dia inteiro dentro de um ônibus, rumo a Uibaí, na Região de Irecê. Precisávamos conhecer Amirtão! Na chegada, fomos ciceroneados por Pita Paiva que nos apresentou ao senhor Amirtão e à sua esposa, Dona Maria. A alegria contagiante do casal regeu o tom da visita.

Amirtão nos contou que já exerceu diversas profissões. Além de agricultor, trabalhou ao longo dos anos como torrefador de café, garimpeiro, marceneiro e pedreiro nos estados da Bahia, São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Rondônia. Nesse último estado quase perdeu a vida, em função de uma queda quando fazia o emadeiramento de uma casa. No início da década de 1990 sobrevivia da atividade agrícola e era habitual a utilização de queimadas para substituir a caatinga por lavouras. Esse sistema de manejo logo se tornou inviável, pois o que a terra produzia não dava para o sustento da família. Não lhe sobrou alternativa, senão se aventurar pelos garimpos do Mato Grosso.

Dentre os familiares que viajaram com ele e D. Maria foram duas sobrinhas com idade de oito e nove anos, que eram talentosas e gostavam muito de cantar, alegrando a difícil vida nas terras longínquas. Apesar da pouca idade, elas faziam apresentações musicais em um clube local. Vale ressaltar que a inspiração musical das meninas veio da sua mãe, D. Marinês, e também dos seus tios. Como se não bastasse toda a dificuldade que eles passaram, o pai das duas meninas, Antônio Cotia, faleceu no Mato Grosso, fato que apressou a volta para casa.

Poucos anos depois, a vida da família teve destinos diferentes. As meninas foram para São Paulo com a mãe e, após muito esforço, enveredaram pela carreira artística. Atualmente, as Coleguinhas, Simone e Simaria, são reconhecidas pelo público brasileiro, pela brilhante história de sucesso, e mantêm um contato muito estreito com Amirtão e D. Maria, ficando muito tempo com eles quando estão em sua terra natal. Amirtão, com a nova filosofia de que deveria recuperar a degradação das terras, começou a produzir mudas de árvores para reflorestar o Sertão.

No início do trabalho, como não havia recursos financeiros, Amirtão contava apenas com a “cara e a coragem”, como costuma dizer o sertanejo. Reutilizava sacos plásticos de mantimentos, obtidos no lixo, para produzir as mudas, já que não tinha dinheiro para comprar os sacos apropriados.

Com o passar dos anos, obteve o apoio do seu amigo Edimário Oliveira Machado, que lhe doou insumos e um salário mínimo durante dois anos com o compromisso de produzir mudas para recuperação de áreas degradadas da Serra de Uibaí e distribuição gratuita das mudas excedentes. O resultado dessa parceria foi a produção de 8.500 mudas que foram utilizadas para reflorestar 200 hectares de boqueirões, encostas e brejos que estavam completamente devastados. Com o passar dos anos, a área recuperou as nascentes, passando a ter abundância de água e a presença de pássaros e outros animais, tal qual ocorreu com Elzéard Bouffier e sua floresta na França.

Depois desse período, contou com mais quatro meses de salário mínimo pago pela Prefeitura de Uibaí, com o mesmo compromisso. Como resultado dessa ação, Amirtão participou da arborização de vários espaços públicos no município, além de distribuir mudas gratuitamente.

Em 2008, na comemoração de 200 anos do Banco do Brasil, 13 agências do Banco da Região de Irecê encomendaram a Amirtão 200 mudas de árvores para cada agência, com a finalidade de distribuir entre os seus clientes.

Atualmente, Amirtão mora com D. Maria no Sítio Rancho Fundo, que tem cerca de 180 hectares completamente reflorestados por ele, no qual tem um viveiro certificado para produção de mudas de árvores e onde recebe a visita de estudantes, produtores rurais, ambientalistas e pessoas interessadas em adquirir mudas. O seu esforço e a sua capacidade intelectiva, juntamente com o apoio obtido dos amigos, o tornaram um autodidata, exímio conhecedor de várias espécies de árvores. Como resultado da sua ação prática, recebeu várias homenagens de diversas instituições brasileiras. Pelos seus cálculos já foram produzidas mais de 600 mil mudas para reflorestar áreas degradadas e arborizar espaços urbanos. Por essa razão, é justo considerar Amirtão como “O Restaurador do Sertão”.