CONTOS

O caseiro e o professor

Cultura&Realidade - 09 de Maio de 2020

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Por Tássio Barreto Cunha

Conto baseado em fatos*     

 

               É véspera de natal, dois amigos de infância após algum tempo se encontram em um cruzamento de um pequeno lugarejo do sertão baiano. Ao se cumprimentarem há o anúncio.

- Velho, estou indo agora para Brasília com minha esposa. Vou trabalhar em uma chácara.

O professor enquanto recente morador de Brasília, ressabiado com “milhões” de cenas em mente de formas de tratamento desagradáveis com migrantes, adquiridas por lá e nos rincões do “Brasil a fora”, pega firme na sua mão, lhe deseja boa sorte e internamente segue na aposta eterna da força e superação do trabalhador e se dispõe a ajudar no que puder e o Caseiro precisar. E assim diz:

- Beleza meu camarada, siga firme pela capital federal, a partir de fevereiro eu estou de volta e o que precisar sigo à disposição.

O agora Caseiro segue sua lida, é mais uma aposta na luta e labuta pela sobrevivência depois de passar por outras árduas experiências de trabalho.

O desafio agora também se resulta na distância da família e da base de suas relações pessoais, no choque cultural com as pessoas que viria a conhecer, nos moldes de tratamento trabalhador-empregador, nos locais de moradia e de trabalho, no dinamismo da metrópole, na ilusão propagada pelos lunáticos explorados e perversxs patrões. Estes todos vinculados a um sistema que “não dormem, metade porque tem fome e outra metade com medo dos que tem fome (Josué de Castro).”

O ENCONTRO NA CAPITAL FEDERAL

Passam-se três meses, o Caseiro e o Professor se reencontram já na capital federal. O ar de satisfação da chegada é nítido na atmosfera. Histórias da infância são relembradas com frequência e fervor, acompanhadas de muita animação e recordações de fatos, familiares e amigxs. O reencontro é rápido, a prosa é pouca, mas ficou a sensação voluntária de um momento mais tranquilo para por os papos em dia. Esse ensejo chega rápido e essa confluência vira rotina, a comunicação entre ambos prossegue de modo acentuada ao passo que o Caseiro e o Professor continuam a prosear.  

 O Professor enquanto um pesquisador da dinâmica populacional liga suas “anteninhas de vinil” em relação às condições de trabalho do Caseiro ao passo que as visitas, as prosas e os convites para se encontrarem prosseguem.

Na véspera de um fim de semana de sol o Professor liga e convida o caseiro.

_ Ei bicho, chame sua esposa aê e venha tomar uma aqui em casa, caminhar no parque e darmos um rolê à noite.

_ Poxa velho, a vontade é grande, pois ficar aqui “preso” é ruim mas infelizmente não vai dá. Não posso sair da chácara, o combinado com a dona é que eu só posso sair sábado ou algum feriado se alguém dormir aqui no meu lugar.

_ Oxe, “tu é doido moço”? Como assim?

_ É isso, foi o combinado no contrato (feito de boca)! Seja domingo, feriado ou dia santo, não posso deixar a chácara sem ninguém aqui.

Os meses vão passando e os encontros se encurtam diante da dificuldade do Caseiro de sair do seu local de trabalho.  Mas uma esperança surge e o Caseiro liga para o Professor.

_ E aê velho, só o “mi dibuiado”? Essa semana acho que dá para a gente fazer alguma coisa, pois vem uma galera aqui para a chácara da família da dona passar o feriado e podemos se encontrar. Daí sexta eu te ligo e a gente combina.

_ Valeu cabra, combinado assim!

Chega sexta a noite, o Caseiro não dá notícias e o professor já impaciente liga.

_ O que foi moço que não entrou em contato de segunda até hoje?

_ Cê ta doido... eu não lhe conto. Pois trabalhei o dia todo aqui ajeitando “o povo da dona” no feriado, vão ligar até domingo e não vai dá para sair não. É de lascar!

Esses episódios viraram rotina. Finais de semana, feriados e “dias santo” o Caseiro seguia sua lida enclausurado.

A DEMISÃO AO MEIO DA PANDEMIA DA COVID 19

A terra girou alguns meses e no meio do primeiro semestre de 2020 chegou ao Brasil o “novo coronavírus”, de rápida contaminação e responsável por desenvolver uma gripe mortífera entre humanos. Logo, diversos serviços considerados não essenciais foram paralisados e com esta condição as aulas do Professor são suspensas e o mesmo decidiu retornar a sua terra natal. Com tudo preparado, antes de ir foi visitar o Caseiro. Um dia antes liga para avisar:

_ Tou indo para a terrinha e vou passar aí amanhã velho.

_ Pode vir, estou à espera.

No outro dia o Professor chega na residência do Caseiro e o mesmo lhe convida para ficar por lá até “a maré abaixar”. O Professor ressabiado com a situação pandêmica, mas sempre confiante no Caseiro, aceita, e se predispõe há ficar alguns dias e assim averiguar a situação do Brasil e da capital federal.         

  Os dias passam e agora in loco o Professor começa a observar as condições e relações de trabalho do Caseiro e ouvi-lo mais sobre seu passado. O Caseiro constantemente relata:

_ Vixe velho, eu trabalho é desde de cedo na “xibanca” em roça com painha, “o traste de lá de casa”, meus tios e meu avô e abaixo de Deus uma rapadura. Vida dura! E já rodei esse mundo todo trabalhando em trator preparando terra, levando terra na cara, dormindo encima de turrão. Já lutei muito! Aí depois fui trabalhar na cervejaria carregando e descarregando caixas de cervejas nas entregas, “pulei” para uma fábrica de móveis onde larguei depois de dois anos para vir para cá e aqui estou.

Sabendo dessas informações o Professor ver o Caseiro como um típico trabalhador lutador brasileiro que exerce diferentes funções em variadas partes do país na luta e labuta para sobreviver.

Os dias passam na chácara e cerca de uma semana após a chegada do Professor o Caseiro recebe uma ligação e o professor ao percebê-lo apreensivo pergunta:

_ O que foi moço?     

_ Rapaz, a dona me ligou aqui para me dispensar. Disse que ta apertada e que não pode mais me manter aqui.

_ Mas como? No meio da Pandemia? Sem transporte para tu ir embora com sua esposa?

_ Que tal aí? Moço, esse povo não tem coração não... pediu para eu escolher se eu queria assinar o aviso e eu aceitei, disse que a “gerente e o contador” vem amanhã para eu assinar.

Apreensivo o Caseiro começou a fazer suas contas e expôs um negócio...

_ E para acabar, eu comprei esse carrinho na mão dela, eu dei um pedaço com “uma besteira” de dinheiro que tinha e o resto ficou para eu pagar com o meu trabalho descontando no meu salário. E com essa ainda teve a cara de pau de dizer que sem o aviso eu não teria dinheiro para pagar o restante que devia do carro.

_ Como é moço? Além de lhe despedir ao meio da pandemia sem transporte para você ir embora, tu tinha negócio com ela para pagar com seu salário e além de lhe “debochar” você não tem dinheiro para pagar o restante a ela?

_ Que tal aí? E isso é o de menos... aí tem proibição para eu não sair no carro, tem “esporro”, tem ameaça, tem fuxico de todo lado, tem de tudo aí Professor.

_ Ave Maria moço!

_ O senhor tá por fora! Eu tenho aguentado coisa aqui moço. Essa irmã dela que ta aí na outra casa passando a quarentena, todo dia “faz um inferno” para ela dizendo que eu não estou cuidando da chácara, que eu estou deixando os cachorros e as galinhas com fome  e “coisa e tal”. Aí, “todo santo dia”, seja domingo ou que for, se eu não abrir a porta de casa 7:30 h para sinalizar que eu acordei, 7:40 h da manhã é um inferno! E outra, teve um tempo que queria que eu acordasse era 6 h, junto com as galinhas para da comida os bichos.

_ Jesus!

_ Oxe, moço, tou lhe dizendo. Aí, ela quer que eu trabalhe todo dia, que eu esteja à disposição de quem for quando estiver autorizada por ela, toda ora e pra lascar ainda quer que eu trabalhe na chuva que a capa taí. Disse um dia aí que assina minha carteira é para eu trabalhar, num é para eu ganhar sentado não que o dinheiro dela é suado.

_ Moço, eu vou falar a verdade. Eu não sei como tu aguenta.

_ Ô... tu não sabe é de nada moço. Eu larguei meu emprego na nossa terra para vir para cá diante da propaganda que fizeram, que a dona era como uma mãe e coisa e tal. E aí tu ta vendo como é.... moço, eu cheguei aqui e com um mês ela mandou cortar a água da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal - CAESB da casa que eu moro.

_ Como é moço? A casa que tu mora não tem água tratada?

_ Não! Mandou cortar com um mês que eu estava aqui como estou lhe falando.

_ Meu Deus!

_ Moço, eu num tou dizendo. Minha esposa taí... limpa essas duas casas por semana para ganhar R$ 150,00 em um mês Professor! Pode uma coisa dessa?

_ Rapaz, eu tou acreditando porque é você que ta dizendo.

_ Oxe, e ela foi falar para aumentar um pouco e disseram que não, que se ela não quisesse tinha quem queria.

_ Tu é doido...

_ Moço, eu vir para cá, larguei meu emprego a 1200 km e com dois meses ela disse que a chácara tava a venda e o cara que trabalhava aqui me disse que a chácara tava a venda antes deu vir.

_ Vala meu Deus... então ela mandou tu vir com a chácara a venda? Que juízo é esse dessa mulher moço?

_ Que tal aí?

O TEMPO DO AVISO PRÉVIO

Cada dia do aviso prévio do Caseiro parecia três para o Professor, que ora lia, ora dormia, ora comia, corria, ajudava o Caseiro e sua esposa em algumas tarefas e as horas pareciam não passar.

De repente no início de uma manhã, o Professor estava lendo no quarto e o Caseiro na sala abre um áudio de whatsapp em som alto.

_ Você não brinca comigo! Eu posso lhe despedir por justa causa! Minha irmã me ligou aqui e disse que você até agora nunca deu comida as galinhas e os cachorros estão todos aí no pé da porta com fome. Você não brinca comigo!

O Caseiro levanta, fala alto, provoca, se inquieta passando a mão na cabeça e de modo veloz segue para a casa onde a irmã da dona da chácara estava e seguia a lhe policiar.

O Professor muitíssimo preocupado com a situação, sai do quarto, observa de longe a conversa.

A esposa do caseiro o chama de modo sequencial para retornar até que rapidamente ele retorna.

O Caseiro nervoso diz que foi perguntar o porquê desde quando ele chegou ela o trata desse jeito, com mentiras, insultos, mesmo cumprindo o aviso. Pois ele não entendia...

De repente o cel. do Caseiro começa a tocar a todo momento, com muitas ligações de conhecidos querendo saber o que houve e a situação fica tensa, pois não se sabia o tipo de alarde realizado pela irmã da dona.

Minutos passam devagar e a noite a dona lhe manda um áudio via whatsapp lhe pedindo desculpas com o argumento que estava estressada.     

Após escultar o Caseiro diz:

_ Toda vez que ela me dá esporro depois vem com esse argumento. Vou deixar pra lá! Eu vou é arrumar minhas coisas “pra nois panhar a estrada”.

A tensão diminui e “o tempo aparenta passar mais depressa”. O foco agora segue com o planejamento da viagem.

O FOCO NA PARTIDA

Os dias antes da viagem passam mais tranquilos, as lembranças da infância retomam nas prosas, os aliciamentos junto aos esporros amenizam e são substituídos pelo planejamento da retirada.

Os últimos acertos entre o Caseiro e a patroa se dão quase às 22h da noite de uma segunda-feira, véspera de feriado de Tiradentes. Ansiosos, o Caseiro, sua esposa e o Professor partem às 03 e 45h do dia seguinte.

Ao sair, dentro do carro o Caseiro se cala, reflete, viaja e aos poucos vai quebrando o silêncio. Os papos indignados vão sendo trocados por brincadeiras, risadas, comilanças etc., ao posso que a viagem ia fluindo e a chegada na terrinha se aproximava.

No meio da tarde a região natural do Caseiro, da sua esposa e do Professor é alcançada. De modo espontâneo os três se dispõem a cantar, a batucar, a sorrir e celebrar a proximidade da volta para casa.

Às 17 e 45 h o destino da casa do Caseiro e sua esposa é alcançado. Sua mudança é descarregada, o casal se despede agradecendo e o Professor também retribui os agradecimentos, pela companhia, o cuidado, a parceria e a coragem incessante de lutarem por viver.

O ciclo se fecha, o Professor liga o carro e viaja com a última mensagem em mente dessa vivência – “E tenha o direito de ser livre, ninguém nesse mundo pode impedir. Mas não espere por esse direito, ACORDE, LEVANTE e LUTE”.

Tássio Barreto Cunha é Prof. Dr. do Instituto Federal de Brasília, Pé rachado de Irecê/BA, Bunda Vermelha do Canoão e antes de qualquer coisa, um ser humano.