CONTOS

Não era uma questão de direito, só ignorância mesmo

Cultura&Realidade - 05 de Maio de 2020 (atualizado 07/Mai/2020 16h11)

file-2020-05-05092854.852668-brutalidade_em_chargefc2d0c92-8ecb-11ea-b070-f23c917a2cda.jpg

Ilustração

 

 

Alan Machado*

Quem assistia àquela confusão na entrada do supermercado, num primeiro momento, pensava imediatamente que os seguranças haviam surpreendido um daqueles desvalidos contumazes que fazem pequenos furtos para suprir alguma necessidade em casa. Eu botava minhas compras na esteira do caixa e notava com mais nitidez que não era nada disso. Tratava-se de uma jovem senhora, bem apanhada, num vestidinho desses que delineia o corpo fazendo aparecer a sensualidade das curvas. O padrão da escovinha nos cabelos bem cuidados e a profusão de brilhos nas orelhas e nos pulsos não escondiam o gosto pelo luxo.

Mas por que uma senhora aparentemente fina estaria aos gritos na porta do mercado?  Enquanto imaginava uma resposta, lembrei-me da professora de filosofia da Usp dizendo que a classe média é burra, agressiva e arrogante e reformulei a questão: por que não estaria? A verdade é que os sinais indicavam um genuíno exemplar da classe média e isso ficou mais claro quando deu para ouvir que a jovem senhora brigava em razão de não poder entrar no mercado sem usar máscara, item obrigatório nesta triste época de epidemia. O seguranças, constrangidos, tentavam explicar que era um decreto municipal, que estavam obrigados a seguir a lei... que seriam demitidos... A mulher, frente à resistência dos guardas em liberar sua entrada, simplesmente repetia, em tom ríspido: -Vocês nem sabem com quem estão falando! E seguia irredutível.

A menina do caixa, em vez de passar minhas compras, pegou o celular e começou a filmar a cena. Não reclamei. Suponho que ela se levou pela ousadia de interromper o trabalho por ter notado também o meu interesse pelo desfecho da história.

No exato momento em que o celular foi posicionado na direção da confusão, a fina senhora partiu para cima dos seguranças tentando passar, mas foi contida. – Preciso entrar, eu sou cidadã, tenho meus direitos! dizia ela.

Diante da atitude lamentável, balancei a cabeça negativamente.  Esse lance de direito é engraçado. Esse tipo de gente só se lembra de que é cidadão e de que tem direitos quando quer impor suas vontades estritamente individuais. Nunca se lembram de que direito e cidadania não podem ser despregados de obrigações. Eu sempre me inclino a pensar que são as obrigações que sustentam os direitos e que não há cidadania só com direitos ou só com obrigações.

Quem só tem direitos está mais próximo da tirania; quem só tem obrigações está mais próximo da escravidão. A insistente senhora da classe média parecia não entender isso. Não lhe soava vantajoso pensar em obrigações. Nisso ela é muito parecida com a família de origem classe média que está no Planalto, cheia de direitos e de rompantes individualistas que nada lembram o decoro daqueles que estão acostumados a agir pensando nos outros, na sociedade. Justo neste momento, me veio à cabeça uma história contada por minha filha outro dia. Estava ela chegando à faixa de pedestres para atravessar uma rua em Munique, na Alemanha, numa monótona manhã de domingo, sem muito movimento de gente e de carros. O sinal dos pedestres estava fechado e havia um senhor parado esperando abrir. Como não havia movimento algum ela perguntou ao senhor alto e loiro: - Por que não atravessar?  - Por que está fechado, não vê? Disse o homem de cara avermelhada, com um leve sotaque de Königsberg. Então ela insistiu, seguindo certo imediatismo lógico: - Mas não tem carro algum na pista! Aí o senhor alemão virou a cabeça em sua direção e respondeu com cara sisuda: - Pode haver alguma criança observando das janelas próximas e não é bom para a educação delas dar um mau exemplo! Pelo visto, o senhor alemão não mistura vontades individuais com direitos e não separa direitos individuais de obrigações e, assim, se porta como um verdadeiro cidadão, criando com seu gesto quase que um imperativo categórico kantiano.

Enquanto me entregava a divagações antropológicas e políticas a jovem senhora, resmungando, se desvencilhou dos seguranças do mercado: - Quem eles pensam que são? Eu vou entrar nesse lixo de mercado custe o que custar! Eu posso, eu quero, eu não desisto! Essa gentinha que se dane! Na medida em que provocava, aproximava-se de um canto onde ficava o guarda-volumes. De lá, olhando para os guardas parados, na pequena distância de cinco metros, tirou a calcinha deixando à mostra o belo e lustroso torneado das coxas. Seguiu nervosa em direção a eles agitando a peça íntima, tom púrpura, na mão direita, de onde pendiam as chaves de um Hyundai Creta. Os seguranças quedaram atônitos quando a moça passou a amarrar da calcinha sobre o nariz e a boca enquanto lastimava: -Vocês querem me obrigar a pôr máscara? Pois não, aqui está minha máscara, caríssima, de luxo. E respirava com força e soltava uma fala abafada pelo fundo da calcinha que cobria o nariz e a boca. E os olhos arregalados quase davam a ela um jeito de transtornada. Nisso, um dos guardas virou-se de lado com o celular na orelha chamando o 190.

file-2017-03-24153047.271507-alan_machado-perfilffb34648-10bf-11e7-8498-047d7b108db3.jpg

*Alan é professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Poeta, contista e cronista. Autor de PRA DIZER QUE FOI ASSIM (Ibicaraí: Via Litterarum, 2015)