CULTURA

“Gonzaga in Folk”, um espetáculo musical inesquecível e rico de significados

Cultura&Realidade - 23 de Dezembro de 2019 (atualizado 23/Dez/2019 11h55)

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Espetáculo memorável, Gonzaga in Folk aconteceu em Irecê, onde ocorrerá temporada em janeiro de 2020 - Foto: Vitor Ferreira/Cultura&Realidade

Por João Gonçalves

Uma cerca, plantas ressequidas e florada ao solo. A cangalha carregando feixe de lenha, guardando sobre si, o gibão e um surrado chapéu de couro. O cenário que logo ganhou o nascer e pôr do sol, cantigas da passarinhada e aquela fumaça comum no horizonte sertanejo, quando dos preparativos para o plantio. É tempo de seca, anunciando o tempo do verde, quando a Caatinga se renova e as famílias sertanejas se reanimam na lida do campo. Ô sertão!

Foi nesta perspectiva que o “Gonzaga in Folk” foi se iniciando, até a entrada do quinteto que faria um espetáculo de extraordinário significado, rico em musicalidade e enriquecimento cultural, com voz e produção de Asley.

Os clássicos do mestre “Gonzagão” ganharam uma roupagem até então ainda não vista. Sem perder a originalidade em nenhum momento, foi possível sentir as influências do country popularizado por Bob Dylan, do rock de Elvis Presley... foi possível sentir até mesmo umas pitadas progressivas na guitarra de Helbinho Durães. O trompetista Odair, o batera Dedê e o contrabaixista Gideão, fizeram um show à parte.

E o que dizer da participação especial de Claudinho do Acordeon? Foram apenas três sanfonadas, mas o menino mostrou o porquê de ser tão querido e reconhecido com aquele instrumento que marcou a trajetória do rei, o “Rei do baião”. A sanfona de Claudinho abrilhantou a voz de Asley que rasgou Asa Branca... “...Por farta d'água perdi meu gado/Morreu de sede meu alazão/Inté mesmo a asa branca/Bateu asas do sertão/Entonce eu disse, adeus Rosinha/Guarda contigo meu coração...”

O medo do Acauã, também ganhou novos arranjos, com pedidos de socorro pelo seu silêncio, na esperança das chuvas e dos cantos do João Corta-Pau, da coruja e da mãe lua, do bacurau e da alegria dos cantos do sapo, da gia e da rã, a certeza das águas nas lagoas, das cacimbas e veredas dos banhos dos meninos seminus, escondidos dos mais velhos e das lavadeiras com seus cantos populares.

E a maldade feita com o “Assum Preto” ganhou um tom de voz diferente, com um gemido doloroso da guitarra, seguindo um trompete, uma bateria e os acordes emocionantes do contrabaixo. Parecia aquela poesia, de tão bonita, mas de história tão triste, que dói na alma: “...Tarvez por ignorança/Ou mardade das pió/Furaro os óio do Assum Preto/Pra ele assim, ai, cantá de mió)/Assum Preto veve sorto/Mas num pode avuá/Mil vez a sina de uma gaiola/Desde que o céu, ai, pudesse oiá)/Assum Preto, o meu cantar/É tão triste/ como o teu/Também roubaro o meu amor/Que era a luz, ai, dos óios meus/Também roubaro o meu amor/Que era a luz, ai, dos óios meus”.

E entre uma canção e outra, as batalhas instrumentais e as falas que diziam: “este show foi sonhado há dez anos. Ouvindo Raul Seixas, que era apaixonado por Luiz Gonzaga e Elvis Presley... um do sertão brasileiro, outro do sertão estadunidense, veio o ‘insite’... porque não a junção destes gêneros, tratando de coisas das comunidades? Nasceu aí o Gonzaga in Folk.  Muita gente pergunta o que é este tal de folk e a jornalista Aline Dourado me trouxe uma perfeita tradução... são cantigas e causos das comunidades... uma história de seu Raimundo, lá daquele lugarejo”, disse Asley.

E pra fechar... “Olha pro céu, meu amor/Vê como ele está lindo/Olha pra aquele balão multicor/Como no céu vai sumindo.../Foi numa noite igual a esta/Que tu me deste o coração/O céu estava assim em festa/Porque era noite de São João/Havia balões no ar Xote, baião no salão/E no terreiro o teu olhar/Que incendiou meu coração...”

Foi, é isso, os meninos citados aí enriba fizeram, para quem estava no auditório do Colégio Modelo (Irecê clama há anos por um espaço para as apresentações artísticas, que permanece nos sonhos e nas falas) no último sábado, 21, sem dúvida o melhor show musical do ano em Irecê. Merece ser revisto e popularizado.

PÚBLICO – Particularmente, havia por parte de alguns fãs de Asley, uma preocupação com a presença do público, considerando a época do ano e o modo não comum para estas apresentações em Irecê, para um público habituado em música de bar, festas de largo ou shows dançantes (Este dá pra dançar também, e muito). Na hora marcada, os estacionamentos não representavam o sonhado. Com aquele atraso cultural, as pessoas foram chegando, trazendo aquela energia boa e a cada canção, aplausos e sussurros de contentamento.

Um grito que veio do auditório (não sei de quem) vociferou que “este show só presta se não acabar”. Ele continua... temporada em janeiro foi anunciada. Estarei lá “travez”.

GONZAGA IN FOLK

Ficha Técnica:

Asley – voz, violão e gaita

Helber Durães – guitarra e violão

Gideão Rocha – contrabaixo

Bateria – Dedê

Trompete – Odair Filho

Assistente de produção – Jara Rocha

Cenário – Asley, Helbert Durães e Jara Rocha

Sonorização – Andrinho

Produção e direção - Asley

ALGUMA IMAGENS, EM FOTOS DE VITOR FERREIRA

Asley

Claudinho do Acordeon em participação especial

Dedê

Público focado

Gideão

Helbinho

Odair