Irecê e Região

Ibititá e a Rosa dos Vento, quadrilha junina que propõe um novo arquétipo sociocultural

Cultura&Realidade - 22 de Julho de 2019 (atualizado 22/Jul/2019 13h15)

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Símbolo marcante da quadrilha Rosa do Vento - Foto: Divulgação

 Por Jaciel Alves dos Santos*

 

Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio,

paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor. (...)

É feia. Mas é uma flor.

 Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

(Carlos Drummond de Andrade/2007).

 

Vivemos em uma época e lugar em que a arte tem sido negligenciada. As oportunidades de vivenciar as artes como sendo manifestações genuinamente humanas, nesta região como um todo, são ínfimas. Há um verdadeiro desconhecimento de que a fruição da arte é um direito fundamental do cidadão e que, portanto, requer atenção e valorização por parte da sociedade e do Poder Público. Além disso, sabe-se que a arte resgata pessoas em situação de risco social, ampliando oportunidades de (com)vivências que podem reverter tal situação.

Foi com essa consciência que foi criada em 2018 a Junina Rosa dos Ventos. Trata-se de uma quadrilha junina estilizada formada exclusivamente por pessoas de Ibititá-BA. Neste primeiro ano de existência, nos apresentamos em diversos lugares e o nome Rosa dos Ventos começou a ganhar outros sentidos para o povo deste município.

Geograficamente a rosa dos ventos é um instrumento que serve para navegação e é utilizada para auxiliar na localização de determinado corpo ou objeto em relação a outro. É formada pelos pontos cardeais e seus intermediários. Se chama rosa dos ventos por lembrar as pétalas da flor.

Queríamos, além de conquistar e transitar por espaços geográficos, darmos ao grupo valores simbólicos de boa sorte, com desejo de alcançar novas direções na vida, espírito de esperança e, sobretudo, de mudança, em um mundo que segue relegando as artes à invisibilidade e a uma quase inexistência.

Justamente por assim acreditarmos, participamos de um concurso em Oliveira dos Brejinhos (conforme se pode ver nas fotos de Gão Dourado) no último dia 27 de junho e conquistamos o terceiro lugar.

Poeticamente, como se pode ver na epígrafe acima, fragmento do poema A flor e a náusea de Carlos Drummond de Andrade, o eu-poético já deu sinais claros dessa mudança que ele está imaginando e fantasiando e que está para ocorrer, o que já é vislumbrada na última estrofe, por conta do anúncio de ― nuvens avolumando-se e das galinhas em pânico. É o nascimento da rosa, símbolo do desabrochar de um mundo novo, o que mantém o poeta/artista vivo em meio a tanto desencanto.

A comum dureza do asfalto, isto é, do cotidiano não tem que ser imobilizante. Ao contrário, é justamente por acreditar em possíveis alterações que busco fissuras no que se acredita inalterável.

O problema é que, muitas vezes, nós nos acostumamos com a paisagem insossa do dia-a-dia e nos sentimos desafiados ou desmotivados para apreciar tal (a)dversidade como uma possibilidade de aprendizagem e crescimento.

O que pretendemos com este projeto-flor é permitir que o sutil, delicado e belo ganhe lugar numa paisagem sensabor, árida, dura e cinza. Que um pouco de beleza, proporcionada pelo apreço à diversidade, possa (a)trair o olhar e a admiração dos transeuntes.

 Assim nasce a Rosa dos Ventos com o claro objetivo de lançar mais luz e cor na realidade e fazer com que o cotidiano ganhe mais esperança e possibilidade. A flor nasceu. Resta, agora, regá-la.

(*) - Jaciel Alves dos Santos é mestre em Educação, Currículo, Linguagens pela UFBA, especialista em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura, graduado em Letras. Atualmente é professor estadual, Graduando de Direito pela UNEB e diretor do projeto Rosa dos Ventos.

Imagens de apresentações de Rosa do Vento, um espetáculo belíssimo: