CULTURA

Manifesto questiona falta de valorização dos blocos afro no Carnaval

Cultura&Realidade - 08 de Fevereiro de 2020 (atualizado 08/Fev/2020 10h15)

file-2020-02-08094257.731652-WhatsApp_Image_2020-02-08_at_09.41.5388a1e5c6-4a70-11ea-a930-f23c917a2cda.jpg

"Que a tradição dos blocos afro e afoxés seja, de fato, a grande marca do Carnaval de Salvador" -  Foto: Ilustração

Um manifesto assinado pela Defensoria Pública do Estado da Bahia (DP-BA) e blocos afro do Carnaval, foi lançado na última quarta-feira (5), questionando a falta de valorização pelo poder público e a secundarização das entidades carnavalescas na festa. No documento, os representantes salientam ainda a resistência de grupos como o Filhos de Gandhy, com 71 anos de existência, e o Ilê Aiyê, com 46 anos, e conclama a sociedade a se manifestar em defesa destas manifestações culturais.

 

"Ao longo da história do Carnaval de Salvador, contudo, tem se evidenciado a falta de comprometimento do poder público com os blocos afro e afoxés, sendo isso um reflexo do racismo institucional, que dá preferência a outros seguimentos da folia", diz o texto, que chama ainda a atenção para dificuldade em encontrar horários e locais que assegurariam "a projeção que merecem".

 

Tendo tais problemáticas em vista, a iniciativa problematiza: "Estamos iniciando uma nova década e urge defender, respeitar e valorizar esta cultura carnavalesca quase secular. Que os blocos afro e afoxés tenham direito a mais investimentos. Que possam se tornar mais visíveis aos milhares de turistas que são atraídos por seus tambores, suas cores e suas danças". 

 

Dentre os que assinam o manifesto estão o Afoxé Filhos de Ghandy, o Ilê Aiyê, o Olodum, o Malê Debalê, o Muzenza, o Commanxhe, a Didá, o Cortejo Afro e Os Negões.

 

Vale lembrar que o Ilê teve recurso negado e ficou de fora da edição 2020 do Carnaval Ouro Negro.

 

Confira o texto na íntegra:

 

Salvador é a maior cidade negra fora do continente africano.

 

A cidade tem um forte apelo da cultura afro descendente e explora comercialmente essa peculiaridade, expondo em todo o mundo as simbologias da cultura afrobaiana, reforçando o rótulo de “Roma negra”.

 

Neste caminho, o Carnaval de Salvador deveria ser uma festa com uma identidade africana forte, reforçando e valorizando a cultura negra.

 

Em Salvador, afoxés e blocos afro alimentam a projeção do Carnaval para o Brasil e o exterior. Uma longa tradição marca a história da maioria desses grupos culturais. O Afoxé Filhos de Ghandy traz seu cordão branco e azul há 71 anos. O Ilê Aiyê desenvolve suas atividades, que vão além do período do Carnaval, há 46 anos. O Olodum, em 40 anos, tornou a Bahia internacionalmente conhecida com o Samba Reggae e a Escola Olodum.

 

Caminhos longos também são percorridos há mais de quatro décadas pelo Malê Debalê, há 41 anos. E seguem Muzenza (39 anos), Commanxhe do Pelô (46 anos), Cortejo Afro, Banda Didá e outras dezenas de grupos.

 

A maioria deles, além de promover a cultura negra através da dança e da música, também desenvolve trabalhos sociais nas suas comunidades. Muitas destas se transformaram em atrativos para o turismo, a exemplo do Pelourinho, sendo utilizadas no marketing institucional que busca projetar o Carnaval de Salvador, de forma a que não caia o número de turistas no período da folia.


Ao longo da história do Carnaval de Salvador, contudo, tem se evidenciado a falta de comprometimento do poder público com os blocos afro e afoxés, sendo isso um reflexo do racismo institucional, que dá preferência a outros seguimentos da folia.

 

Isto se reflete na luta que os blocos afro e afoxés enfrentam para ter a visibilidade proporcional às suas importâncias nos tradicionais circuitos carnavalescos, onde nunca há prioridade em horários e locais que assegurem a projeção que merecem.

 

O Carnaval da Bahia, de Salvador, movimenta milhões. Mas muito pouco desse volume chega aos blocos afro e afoxés, fazendo com que os negros marquem presença no Carnaval por suas próprias contas e riscos. A prioridade tem sido para grandes atrações nacionais que muitas vezes nada têm a ver com o Carnaval baiano, com a musicalidade da cultura negra.

 

Estamos iniciando uma nova década e urge defender, respeitar e valorizar esta cultura carnavalesca quase secular. Que os blocos afro e afoxés tenham direito a mais investimentos. Que possam se tornar mais visíveis aos milhares de turistas que são atraídos por seus tambores, suas cores e suas danças.

 

Que a tradição dos blocos afro e afoxés seja, de fato, a grande marca do Carnaval de Salvador. Para isso, conclamamos a sociedade baiana, os poderes públicos constituídos e os foliões baianos e não baianos a valorizar a cultura negra. #DefendaSuaCultura


Com conteúdo de Bahia Notícias