IRECÊ

Jovens acusam integrantes do Circo Globo Max de práticas homofóbicas e gerente do Circo nega

Cultura&Realidade - 29 de Fevereiro de 2020 (atualizado 29/Fev/2020 18h10)

file-2020-02-29180710.429332-LGBT73529f58-5b37-11ea-b070-f23c917a2cda.jpg

Militantes e apoiadores acompanharam os dançarinos no manifesto em frente à Delegacia de Polícia. - Foto: Divulgação



Membros do grupo de dança Cheke Mate e da comunidade LGBT+, estiveram na Delegacia de Polícia de Irecê, na sede da 14ª Coordenadoria de Polícia do Interior, nesta sexta-feira, 28, onde registraram queixa por crime de homofobia, agressões físicas e morais, contra componentes do circo Globo Max, que se encontra instalado na Praça Cleriston Andrade, em Irecê.


Segundo relatos dos denunciantes, tanto na delegacia, como nas redes sociais, onde, desde o dia 26 repercutem manifestos e vídeo gravado por um membro LGBT+, um grupo de dançarinos passava em frente ao circo, por volta de meia-noite, da quarta-feira, 26, após os ensaios ocorridos na Praça do Requintes, quando alguns homens se encontravam em frente à casa circense, lanchando e cometeram atitudes homofóbicas.


Em seu manifesto, Matheus diz: “estávamos indo para casa, e eles estavam lanchando, e começaram a gritar a gente, usando a frase de cunho popular ‘Ai pai, para! ’, chamando a gente de ‘viadinho’ e tudo o mais. Nós não gostamos e não aceitamos mais que ofendam a nossa comunidade, e fomos exigir respeito. Sem intenção de confusão”.


Nas denúncias apresentadas, o grupo assegura que ao tirar satisfação com o pessoal do circo, fora ameaçado e perseguido. Matheus afirma que um dos integrantes do circo foi para cima deles para agredi-los fisicamente, o que incentivou os demais circenses a participarem do ato, e um deles sacou uma arma, ameaçando e intimidando a todos, fazendo com que saíssem do local em disparada, conforme é visto em vídeo divulgado na página pessoal do Instagram Samuhka_martyns.

Veja o vídeo com muita atenção:

 


Matheus assegura ainda que sofreu tentativa de agressão física. “O tapa não pegou com firmeza porque eu virei o rosto, mas ele veio com tudo, e um dos meus amigos o empurrou para que se afastasse, foi quando um homem correu atrás dele. Outros vieram para cima e do nada surgiu um cara de dentro do circo e sacou uma arma mandando a gente vazar. Nós saímos desesperados”, disse o jovem LGBT+.


A reportagem do Cultura&Realidade esteve no circo nesta sexta-feira, 28, buscando falar com algum representante, sobre o caso. Raul Fernando, que se apresentou como técnico de manutenção, informou que não estava presente no momento do ocorrido e somente Teófilo Santana, o “Téo”, poderia falar sobre o assunto, mas que se encontrava em Jacobina. 


No final da tarde de ontem, “Téo”, que é gerente do Globo Max, negou ao Cultura&Realidade todas as acusações. Ele afirma que após o espetáculo, “o pessoal estava fazendo o reprise de um personagem que dá uma de LGBT, quando os componentes do grupo de dança iam passando, e acharam que as falas eram dirigidas a eles. O que não é verdade. Mas eles quiseram tirar satisfação, xingando o pessoal do circo com palavras de baixo calão e tentamos apaziguar. Em um determinado momento, saímos correndo atrás de “picolé”, um cachorro aqui do circo”, garante o gerente.


Sobre o saque de uma arma como ameaça, “Téo” nega novamente. “Não houve em nenhum momento agressão física, e a única ‘arma’ que temos é a bíblia. Já que na versão deles tinham vários homens do circo, para quê nós iríamos puxar arma?”, questiona.


Ao final, o representante do circo admite a possibilidade de pedir desculpas publicamente à comunidade LGBT+. “Apesar de não nos sentir culpados, mas visando restabelecer um ambiente de paz, podemos pedir desculpas publicamente, inclusive aqui no picadeiro, se o pessoal quiser”. 


Em contato com Gilmara Mota representante da comunidade LGBT+, ela não soube informar se o convite fora formulado a algum membro.


REAÇÃO

 A turismóloga e mobilizadora social Gilmara Mota, a vereadora Meirinha, o ator e produtor audiovisual Sócrates “Moral” e Aulus Teixeira, membros da Rede Sustentabilidade e Rubi Santos, do PCdoB, acompanharam os dançarinos no manifesto em frente à Delegacia de Polícia (Veja vídeo aqui), onde é justificado o apoio à comunidade LGBT+.


O caso continua repercutindo nas redes sociais e nas emissoras de rádio da cidade. A direção do Globo Max também fez Boletim de Ocorrência na delegacia, temendo retaliações.


INVESTIGAÇÃO

De certo a Polícia Civil vai investigar o episódio e o vídeo e postagens nas redes sociais, além dos depoimentos, serão objetos de análise, portanto, não se pode antecipar deduções. 


Mas a negativa dos prepostos do circo Globo Max merecem alguns apontamentos. Raul Fernando negou que estava presente no ato denunciado, mas há imagens no vídeo em que é difícil negar sua presença.

Este é o Raul Fernando, disse não ter sido ocular no ocorrido. - Foto: Rede social

Reassista o vídeo com atenção a partir dos 10". Foto: Print do vídeo

Téo fala que estava correndo atrás de “picolé”, o cão que estaria sendo perseguido para ser recolhido, mas nas imagens não aparecem o animal, apenas ele de punhos fechados, no meio das pessoas e depois correndo em direção a um rapaz de camisa azul. 

Reassista o vídeo com atenção a partir dos 11". Foto: Print do vídeo

Reassista o vídeo com atenção a partir dos 16", o "Téo" correndo em direção ao jovem de azul.- Foto: Print do vídeo

Reassista o vídeo com atenção a partir dos 16", o "Téo" correndo segunda ele na entrevista seria atrás de um cachorro que fugiu do circo. - Foto: Print do vídeo

Reassista o vídeo com atenção a partir dos 16". Foto: Print do vídeo


Ele, o Téo, diz que não houve saque de arma, mas os denunciantes afirmam que só correram diante das ameaças de agressão física, inclusive quando viram uma arma sendo sacada.

Na fala do jovem Matheus ele diz que “do nada surgiu um cara do circo e sacou uma arma mandando a gente vazar.” No final do vídeo entre os 26" a 31", escuta-se uma voz distante e aproximando-se dos jovens gritando “vaza! vaza! vaza!”. De imediato, em milésimos de segundos um dos jovens diz “ainda armado”. Enquanto os jovens gritam desesperados na rua, as imagens mostram um homem caminhando em direção ao circo. Seria a mesma pessoa que veio se aproximando gritando para “vazar” e que os jovens alegam estar armado?

Reassista o vídeo com atenção a partir do 26" a 31"  Foto: Print do vídeo

Reassista o vídeo com atenção a partir do 26" a 31"  Foto: Print do vídeo

Reassista o vídeo com atenção a partir do 26" a 31"  Foto: Print do vídeo

 

E por fim, uma grande coincidência: após uma noite de apresentação, no momento de uma refeição, os personagens do circo vão fazer ensaio, com produção textual LGBT+, bem no momento em que membros da comunidade LGBT+ está passando. 


São contextos que provavelmente estarão na mira investigativa da polícia.

 

Da Redação, por Vítor Ferreira e Joanderson Aleixo