BRASIL

Ida de Bolsonaro a manifestação é considerada inadequada por infectologistas

Cultura&Realidade - 17 de Março de 2020 (atualizado 17/Mar/2020 09h53)

file-2020-03-17095251.582616-Sem_titulo-1364adf52-684e-11ea-b070-f23c917a2cda.jpg

Jair Bolsonaro ignorou recomendações da área de saúde para conter o coronavírus e teve uma conduta considerada inadequada - Foto: Ilustração

Ao participar de uma manifestação de rua neste domingo, o presidente Jair Bolsonaro ignorou recomendações da área de saúde para conter o coronavírus e teve uma conduta considerada inadequada por especialistas em virologia e infectologia.


No começo da tarde, com colete à prova de balas, mas sem máscara de proteção, o presidente juntou-se a um ato a favor do governo, trocou abraços com apoiadores, tocou em telefones celulares alheios e manteve-se próximo de idosos, grupo de risco para a pandemia.

Até a terça-feira, o presidente da República esteve em viagem aos Estados Unidos, país onde há transmissão local do coronavírus. Sete integrantes do grupo que o acompanhou na viagem, incluindo auxiliares próximos, testaram positivo para a nova doença. Bolsonaro submeteu-se a exame. Na sexta-feira, o governo anunciou que o resultado havia dado negativo para coronavírus, mas uma nova análise laboratorial será realizada nos próximos dias.

O presidente da Sociedade Rio-Grandense de Infectologia (SRGI), Alexandre Vargas Schwarzbold, observa que a própria realização de uma manifestação pública, quando uma epidemia está em curso, não é algo adequado e desafia o bom senso. O especialista entende que a participação de Bolsonaro pode implicar em risco de contaminação de outras pessoas. Se o presidente realmente não teve nenhum sintoma depois de voltar dos Estados Unidos, diz Schwarzbold, o recomendado era que permanecesse em isolamento durante sete dias. Como teve contato com pessoas comprovadamente infectadas, o indicado seriam 14 dias.

 –  Existe uma certa falta de percepção do presidente, no momento em que o próprio ministro da Saúde, que é medico e está conduzindo muito bem o processo, diz que vai ocorrer um segundo teste. Esse reteste é em função de que, mesmo que o primeiro tenha dado negativo, ele pode ter sido feito muito cedo. Para a gente ter certeza de que Bolsonaro não tem nenhum risco, de que ele pode fazer o que quer em atividades pública, teria de esperar algo como 14 dias após a vinda dele dos Estados Unidos. Tirando o bom senso da pessoa, o rigor técnico diz que alguém na condição dele não deveria ir a uma aglomeração. A chance de transmissão existe e, nesse sentido, é sem dúvida um ato um pouco irresponsável do presidente  –  avalia Schwarzbold.

Paulo Michel Roehe, professor de virologia do departamento de microbiologia, imunologia e parasitologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reforça que, mesmo com o teste negativo feito por Bolsonaro, o caso do presidente requereria resguardo porque o período entre a infecção com o coronavírus e o aparecimento de sinais pode durar de cinco a 14 dias.

 –  O teste dele deu negativo, mas o fato de um teste dar negativo não quer dizer que a pessoa está isenta de apresentar sinais mais adiante ou de estar infectada. E se ele teve contato com pessoas infectadas, no mínimo não é recomendável esse tipo de exposição em público. Se é recomendada quarentena para que viajou ao Exterior, imagina para quem sabidamente teve contato com indivíduos infectados. Deveria haver um resguardo. É uma questão de lógica. Além disso, ele é o presidente. Quando está todo mundo buscando se resguardar, ele está fazendo o contrário, está expondo outras pessoas a um risco desnecessário. Ele daria um exemplo melhor se resguardando –  afirma Roehe.

Alexandre Zavascki, professor de infectologia da UFRGS e chefe do Serviço de Infectologia do Hospital Moinhos de Vento, ressalta também a importância de levar em conta o prazo de 14 dias, dentro do qual podem aparecer os sintomas. Também segundo ele, um resultado negativo nesse período não exclui a doença. Zavascki concorda com a avaliação de que, tendo havido contato de Bolsonaro com pessoas contaminadas, o resguardo era a conduta indicada.

 –  O adequado era no mínimo manter restrição de contatos sociais, se não o isolamento. Mesmo que ele não tenha apresentado sintoma nenhum, ter contato com pessoas com confirmação da infecção já seria o suficiente para ficar resguardado. A conduta correta seria quarentena de pelo menos sete dias, sendo idealmente de 14 dias. Isso não impediria o presidente de trabalhar, mas essa exposição, sim, deveria ter sido evitada. Ela não colabora, potencialmente expões outras pessoas e não me parece um bom exemplo para a maior autoridade do país  –  diz.

Luciano Goldani, professor de doenças infecciosas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), avalia que o exame negativo de Bolsonaro afasta o risco de que o presidente possa contaminar outras pessoas, mas também reprova a participação do mandatário em um ato público.

 – Ele não gera risco, testou negativo. Então não tem o vírus. Mas abraçar os outros e ir em comícios nessa altura do campeonato não é certo. Não é uma conduta adequada agora. Não é um bom exemplo. E ele pode contrair o vírus de outras pessoas.

Durante a semana, o próprio Bolsonaro havia pedido a seus apoiadores que não realizassem atos neste domingo, por causa da pandemia. Pouco depois do meio-dia, no entanto, deixou o Palácio da Alvorada e seguiu para a Esplanada dos Ministérios, onde ocorria a manifestação. O comboio presidencial seguiu em uma espécie de carreata. No Palácio do Planalto, separado do público por  gradis, pegou celulares das pessoas para selfies.  Em alguns momentos, apertou mãos e deu abraços. Entre os que o acompanhavam estava o médico Antonio Barra Torres, diretor-presidente substituto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Com conteúdo de GZH