EDITORIAL

Irecê: Covid19 entre o jogo do poder, do dinheiro e da vida

Cultura&Realidade - 12 de Abril de 2020 (atualizado 13/Abr/2020 19h37)

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Ilustração


O coronavírus/Covid19, microscópico, indolor e invisível, rompeu com tudo que parecia sólido, impermeável, poderosamente intransponível. Não precisou de nenhuma estrutura bélica para pôr as grandes potências em xeque. A economia global e os governos de todas as nações estão em angústia e dúvidas profundas, com a massa produtiva enclausurada no interior de suas casas. Planejamentos em execução ganharam um "stop" para reformulações, num piscar de olhos, para novo plano estratégico de sobrevivência socioeconômica.

Nem mesmo o marco da utopia parece ser estimulante. Cremos no fim de uma era, para um novo princípio!

O “serzinho” estabeleceu uma nova ordem social para o mundo. Promoveu, provavelmente, a maior mobilização das diferentes comunidades científicas, cada uma na sua missão, revendo prioridades. Os espaços acadêmicos estão se reinventando, com maior poder para EaD (educação à distância) e as famílias, de repente, se redescobrem, mais efetiva e afetivamente, como bem me lembra a professora Priscila Almeida.

Não mais que de repente, os proprietários das estruturas produtivas e investidores das bolsas de valores, pessoas que lidam com a frieza dos números dos gráficos, angustiadas com a movimentação das contas bancárias, as quais sempre reclamaram da presença do Estado no socorro aos setores fragilizados, agora “entram na fila” das famílias famintas, pedindo socorro a este mesmo Estado, para reivindicar patrocínio às suas expectativas de ter.

Quem seremos, imediatamente após este ataque fenomenal?

A FÉ - Enquanto não se tem respostas a esta indagação, cá estamos, sôfregos, ao meio de batalhas histéricas entre os que defendem a vida e os que defendem a manutenção dos lucros, mesmo assistindo ao lançamento de corpos dos seus semelhantes em sepulturas coletivas, sem direito aos rituais comuns a cada nação, segundo seus costumes, estabelecidos pelas crenças das suas famílias.

As principais correntes religiosas do mundo, as mais tradicionais, que mobilizam multidões de fiéis, detentoras do conhecimento, suspenderam atos de tradição milenar, a exemplo da Igreja Santo Sepulcro, na Cidade Velha de Jerusalém, onde milhões de pessoas de todo o mundo desfilam anualmente às sextas-feiras Santas. Pela primeira vez na história, esteve fechada, neste dia 10 Santo.

As missas da vigília e de domingos, cerimônias comandadas pelo Papa Francisco na Santa Sé e nas igrejas, não tiveram público e foram transmitidas pela internet, televisão e rádio. “Um sacrifício necessário por amor à vida”, disse o líder do Vaticano.

Até mesmo os segmentos de fé, se rendem à realidade apresentada pelos fatos. Pelos fatos. A ciência se resume a estudar os fenômenos e expor seus resultados, e, mesmo ela, se encontra a cada dia, apresentando novidades e buscando combinações químicas e biológicas para fazer frente ao “gigante” Covid19.

São as constatações científicas que nos impõem os experimentos mais exitosos, até o momento, na expectativa de minorar os impactos à vida humana. Métodos de higienização e isolamento social como estratégias de sobrevivência, na expectativa de salvar vidas a partir da desaceleração da infestação, são algumas orientações da comunidade científica internacional, de modo a assegurar os cuidados de saúde, enquanto se encontra uma solução medicamentosa eficaz para tratamento. É preciso achatar a curva. A maioria será afetada. De certo, quem lê este texto, ou pessoa próxima, em algum momento será infectado/a. Se isso ocorrer, que seja com o sistema de saúde não colapsado.

A IRA DO COVID19 – Não são poucos os que subjugaram o significado do vírus, e muitos destes foram tragados ao leito de morte, como o que ocorreu com o analista em economia do Fundo Monetário Mundial (FMI), o paquistanês Rehman Shukr, de 26 anos, que compreendia o isolamento social como medida desnecessária. Uma semana depois, foi sepultado, após um ataque fulminante do Covid19, sem direito à despedida dos amigos e familiares.

O primeiro ministro do Reino Unido Boris Johnson, já em recuperação depois de internado na UTI, o presidente do império norteamericano, Donald Trump, o prefeito de Milão Giuseppe Sala, o primeiro ministro da Itália Giuseppe Conte, assim como Pedro Sanchez, primeiro ministro espanhol, todos apostaram na economia em atividade normal, sem isolamento social. Em pouco tempo se arrependeram.

Na tentativa de se redimir, a Itália decretou isolamento, mas o povo pensou que era férias. Deixou o trabalho, mas não foi para casa. Foi às compras, ocupando ruas, bares e restaurantes. Virou o epicentro da doença na Europa e o coração de mortos transportados em caminhões do exército.

Trump, zombou da força do Covid19, mas, imediatamente, teve que se colocar em estado de guerra. Fechou as portas tarde demais. Hoje reúne milhares de corpos em valas sepulcrais coletivas. Liderando o número de óbitos neste momento.

Ou seja, quem ousou fazer o enfrentamento às convenções internacionais de desaceleração da infestação, tiveram de recuar e pedir desculpas, após verem seus concidadãos sendo dizimados, diante da impotência pessoal e institucional de superar a força transgressora do invisível.

No Brasil, a nação assiste a disputa entre o presidente Bolsonaro e o seu ministro da saúde, Mandetta. O subordinado determina o isolamento social. O chefe exige as gerações jovens nas ruas para trabalhar. Esquece que eles moram com os idosos. Mais que isso, que profissionais de saúde e jovens de 24 a 35 anos já são a maioria de mortos no principal estado econômico do País, São Paulo.

Em Salvador, ACM Neto fez vídeo que circula nas redes sociais, se mostrando tranquilo com o coronavírus, às vésperas da folia momesca. No audiovisual, afirmou que realizaria o Carnaval sem susto, sem preocupações, “que os turistas sejam bem-vindos!”. Dias depois, fim de festa. Durante a ressaca e o silêncio dos trios e foliões, o Covid19 se espalhava rapidamente pelos bairros e logo a cidade se tornou um ambiente de contaminação comunitária, sem controle.

FASES HISTÓRICAS – A sociedade, em suas diferentes épocas, viveu, segundo a filosofia, sociologia e antropologia, fases de relativizações sociais e culturais. Vimos isso nos “centrismos” discutidos nestas ciências. Nos ateremos muito brevemente a três.

O teocentrismo tinha Deus como o centro das coisas. Tudo, na sociedade medieval, tinha na fé soberana, a referência para decisões de interesse social e formatação dos hábitos. Este período deu lugar tempos depois, já na sociedade moderna, ao antropocentrismo, colocando o homem como o centro do universo, construtor e disseminador de culturas. Neste momento de “dominação coronaviriana”, em plena revolução digital, desnuda-se, sem pudor, o que é definido pelo economista Ednaldo Michellon, como sociedade “moneycentrista”.

Na sua obra “O dinheiro e a natureza humana – como chegamos ao moneycentrismo”, ele discute “a ideia de que o mundo vive sob um regime em que o dinheiro ocupa o centro de todas as decisões e se tornou a medida de todas as coisas. Não mais o homem (antropocentrismo), como foi depois da Revolução Francesa e do movimento iluminista, não mais Deus (teocentrismo), como era antes disso. A imprevisibilidade da natureza humana e sua inclinação inata à cobiça adubaram um terreno já propício para que germinasse esse fruto. Enfim, o ser humano, antes no controle de sua condição social, acabou subjugado por sua própria invenção.”

Portanto, vivemos uma era em que a natureza humana, alimentada pela cobiça do dinheiro e do poder, rende-se aos fundamentos moneycentristas. Alguns, da política, das igrejas e dos empreendimentos econômicos, torcerão o nariz e dirão... “não é bem assim”. Bom, este “não é bem assim” é profundo e sintomático. Bastante revelador. Para esta gente, a vida dos seus semelhantes é de menor importância. O poder, pelo ter, são suas razões fundamentais de princípios.

IRECÊ, ELMO VAZ – A cidade de Irecê iniciou seu enfrentamento seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e das autoridades federal e estadual que operam as políticas de saúde pública no Brasil, a partir de pressupostos científicos.

O prefeito Elmo Vaz, diga-se de passagem, demonstrou-se uma liderança equilibrada na proteção da vida. Fechou setores de prestação de serviços geradores de aglomeração de pessoas, a exemplo das redes pública e privada de ensino.

Aos poucos, as medidas protetivas foram ficando mais intensas, considerando o crescimento dos riscos à saúde dos residentes no município, com o regresso de milhares de pessoas que fugiram da infestação de outros centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Estima-se que mais de 4 mil circulam nas comunidades de todo o território. Já confirmada uma pessoa infectada em Canarana. Em Seabra e Barra também, localizadas nas divisas de território. E o transporte clandestino de passageiros é crescente.

A criação e instalação do Comitê de Operações Especiais de Combate ao Covid 19, definição de estratégias de monitoramento com equipes da saúde, com suporte de outras estruturas do governo, impôs barreiras sanitárias e estabeleceu em atividades apenas aquelas consideradas essenciais, contributivas para manutenção preventiva do isolamento social, a exemplo das cadeias de negócios da construção civil, transporte de cargas e produção de alimentos.

Fazendo gestão de conflitos, entre os que defendem rigor das medidas protetivas e os que preferem o funcionamento geral das atividades econômicas locais, o prefeito tem se revelado pela excelente capacidade de escuta, filtros, ponderações, chamando para si, a responsabilidade das decisões. As medidas adotadas em Irecê são referências de procedimentos para a maioria dos demais municípios do território.

Mas, nem tudo é perfeito. Como qualquer ser humano, em espaço de diálogos e decisões democráticas, chega sempre aquele momento em que é preciso ceder. É a política. E ele cedeu ao discurso do “aqui ainda não tem nenhum caso”, apresentado por segmentos do mercado.

Assim, no seu último decreto, o 134/2020, publicado na terça-feira, 7, o governo municipal flexibilizou o funcionamento do comércio e prestação de serviços, mantendo impedidos alguns setores, como sistemas de ensino, academias, salões de beleza e festas de qualquer natureza, bem como eventos religiosos.

Na decisão do prefeito, o município definiu no mesmo decreto, diversas regras preventivas à infestação, a serem seguidas pelos empreendedores e consumidores. Rodízio de turno por segmentos, equipamentos de proteção, materiais de higienização, filas com distanciamento regular e público internos aos estabelecimentos em quantidade controlada, são algumas das exigências estabelecidas. Em supermercados, bancos e lotéricas, os riscos de contaminação são elevados e focos de exemplos da indisciplina peventiva.

Mas nada do que fora combinado é cumprido. Poucos são os empreendedores que obedecem, menos ainda, consumidores que vão às ruas dotados de alguma responsabilidade preventiva. Tem-se a sensação que os mesmos se sentem imunes.

E o poder público não tem capacidade operacional para fiscalizar todas as desobediências, nem monitorar, neste público circulante, possíveis portadores sintomáticos ou assintomáticos de Covid19 e fazer cumprir as normas, frente a um bando de gente que só pensa em ganhar dinheiro e dar lustro às suas vaidades consumistas.

O sentimento do gestor é pela vida, nota-se claramente. Mas ele ocupa um espaço de poder e administra para um coletivo com evidente pluralidade de compreensão da vida e do mundo, onde se revelam os mais distintos interesses, e formatos de pressão, aos quais um líder está exposto em ambiente democrático. Cedeu, estabelecendo responsabilidades preventivas, as quais os seguidores do moneycentrismo, depois de atendidos em suas conveniências, compreenderam que não deveriam cumpri-las. E não as cumprem.

Irecê está vulnerável! Apesar de todos os sacrifícios de muitas famílias que cooperam com o seu isolamento social, de pessoas voluntárias fabricando e distribuindo equipamentos de proteção e do heróico trabalho das equipes de saúde e de segurança e de todas as medidas governamentais, os riscos são visíveis.

Os moneycentristas ireceenses só se darão conta, quando alguém muito querido, diante de si, ser interrompido pelo Covid 19, pois a vida dos outros não tem valor para estas pessoas.

O período previsto de isolamento social, (com todas as políticas de aporte social para as famílias mais vulneráveis, as políticas de amparo ao setor empresarial e as possibilidades de entendimento entre patrões e empregados) não dá margem para demissões e falências. Sacrifícios sim, inevitáveis, porém superáveis. Falências, somente para quem já estava com a saúde empresarial comprometida, como as pessoas com doenças crônicas avançadas, que estão morrendo aos montes.

Para toda a população do território de Irecê, quase 500 mil, temos apenas 10 UTIs públicas (HRI), 6 privados e 5 respiradores do município de Irecê. Estabelecer postura contributiva para prevenir e contaminação e a desaceleração da infestação, é estabelecer um código de honra pela vida.

Operar a cultura do “só fechar as portas depois de roubado”... quando a infestação se tornar fora de controle, é um erro. A partir daí, talvez, os arautos do TER, de certo serão os primeiros a gritarem: Fechem tudo!

As pressões dos moneycentristas para o salvamento da economia, medindo as perdas de vidas, nos fazem lembrar aquelas cenas de filmes em que, num determinado momento da jornada, o grupo descobre o tesouro, mas nota o elevado risco em resgatá-lo. Alguns optam por salvar-se frente aos primeiros sinais de queda das ruinas. Mas sempre tem aquele personagem avarento, que prefere enfrentar o risco e buscar o baú, mas finda sob os escombros, abraçado ao ouro.


Cultura&Realidade - Por João Gonçalves