Educação

Interações socioculturais na promoção da aprendizagem durante a III Semana de Arte do Ifba/Irecê

Cultura&Realidade - 10 de Setembro de 2019 (atualizado 10/Set/2019 09h46)

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Diferenças sociais são temas de peça teatral durante III Semana de Arte do Ifba/Irecê - Foto: Vítor ferreira

Da Redação, com reportagem, texto e fotos de Vítor Ferreira.

Exposições dos trabalhos acadêmicos, onze oficinas, apresentações teatrais, shows musicais entre outras atividades culturais e reflexões sobre diversos temas envolvendo “mesas redondas” de discussões, foram realizados durante a III Semana da Arte do Instituto Federal da Bahia- IFBA/Campus Irecê.

Foram muito fortes as presenças do construtivismo e interacionismo na definição e execução do projeto. De acordo com a coordenação a programação foi repleta de possibilidades para a construção e troca de saberes, uma vez que toda a comunidade acadêmica participou de todos os processos, envolvendo professores e alunos.

Sexta-feira, 6, foi o último dia de uma programação que teve início na terça-feira, 3, promovendo a arte como meio de construção da aprendizagem.

Nesse dia de encerramento, os alunos do 1º Ano de Informática deram início às atividades, retratando personalidades de resistência, em forma de jogral.

Professora de artes e coordenadora do projeto, Alba Valéria continuou com a mostra audiovisual intitulada Resistir para existir: corpos (in)viáveis e (in)vivíveis no campo catingueiro.  Em seguida, ocorreu a apresentação corporal “Indestrutível de Pablo Vittar”, com a aluna Beatriz, do 3º Ano de Eletro.

QUESTÕES SOCIAIS - Duas “Rodas de Conversa” trouxeram temas que provocaram significativas reflexões entre os participantes. Na primeira, a Assistente social, especialista em Saúde mental e a Assistente social do NASF-AB de Irecê, Clara Caroline Barreto de Carvalho, trouxeram o tema: “Afeto e diretos humanos: pensando os sujeitos que dão materialidade à escola”.

A segunda tratou sobre “Mulheres negras em suas sobrevivências insubmissas”, tendo como convidadas, Raiane (UNEB), Taiane (IFBA) e na mediação, Anny. 

Raiane é pesquisadora da UNEB, residente no município de São Gabriel e trouxe para o público a sua pesquisa com tema “Ressignificação e recontos, as possibilidades cultas nas escritas das mulheres negras”, essa que foi baseada no conteúdo do Cadernos Negros que é uma coletânea produzida por um coletivo de pessoas negras que se juntam para produzir e lançar suas literaturas, desde 1978.

“Ser mulher negra é ser resistência. É usar daquilo que foi feito para nos derrubar, para nos manter mais forte do que nunca. Existe uma ‘democrisia’ racial em nosso meio, e não uma democracia racial, se legitimarmos essa democracia, estamos colocando debaixo do tapete as lutas de muitos anos, silenciaremos muitas vozes”, disse Tatiane.

Taiane apresentou para o público alguns contos de sua produção literária, “Cativeiro e liberdade no sertão”, que versa sobre a submissão das mulheres, principalmente as negras, na região de Irecê, desde o século XIX, obra, conforme disse a autora, focada em um método de produção que assegurasse os preceitos científicos, com uma linguagem de alcance popular.

Para a Anny, “os corpos negros femininos foram calados por muito tempo. Os meninos podem participar de movimentos negros e feministas, mas precisam entender que eles tem muito mais como um local de escuta que de fala, acredito que o papel dos meninos é primeiro, ouvir o que as meninas tem a dizer, o que as incomoda, e depois o local de fala para desconstrução da masculinidade tóxica entre eles mesmos e procurar melhorar, pois é uma construção coletiva.”, disse a mediadora, ao finalizar a roda de conversa.

ARTES CÊNICAS - Antes da segunda mesa redonda, o grupo de teatro Citearte de São Gabriel apresentou a comédia Furdunço na Terra do Arcanjo, que agitou a sensibilidade crítica do público com três temáticas. A primeira cena mostrou o trabalho de três senhoras que vendiam seus produtos na feira livre e uma delas se recusava a pagar tributos aos fiscais, alegando ser injusto, pois não ganhou nem o suficiente para a sobrevivência. Ela acaba sendo proibida de continuar a venda e tem sua mercadoria apreendida pela polícia, e segue de volta para casa, “sem eira nem beira”.

 A segunda cena teve como fundo musical, “Filho da ânsia”, de Sacha Arcanjo, mostrando a realidade de uma criança que vive na rua com seus direitos violados. Invés de estar na escola, em espaços que possibilitam o seu empoderamento cidadão, passa despercebida pelas pessoas, e acaba quebrando regras sociais, ao cometer furtos e outras práticas consideradas antissociais.

A última cena do espetáculo, sutil e cômica, denuncia a desigualdade social, com foco na concentração de renda e a cultura consumista, a partir do diálogo entre duas senhoras, uma detentora de elevado poder de consumo, versus a uma representante dos setores de pequena capacidade de contemplar ao menos as necessidades fundamentais, como moradia e alimentação.

Na evolução do enrendo, ambas entram em uma batalha para mostrar seus pertences. A personagem que representou o segmento da pobreza, expondo a realidade cultural de um mundo fantasioso, vivendo de um discurso no qual tenta se mostrar igual à que vive em condições materiais satisfatórias.

Para fechar o evento, o público foi animado pelo Show de Rock e MPB da Banda Os Hosanas.

AVALIAÇÃO –  “Foram momentos maravilhosos, de desconstrução dos achismos e construção da aprendizagem sobre diversos temas que levaremos para a vida. A programação nos trouxe experiências da realidade. Por exemplo, as apresentações teatrais que possibilitaram a reflexão de nossas práticas no dia a dia. Todas as instituições de ensino deveriam fazer uma semana nesse estilo”, disse Maria Alice, aluna do 2º Ano da formação em Biocombustível.

“Foi uma semana bastante interessante, um movimento que deveria acontecer várias vezes, pois oferece conhecimento tanto para os alunos quanto para o público em geral através da cultura artística engajada”, comentou Joelma Santos da turma de 1º Ano de Informática.

“Avaliamos como positivamente a Semana de Arte do Campus Ifba/Irecê. Conseguimos envolver todos os segmentos e o aprendizado dos alunos. Foi uma semana de formação em que a gente saiu do modelo tradicional de escolarização da sala de aula e trabalhamos no processo de formação, para construir o conhecimento utilizando as artes. Foi uma semana para refletir e discutir temáticas que vem afetando a sociedade, principalmente a atual situação da nossa educação, através das artes”, avaliou a professora de Artes e idealizadora do projeto Alba Valéria Neiva.

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 Assistente social, especialista em Saúde mental e a Assistente social do NASF-AB de Irecê, Clara Caroline Barreto de Carvalho.

 

Primeira cena do espetáculo: Furdunço na Terra do Arcanjo

Segunda cena do espetáculo: Furdunço na Terra do Arcanjo

Terceira e última cena do espetáculo: Furdunço na Terra do Arcanjo

Grupo de teatro CiteArte SG

Segunda mesa de conversa sobre “Mulheres negras em suas sobrevivências insubmissas”

Raiane (Uneb)

Taiane Dantas

Anny, mediadora da mesa.

Banda Os Hosanas.

Alba Valéria - Professora de Artes e coordenadora da semana da Arte

Joelma Santos da turma de 1º Ano de Informática

Maria Alice, aluna do 2º Ano da formação em Biocombustível.

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