IRECÊ

Fruto da "árvore sagrada do Sertão" é vendido no mercadão e centro de Irecê

Cultura&Realidade - 27 de Janeiro de 2020 (atualizado 27/Jan/2020 13h37)

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Para alguns, além do saborear, há um resgate das lembranças de quando viviam na roça;  - Foto: Ilustração

 

Da Redação, por Vítor Ferreira

Em diversas estradas, homens, mulheres e crianças se encontram oferecendo em litros ou ensacados, como meio de renda periódica. Nas cidades, famílias carregam bacias e caçuás (feitos de cipó, taquara ou vime, dependendo do lugar) cheios do fruto, para saciar a vontade de consumo dos sujeitos urbanos, ou urbanizados.

Para alguns, além do saborear, há um resgate das lembranças de quando viviam na roça; acordar cedinho, reunir amigos e familiares, pelos caminhos estreitos da relva umedecida molhando as canelas, brincar nas lagoas de mergulhos formadas pelas chuvas recentes, e de longe sentir o cheiro inconfundível... é ela, a "árvore sagrada do Sertão" como foi chamada por Euclides da Cunha, o umbuzeiro.

Imbuzeiro ou umbuzeiro? Tanto faz, as duas estão corretas. E até por que, como se escreve não importa muito para quem faz o bom proveito dele, principalmente do seu fruto, que muitos enchem “a boca d’água” ao ver aquelas bacias de umbu nas estradas, no centro das cidades, no mercado ou quitandas.

PELAS RUAS DE IRECÊ

Em Irecê, nesta “época do verde”, período de chuvas no sertão baiano, o umbuzeiro produz em abundância. Muita gente colhe e faz polpas caseiras, ou, a depender da quantidade, vende para consumo in natura e até mesmo comerciantes das grandes cidades fazem diversas viagens, de caminhões, em busca do produto, que é vendido nas ruas das capitais ou em indústrias para o fabrico de derivados, como polpas em larga escala, doces, geleias e outras iguarias.

Foto: C&R

Muitas pessoas, principalmente mulheres de várias comunidades vendem umbus em Irecê, principalmente no “Mercadão” ou nas principais ruas da cidade, no centro comercial.

Silvania Oliveira, 30 anos, mãe de um filho e desempregada, tem na venda dos umbus uma alternativa para melhorar a renda familiar, somando ao benefício do Bolsa Família.

Silvania Oliveira, vendendo umbus no centro de Irecê - Foto: C&R

Residente do povoado de Faveleira, município de Ibititá, ela falou ao site Cultura&Realidade na sexta-feira, 24, em seu segundo dia de venda do fruto no centro de Irecê, que é lucrativo e as pessoas da cidade procuram muito. “Cheguei aqui às 7h com um saco cheio, e já vendi quase tudo a R$ 2,00 o litro, daqui para meio dia termina tudo e vou para casa, assim como ontem. Pena não ser durante todo o ano”, disse Silvania.

Taís Lopes tem 26 anos, saiu de casa cedinho, organizou seu espaço em uma das portas do “Mercadão” e estava ali desde às 6h30. Ela tem o umbu como mais um produto para suas vendas, e assim, complementar o custeio das despesas da família.

Tais Lopes com sua banca de umbu em uma das portas do Mercadão de Irecê - Foto: C&R

Mãe de três filhos, mora no povoado de Umbuzeiro, e diz que neste período, todo finalzinho de tarde reúne os filhos e outros parentes para ir “catar” os frutos, retornam para casa, fazem a limpeza, deixando tudo organizado para o dia seguinte. Mesmo com todo o trabalho desde a coleta até chegar ao mercadão, ela diz que algumas pessoas ainda acham caro. “Nós temos tanto trabalho para ir buscar, limpar, trazer até aqui, e as pessoas ainda acham caro. Por trás de tudo isso, há o nosso trabalho”, manifestou microempreendedora.

CICLO

A temporada dos frutos começa do finalzinho de cada ano, dando as boas-vindas ao novo que se inicia, perpassando janeiro até abril ou maio, a depender da distribuição das chuvas. Mas faça chuva ou faça sol, todo ano há de ter umbu.

O segredo está embaixo da terra. As raízes têm batatas, que atuam como reservatórios de água para manter a planta em tempos de crise hídrica, como as demais espécies nativas do bioma Caatinga.

Raizes batatas do umbu - Foto: Internet

A água acumulada nas batatas, centenas delas, vai regando a árvore. As pesquisas calculam que um umbuzeiro grande chega a reservar 1.500 litros de água.

O UMBU, PARA ALÉM DO FRUTO

Aos poucos a ciência e a tecnologia vão expondo a versatilidade do umbu, e atualmente se tem no mercado vários de seus derivados.

Maduro, ele propicia polpa para suco integral, casca para obtenção de pasta, casca desidratadas (ao sol ou forno) e moídas para preparo de refrescos, xarope, etc.

Estando "De vez" (inchado) é excelente para umbuzadas, pasta concentrada, compota e geleia. Ainda verde (figa) pode se transformar em “umbuzeitona” e doce de umbu.

 

Daqui da redação, nos rendemos ao “santo” umbu, que seja eterno.

Por Vítor Ferreira