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Garis sofrem diariamente com lesões por causa do lixo mal-embalado, saiba como ajudar

Cultura&Realidade - 03 de Junho de 2019

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Foto: Divulgação

Nos últimos cinco anos, Carlos Gomes dos Santos, 33, sofreu vários acidentes de trabalho: teve um corte profundo na perna, outro no dedo da mão, foi atropelado por uma moto e perfurado duas vezes por seringas hospitalares usadas. O gari faz parte de um batalhão de 530 profissionais que, diariamente, percorrem 25 km de ruas e avenidas de Belo Horizonte coletando lixo domiciliar e do comércio. Pelo menos cinco deles sofrem cortes profundos todo mês, por conta dos resíduos mal-acondicionados.

E esse “trabalho sujo”, como muitos assim enxergam, é de alto risco por conta da falta de compreensão e de educação, principalmente da população, que deveria embalar melhor seus dejetos e contribuir para a garantir a segurança desses profissionais.

De acordo com a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), os acidentes envolvendo garis na capital são constantes. Os profissionais acabam se ferindo com objetos cortantes e pontiagudos, como cacos de vidro, lâminas, pedaços de espelho, latas de alimentos em conserva, espetos de churrasco, lâmpadas fluorescentes e seringas hospitalares usadas. Nesse último caso, por haver risco de contaminação, o gari fica seis meses afastado do trabalho, em tratamento, e quem perde é a própria população.

“Não tem como a gente evitar os riscos. A todo instante, a gente está na rua e pode acontecer um imprevisto, tanto pegando o lixo dos moradores como também riscos no trânsito”, disse Carlos Santos, que cortou a perna com um pedaço de espelho quebrado que colocaram em um saco preto. “No que eu peguei o saco e saí correndo atrás do caminhão, ele bateu na minha perna e me cortou. Levei dez pontos”, conta o gari.

Ele também afirma que foi atropelado por uma moto e, há poucos dias, cortou um dedo da mão e levou cinco pontos. “Fui perfurado duas vezes com seringas hospitalares colocadas em sacos de lixo. Não colocam as seringas da maneira correta, dentro de garrafas, mas numa sacola, de qualquer maneira”.

Os garis chegam a atingir velocidade de 7 km/h correndo atrás dos caminhões em movimento para depositar o lixo. “É preciso a cooperação dos outros motoristas no trânsito. Infelizmente, muitos reagem com impaciência, não levando em consideração a importância do trabalho realizado pelos garis”, informou a SLU.

Muitos colegas de equipe de Santos também sofreram acidentes. “Um deles foi puxar o lixo e veio uma madeira e bateu no rosto dele. Quase furou o olho. Outro trabalhava comigo à noite e perdeu praticamente todos os dentes quando correu e bateu a boca num fio esticado pela Cemig”, disse.

HIV. Em alguns casos, os garis feridos com seringas são obrigados a tomar coquetel anti-HIV. Muitos não informam acidentes de trabalho com medo de perder o emprego.

Responsáveis. A segurança dos profissionais da limpeza da capital é de responsabilidade da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), de empresas terceirizadas e da própria população, segundo o órgão.

Proteção. As empresas terceirizadas são obrigadas a oferecer equipamentos de proteção individual, como luvas, calçado e vestimenta.

Caminhões. Mais de 200 caminhões de lixo cruzam diariamente a cidade de Belo Horizonte. Em 2018, a SLU recolheu mais de 680 mil toneladas de rejeitos nas residências e comércio da capital.

Cheiro forte de dejetos incomoda só os outros

Com o passar do tempo, Santos disse não se incomodar tanto com o cheiro forte do lixo. “Agora, para minha esposa, quando eu chego em casa, o cheiro já a incomoda bastante. Quando entramos no ônibus, voltando do trabalho, ficamos até sem graça de sentar perto do pessoal. Mesmo quando tem assento disponível, preferimos ficar em pé, perto da porta, para não incomodar as pessoas”, disse.

O gari conta, ainda, que eles são vítimas de preconceito e de brincadeiras, mas que isso tem diminuído com o tempo. “Hoje, quem conversa mais com a gente são as pessoas mais experientes, que sabem que o nosso trabalho é sofrido. Quem mexe mais com a gente são esses meninos de escola, que passam e chamam a gente de ‘cheiroso’”, comentou Santos.

Na segunda e na terça-feiras, como há lixo acumulado do fim de semana, ele conta que pega serviço às 8h e só termina a coleta às 18h, recolhendo de 25 t a 30 t de resíduos por dia.

Funcionário que se acidenta com seringa é afastado

O gari que se acidenta com seringa descartável, que pode estar contaminada, é encaminhado para o serviço de saúde e fica seis meses afastado do trabalho para tomar uma série de medicações e vacinas.

De acordo com a chefe do departamento de políticas sociais e mobilização da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), Ana Paula da Costa Assunção, os acidentes mais comuns são com cacos de vidro e seringas. “São feitas campanhas orientando a população sobre o correto acondicionamento dos resíduos”, disse, lembrando que os garis recebem equipamentos de proteção individual. “A luva não consegue garantir totalmente a segurança, principalmente quando se trata de seringas e vidro”, alertou.

Como condicionar o lixo corretamente

1 - Acondicione vidros e itens pontiagudos ou cortantes em garrafas PET lacradas ou em embalagens longa vida;

2 - Pressione as tampas das latas de alumínio para dentro antes de descartá-las;

3 - Quebre espetinhos de churrasco e, se possível, vede-os em
caixas de sapato;

4 - Não jogue fora líquidos no lixo comum, principalmente os tóxicos e ácidos;

5 - Descarte lâmpadas fluorescentes somente em locais apropriados, como lojas que as recebem;

6 - Informe que há vidros no saco de lixo ou entregue a embalagem
nas mãos do gari;

7 - Evite jornal para envolver materiais cortantes;

8 - Use sacos de lixo reforçados para que não se rompam e espalhem materiais nas ruas;

9 - Quem faz uso de insulina deve guardar as agulhas usadas em
garrafas, que devem ser lacradas antes do descarte;

10 - Coloque garrafas de vidro intactas ‘em pé’ em uma caixa de papelão ou as descarte em pontos de coleta seletiva.

Da redação, com informações do site O Tempo