Saúde

Janeiro Branco: Saúde mental é historicamente estereotipada, lamenta psicóloga

Cultura&Realidade - 15 de Janeiro de 2020 (atualizado 15/Jan/2020 16h47)

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Segundo a psicóloga Marta Érica Souza, "Esse é um problema histórico e que precisa ser combatido diariamente". - Foto: Ilustração

 

Em meio às várias cores de campanhas de saúde durante o ano, o mês de janeiro é branco e tem como foco a saúde mental. Mas Psicologia e Psiquiatria, profissões que tratam da mente, ainda são vistas com preconceitos e estereótipos. Segundo a psicóloga Marta Érica Souza, esse é um problema histórico e que precisa ser combatido diariamente para não trazer ainda mais prejuízos para a sociedade.
 
“Esse estereótipo foi criado por nós. Pra você ter ideia, há 20, 25 anos, se você pegar um livro de psiquiatria, vai estar exemplificado que vida social, financeira, política, não trazem nenhuma possibilidade da pessoa ser ansiosa e depressiva, não são nenhum pré-sintomático para aquilo”, lembrou Marta Érica.
 
A profissional acredita que campanhas como o Setembro Amarelo e o Janeiro Branco contribuem positivamente para a desconstrução da ideia de que psicólogos e psiquiatras são profissionais que tratam de "gente louca". Na verdade, segundo a especialista, todas as pessoas precisam olhar para si e fazer terapia. “Até para entender, compreender e conseguir conviver com as pessoas que acham que não precisam de terapia”,  defendeu a psicóloga.
 
Durante a conversa Marta Érica ainda falou sobre depressão, ansiedade, de automutilação de crianças e adolescentes, como lidar como tragédias e trabalhar as expectativas para o ano novo, e ainda sobre a influência das redes sociais na autoestima e nas relações entre as pessoas. 


Leia a entrevista completa.

 
Em 2019 nós tivemos que lidar com muitas tragédias, política instável, país dividido. Há uma maneira de superar esses pontos negativos e possíveis traumas para iniciar 2020 focado em boas expectativas?

A gente tem que ter cuidado quando pensa em superação da situação política atual. Porque é a gente pensar que a fase terminou, e na verdade não terminou. Estamos vivenciando cada vez mais crises, pensamentos e trajetórias que a gente não pensou que em algum momento a gente encontraria. Então temos que ter muito cuidado com essa história de 'virou o ano, página em branco e vamos a partir de agora que tudo pode melhorar'. Talvez o que a gente pode pensar é o que podemos fazer nesse contexto atual para que não seja tão degradante, ruim, estressante para a gente nesse cenário que nos encontramos hoje. 
 

A gente falou de lidar com tragédias. Todo mundo sabe que a morte é um das únicas certezas que temos na vida. Ainda assim, ela não é encarada de modo fácil. Existe uma maneira de naturalizar a morte e encará-la com menos sofrimento ou de modo que não impacte tanto a nossa vida?

A morte é natural. Então como a gente vai naturalizar algo que já é natural? Talvez a ideia toda é que a gente consiga e possa falar disso no nosso cotidiano respeitando as linhas de pensamento de cada pessoa. Vamos pensar em um espírita, que vai acreditar que após a morte a pessoa vai reencarnar, o evangélico vai acreditar que a pessoa vai para o céu, o umbandista, a depender de que linha ele seguir... a gente vai ter as outras ramificações de pós-morte. Talvez o que seria interessante é pegar essa nova geração que está aqui agora, as crianças e adolescentes, e tentar entender em que linha elas são criadas, culturalmente ou religiosamente, seja o que for, para que a gente possa explicar para eles que isso é natural. Mas se a gente for pensar que algum dia a gente vai entender a morte e vê-la como algo legal ou gratificante a gente vai esquecer que somos humanos e temos sentimentos. 
 

O número de crianças e adolescentes que sofrem com ansiedade, depressão e que se mutilam vem crescendo. Nas escolas particulares é possível encontrar profissionais capacitados para o acompanhamento desses pacientes, pois algumas possuem serviço de psicologia. Essa não é a realidade da maioria das escolas públicas. Qual o prejuízo que isso traz para a comunidade escolar? 

Crianças e adolescentes sentem vestígios do que nós emitimos para eles. Vamos pensar por que uma criança hoje de cinco anos, independente de estar na rede pública ou particular, se interessa por quem o pai votou ou se interessa porque o amiguinho vai ou não vai sair da escola por conta de falta de pagamento. É claro que uma escola estruturada, uma instituição particular, como ela tem psicopedagogo ou psicólogo dentro, vai abraçar e vai ser mais empático com essas crianças. Talvez a diferença seja toda essa. Infelizmente as nossas escolas públicas, que deveriam ser escola de referência para que essas crianças aprendessem socialmente a caminhar nesse contexto, são as menos assistidas em relação a qualquer contexto. O psicólogo vem para tornar a visão daquela instituição mais empática para aquela criança. Não pensando apenas na ansiedade, mas no contexto social, político, comunitário que aquela criança ou adolescente faz parte. Através do psicólogo esses outros atores escolares podem entender essa criança. 
 

E os professores que, dentro dessa comunidade escolar, não têm esse amparo do psicólogo e se veem às vezes em situações de desabafo ou tendo que lidar com questões dos alunos? 

Eu atendo alguns professores que me relatam que às vezes têm que fazer o papel dos pais, de psicólogos... E tem os psicólogos que falam que essa função não cabe aos professores. Mas a gente tem que entender que às vezes você precisa dar a escuta para esse adolescente mesmo que você não saiba o que fazer com ele naquele momento. E a gente percebe muito isso quando recebe diretores e professores que estão realmente preocupados com essas crianças, com os sentimentos, a comunidade, a relação escolar. Porque a gente sabe que tem outros que não estão tão preocupados assim e vão lá apenas cumprir o seu papel. Ora porque não foram incentivados em momento algum a fazer isso, ora porque realmente não têm interesse em fazer.

Então o que a gente fala para esses professores e essa comunidade que está preocupada com esses alunos?

Acolhe, escuta e oferece ajuda. A escola tem que acolher e entender sem julgar. Se não souber o que fazer, busca ajuda. Seja de um assistente social, um Cras [Centro de Referência e Assistência Social], que tem esse tipo de atendimento, encaminha esse adolescente ou jovem. [Mas tem que ter] Muito cuidado ao falar com os responsáveis, porque a gente não sabe como eles vão compreender. 
 

Tem aumentado o caso de pessoas com crise de ansiedade e síndrome do pânico, por exemplo, doenças que geralmente estão ligadas ao estresse. Há algum tipo de dica ou exercício que as pessoas possam fazer no dia a dia?

Sabe aquela ideia de fazer meta no início do ano? Talvez um dos problemas relacionados a isso é que a gente às vezes esquece que tem uma trajetória pra que isso seja feito. A ansiedade é presente hoje em 9,3% da população pela OMS [Organização Mundial de Saúde]. É uma parcela imensa da sociedade, e nós estamos falando apenas de adultos que possuem ansiedade, junto com ela a gente tem estresse e os sintomas depressivos. Pensar em um exercício para que a sociedade diminua é a gente pegar todas as pessoas e colocar dentro do mesmo contexto e entender elas exatamente como a mesma pessoa. Precisamos ter cuidado e analisar cada contexto e verificar o que cabe na vida daquela pessoa. 
 

Todo mundo precisa de terapia?


Sim. Todo mundo precisa de terapia. Até para entender, compreender e conseguir conviver com as pessoas que acham que não precisam de terapia. 
 

A psicologia e a psiquiatria, profissões que tratam da mente, ainda são vistas com preconceitos e estereótipos. Quais são os prejuízos disso para a sociedade? E para a prática da psicologia?


A gente tem que primeiro pensar que esse estereótipo foi criado por nós. Pra você ter ideia, há 20, 25 anos, se você pegar um livro de psiquiatria, vai estar exemplificado que vida social, financeira, política, não trazem nenhuma possibilidade da pessoa ser ansiosa e depressiva, não são nenhum pré-sintomático para aquilo. E é tratada a depressão como uma doença mental, que é, mas é tratada como uma doença mental digna de farmacológicos e em alguns casos internação. Foi algo construído. A psiquiatria vem para rotular aquelas pessoas que têm sintomas, independente de quais eles sejam, e farmacologicamente buscar uma solução para aquilo. A gente está tentando desmistificar isso nesses outros anos que nós estamos aqui. E por isso que temos algumas campanhas como o Setembro Amarelo, Janeiro Branco, para tentar mostrar para essa população que a doença mental existe, pode ser encontrada em qualquer pessoa, talvez uma pessoa pode não ser depressiva, mas pode ter sintomas depressivos. A pessoa pode ter ansiedade em alguns momentos da vida dela. Essas campanhas vêm para desmistificar isso e para mostrar à população que esse cuidado é necessário.
 

No verão as pessoas costumam publicar mais nas redes sociais sobre viagens e fotos de biquíni. Isso pode fazer com que aumente a cobrança das pessoas por ter uma vida mais feliz ou pra entrar num padrão de corpo específico? Como evitar isso?


Vivemos em um mundo virtual. Nossa socialização hoje, nossa necessidade de falar com o outro é apenas virtual. Ver outras pessoas felizes, mesmo sabendo que algumas vezes é algo superficial, faz com que nós nos cobremos mais ainda por situações que nós não vamos vivenciar. Seja lá por conta na nossa estrutura econômica, familiar, social. Mas sim, é uma cobrança que vem para desestabilizar a pessoa.
  

E quanto à autoestima e à maneira como as pessoas se veem e aceitam seus corpos?


A gente está falando de corpo, mas pode falar de qualquer outra coisa. Corpo eu penso do pescoço para baixo, por exemplo. Mas a gente pode pensar em cabelo, maquiagem, na forma como a pessoa sorri. A influência de rede social, se a gente for pensar em uma grande artista, influencia diretamente como as outras pessoas nos veem e como a gente quer como as outras pessoas nos vejam. Elogio hoje é 'ah você se parece com Carolina Dieckmann', Você não precisa parecer contigo. Maria não precisa parecer com Maria, não precisa ter a beleza de Maria e a essência dela, ela precisa parecer com alguém, o corpo dela tem que seguir uma norma, o cabelo tem que seguir uma norma, e que bom que algumas pessoas já estão conseguindo desmistificar um pouquinho isso. E se a gente for pensar na trajetória de mulheres e homens negros isso se torna extremamente mais forte da cobrança. Até pouco tempo atrás nós víamos pessoas que não poderiam assumir aquilo que eram, cabelo, cor, ela deixava de ir para a praia para não escurecer, não assumia seu cabelo, tinha que usar chapinha, alisante ou sei lá o quê. Tudo como uma forma de entrar em um padrão de uma sociedade irreal, que é hipócrita, de rede social, que não existe.

E se a gente for pensar, isso pode ser um sintoma ou um critério para depressão, ansiedade, estresse?

Pode! Você viver de uma forma que você não quer, se mostrar de uma forma que não é você, chegar em casa toda noite e ter que se montar, se preparar, para no outro dia estar aceita socialmente. Isso é adoecedor. 
 

Durante esse mês acontece a campanha Janeiro Branco, que chama a atenção para a saúde mental. Qual a importância de campanhas como essa? E de no mês de renovação do ano olhar para a saúde mental e planejar o cuidado com ela? 


Quantas vezes ano passado nós repetimos que estávamos estressadas? Que nosso sono não foi restaurador, que é aquele sono que a gente dorme e consegue acordar bem? Que nós agimos de forma grosseira com alguém e não entendemos depois o motivo? Pensar em saúde mental é pensar no dia a dia, na forma como isso se apresenta para nós. Talvez sim, a gente precisa tratar de uma ansiedade, depressão, esquizofrenia, de uma demência senil em algum momento da nossa vida, mas precisa pensar nas pequenas coisas que interferem no nosso dia a dia. O Janeiro Branco faz alusão, branco por conta da lousa branca, de uma nova oportunidade da gente recomeçar e fazer tudo novamente, fazer tudo melhor. Mas isso só vai acontecer a partir do momento que a gente tiver auto conhecimento sobre o que a gente está fazendo, por que está fazendo, por que está sentindo isso, por que eu me movimento dessa forma, por que talvez um relacionamento meu começa muito bem e a partir de certo momento ele desanda, ou por que em meu trabalho eu já perdi a motivação e eu estou apenas pagando boleto e não caminhando mais para lugar nenhum. A saúde mental deve ser pensada, claro, para grandes sintomas, mas também para aquelas pequenas coisas e para os pequenos sintomas, evidências e aspectos do nosso dia a dia que acabam nos atrapalhando de certa forma.

 


 
Da Redação, via Bahia Notícias.