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Geral

O ENEM e a desarticulação da Escola Pública

10 de Outubro de 2016

Simulado-ENEM.jpg [caption id="attachment_6023" align="aligncenter" width="600"]A quem interessa os rankings de notas no Enem? A quem interessa os rankings de notas no Enem?[/caption] Por Henrique Oliveira* Essa semana o colunista do Estadão, Mateus Prado, escreveu um artigo onde denunciava que Escolas que “não existem” representam 80% dos primeiros lugares no ENEM. Em outras palavras, o colunista escancarou a farsa que é a classificação das escolas por meio das notas obtidas no Exame Nacional do Ensino Médio. Trata-se de um esquema intenso de maquiagem publicitária em que, escolhendo-se os melhores alunos (em termos de nota no exame), criam-se escolas fictícias, que só existem no papel, para ser associadas ao desempenho desses estudantes com melhor nota (e apartadas da influência “negativa” dos outros alunos) e obter uma classificação ilusoriamente alta, que se possa vender publicitariamente. Segundo o colunista, oito das 10 escolas com maior média no ENEM 2014, tem o mesmo nome fantasia de escolas de grande porte pior ranqueadas. “Só que a que aparece nos primeiros lugares do ENEM é uma escola com menos de 60 ou menos de 30 alunos. As escolas maiores, de mesmo nome, na mesma cidade ou até no mesmo endereço, também aparecem no resultado. Porém, se ranqueadas, estão em posições muito distantes das primeiras colocadas e com resultados, em geral, muito ruins se comparados aos das primeiras colocações”, afirma Prado. Mais especificamente, as grandes empresas da educação particular criam CNPJ’s “de ocasião” com o único objetivo de aglutinar as suas melhores notas (notas mesmo, não sujeitos) e, assim, ficar mais bem ranqueadas na avaliação do ENEM. Cooptando os alunos com as melhores notas em simulados, distribuído bolsas, e ajuntando essas notas sob a sombra de empresas falsas, os grandes conglomerados educacionais geram um marketing no mínimo embusteiro e ilegal para atrair mais alunos e rendas. Trata-se de um jogo sujo sob diversos de vista. Primeiro: tal sistema corrompido demonstra que o poder do capital influi no mercado da educação de forma ainda mais intensa e inescrupulosa do que imaginávamos. Não estamos mais falando somente da possibilidade de a educação particular garantir uma melhor formação por falta de investimentos do setor público. Estamos nos referindo de um sistema corrompido em diversas de suas engrenagens; um sistema ligado a um padrão de avaliação que serve não para a melhoria das trajetórias formativas, mas tão somente para fomentar  opiniões e tendências de consumo na sociedade. Na sanha por obter mais alunos e mensalidades, as escolas particulares fabricam resultados; fabricam a ilusão de que, com mais mérito, se pode cobrar mais. Mais ainda: burlando a visão crítica de pais e alunos, tal sistema avaliativo e classificatório do Ensino Médio endossa, com o apoio da mídia de massas, a ideia de que a educação particular é o único caminho para um ensino de qualidade no país. No final das contas, tal exemplo se vincula a mais avanço neoliberal sobre o sentido público e cidadão que uma educação de qualidade deve ter. Falamos de uma aberração avaliativa, que faz recordar a preocupação dos pesquisadores espanhóis Félix Rasco e Silvia Pantojab que, em  2012, escreviam: “desde o final dos anos sessenta, a presença e o sentido da escolaridade pública se encontra em claro declive; um declive que vemos ser acentuado e enfatizado por forças contrárias a tudo o que tenha a ver com o público ou, dito de outra forma, com o comum e o cidadão”. Com comercialização da educação e busca de lucros a todo custo, o que vemos são alunos formados mais para si do que para a coletividade; sujeitos voltados mais ao êxito formal de mercado, do que ao engajamento solidário e cidadão... Num cenário como esse o que esperar dos futuros homens e mulheres brasileiros? *Henrique Oliveira é jornalista, comunicador e educador popular.