POLÍTICA

Família Sobral se habituou a não soltar o osso, não confia nem mesmo para os seus aliados

Cultura&Realidade - 03 de Março de 2020

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Apenas os de casa, nem aliados entram - Foto: Ilustração

Extraído integralmente do Irecê Press/Por Juliano Ferreira

Inelegível e com sua candidatura inviabilizada em 2020, Luizinho Sobral (Podemos) tenta emplacar em seu grupo político e na oposição em Irecê, o nome de Michelle Sobral, sua esposa e advogada, fundadora da InovaJud, uma startup na área de Direito Digital. O objetivo da articulação é manter a hegemonia do capital político neste ano com vistas para 2024, quando Luizinho estaria apto a concorrer para o Executivo ireceense.


O problema é que a indicação do nome de Michelle Sobral vem sendo questionado por membros do próprio grupo político Sobralista e principalmente pela população. O argumento central é que a advogada não mora em Irecê e consequentemente não possui relação identitária com o município. Atores políticos questionam se no próprio grupo Sobralista não haveria em Irecê um nome capaz de aglutinar forças para enfrentar Elmo Vaz nas urnas em outubro. Até agora, o único nome insurgente é o do vereador e vice-presidente da Câmara de Irecê, Leonardo Silva (PSDB).

Desde 2016, quando Luizinho Sobral perdeu o Executivo para Elmo Vaz, ironicamente com 819 votos de frente, o grupo sofreu duas baixas políticas. Além do Executivo municipal, o político amargou a perda de uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia por falta de 12 votos. Em 2018, já estava inelegível e se alcançasse a vaga, teria que enfrentar processos judiciais e entrar com liminar para assumir. As baixas de Luizinho não se dão apenas no âmbito político, mas jurídico também. Além da inelegibilidade, o político enfrenta diversos processos jurídicos, como contratos fraudulentos com profissionais de engenharia e contratos fraudulentos em relação ao São João de 2016, sendo acionado como réu pelo Ministério Público da Bahia em ambos os casos.

APENAS OS DE CASA, NEM ALIADOS ENTRAM – A tentativa de hegemonizar um grupo político a partir da família Sobral vem de longa data. O ano é 1988. Doinha era o prefeito à época e escolheu o então conhecido como “Luiz do Saco” como seu sucessor político. O apelido se dava pois Luiz Sobral era um comerciante que vendia sacos, nas feiras livres. Sendo Luiz Sobral um analfabeto, Doinha acreditou ser possível elegê-lo e continuar no comando político da prefeitura. “Luiz do Saco” se emancipou de Doinha e desde então, todas as eleições contaram com membros do clã Sobral disputando nas disputas.

Em 1992, o sobrinho e filho de criação Henrique Sobral, então gerente do Armazém Sobral se elege prefeito. Foi um período marcado por muitos lixões, esgotos a céu aberto por toda a cidade e muitos urubus. Irecê tinha duas populações: humanos em terra e urubus no espaço.
Com o imenso desgaste da gestão de Henrique Sobral, criou-se em 1996 uma frente ampla contra Sobral e o já forjado conceito do Sobralismo. À época, como deputado federal, Beto Lélis foi convidado pelo professor Jorge Rodrigues para ser o candidato. Beto aceitou e foi alçado ao poder pelo PSB.

É conhecida a citação atribuída a Luiz Sobral: “Já ganhei, já botei meu sobrinho, se eu quiser boto minha mulher, meu filho ou até meu cavalo. Não é qualquer jegue preto que vem pra Irecê”. A resposta de Beto Lélis foi rápida: “Seu Luiz, comi seus votos e como, e como, e como”.

BETO VERSUS IVONE – Anos 2000, Beto Lélis disputa a eleição com Ivone Pimentel Sobral. Em acirrada disputa, Beto vence com 1% dos votos de frente. O mesmo percentual que teve o terceiro candidato Francisco Dourado: 281 votos, como cravou o instituto de pesquisa Cultura&Realidade.

Em 2004, Beto Lélis se afasta da prefeitura, deixando seu vice Joacy Nunes Dourado. Enfraquecido politicamente Luiz Sobral se muda para o Mimoso do Oeste, atual Luís Eduardo Magalhães, deixando sua filha Jô Sobral, psicóloga e sucessora política. A candidatura de Jô não vinga alcançando apenas o 3º lugar. A disputa foi polarizada por Joacy e Zé Duarte, quando Joacy foi reeleito.

Em 2008, Zé das Virgens disputa o executivo com Luiz Sobral e ganha com 4 mil votos de frente. Beto Lélis alcança 5 mil votos, que foram anulados por ter ficado inelegível em 2004.

LUIZINHO FAZ ALIANÇAS MAS NÃO CUMPRE ACORDOS – Nas eleições de 2012, Luizinho Sobral articula uma forte aliança com forças políticas tradicionais, como Geddel Vieira Lima, Lúcio Vieira Lima, Paulo Souto e outros figurões, entrou em campanha com um aparato profissional muito forte, incluindo direito a guindaste, avião e helicóptero, além de uso abusivo das estruturas de comunicação do Grupo J. Sidney, da rádio Líder FM. Com esta estrutura, derrota Zé das Virgens. Antes, o legítimo sucessor do Sobralismo havia sido eleito vereador em Salvador em 2008 e suplente de deputado em 2010. Mas a vitória sobre Zé das Virgens foi marcada por crimes eleitorais que após uma longa batalha na justiça, ele foi condenado, juntamente com Hisadora Lelis, esposa de Beto Lelis e o empresário José Sidinei de Souza, o J. Sidney. Todos inelegíveis.

Do passado, ao presente, para compreender o futuro, percebe-se na conjuntura política ireceense a tentativa do clã, de sempre emplacar o sobrenome Sobral nas eleições para a majoritária, com representantes na própria Câmara Municipal, onde também sofreu baixas nas eleições de 2018, quando viu vereadores de sua base se dividir para apoiar sua candidatura e a candidatura de Zé Carlos da Cebola para deputado estadual. No parlamento, a principal representante do grupo é Margarida Cardoso, presidenta do Podemos em Irecê e líder da bancada de oposição na Câmara.

Com a vinda do Presidente da Câmara, Paulinho do Destak para a base governista de Elmo Vaz, o grupo Sobralista sofre nova derrota política. Vereadores como Consuelo Dourado e Léo da Unibel terão que procurar nova sigla partidária para se abrigarem quando a janela se abrir, pois o PSDB será comandado por Paulinho do Destak e consequentemente virá para a base de Elmo Vaz, algo impensável para Consuelo, atual presidenta do partido e Léo da Unibel.

Sem família em Irecê, sem confiar nos próprios membros do grupo que habitam em Irecê e inelegível, Luizinho Sobral, que perdeu a confianças de todas as lideranças estaduais que o ajudaram na primeira eleição de prefeito, por não ter honrado os compromissos assumidos com os mesmos, busca agora, de todas as formas assegurar sobre o seu comando, os seus seguidores, visando as negociações para as disputas de deputados em 2022.