ARTIGO

Nilton Rodrigues: Tormenta à vista! A expectativa vira caminho para o abismo

Cultura&Realidade - 07 de Abril de 2020

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Tempos de obscurantismo é ambiente para os incapazes de construir avanços sociais com diálogo - Foto: Ilustração

Nilton Rodrigues*

Coisas que acontecem atualmente nos deixam boquiabertos. Um novo governo toma posse e, mesmo tendo orientação ideológica contrária à que nas últimas décadas regia as ações dos governos anteriores, promete zelar pela sobrevida de nossa frágil democracia, prescrevendo-lhe os remédios necessários à sua pulsação vital.

 

"A ideia de implantar uma nova política que desarme os vícios crônicos, sendo um deles o há muito insuportável toma-lá-dá-cá, é alvissareira, mas, em se tratando de uma democracia, fazê-la no grito é praticamente impossível."

 

 No entanto, atitudes, providências, falas, gestos e outras tantas – e até estranhas – manifestações acenam a outra direção, e mesmo sabendo que a ordem das coisas, ou melhor, as providências administrativas desta gestão teriam que se conformarem ao compasso novo, assim mesmo muita gente estarrece-se e se flagra desorientada. O que estaria acontecendo? Algum deslumbramento? Este há, toda vez que a política toma um novo rumo, mas não acredito que os fatos políticos recentes estejam amparados só nisso.  Fato é que as coisas parecem carecer de uma boa arrumação, para, depois, sentirmos que a nação está sendo governada de fato.

Jamais assisti, e acho que ninguém o fez, em toda a nossa república, a tanto descompasso, durante os primeiros meses  de um governo. A cada dia somos levados a pensar coisas diversas acerca de nosso futuro. Eu – de minha parte –, por exemplo, ora penso que a nova equipe trabalha febrilmente nos bastidores, para depois o presidente anunciar a que veio, à sociedade, ora penso que subjaz a tanto destempero e desencontros uma vontade inconfessável de se impor o autoritarismo como marca deste governo.

 

"É que, dentre esses jovens, a maioria ainda não desenvolveu uma consciência crítica, pela qual possa safar-se de armadilhas como esta e a ver com bons olhos aquilo para o que nem se deve olhar."

 

A ideia de implantar uma nova política que desarme os vícios crônicos, sendo um deles o há muito insuportável toma-lá-dá-cá, é alvissareira, mas, em se tratando de uma democracia, fazê-la no grito é praticamente impossível. Carece de diálogo aqui, concessão ali, a fim de que se teça uma quarentena de depuração de maus costumes que historicamente tantos desastres têm causado à nação brasileira.

Mas isso, do meu ponto de vista, depende de qualidade politica, consciência cidadã, desapego a interesses próprios,  probidade, enfim, valores nem sempre encontrados naqueles que se ocupam dos rumos do Estado brasileiro.

E o que dizer do resgate do 31 de março de 64 com vestimenta nova, para comemorar o fatídico golpe militar de então, como se tudo o que ele perpetrou nada custe mais aos membros das famílias vitimadas, ainda vivos e à sociedade em geral? E o que dizer da juventude atual, que não viveu aquele contexto e não conhece os horrores dele decorrentes? Isso constitui um perigo incalculável. É que, dentre esses jovens, a maioria ainda não desenvolveu uma consciência crítica, pela qual possa safar-se de armadilhas como esta e a ver com bons olhos aquilo para o que nem se deve olhar.

*Agrônomo, Especialista em Metodologia do Ensino e Servidor Público Municipal