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Enem digital: Projeto-piloto é visto por especialistas como um passo importante

Cultura&Realidade - 05 de Julho de 2019 (atualizado 05/Jul/2019 12h13)

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Especialistas afirmam maior segurança após implementação do ENEM digital - Foto: ilustração

Anunciada pelo ministério da educação nesta quarta feira (3), a versão digital do exame nacional do ensino médio (ENEM), é vista por especialistas como um passo necessário para o aprimoramento da prova, mas que precisa levar em consideração aspectos como a desigualdade de acesso e a necessidade de nivelar a dificuldade dos dois formatos durante o período de transição. 

Conforme o modelo divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o piloto terá início em 2020 com 50 mil estudantes, ou 1% do total previsto de candidatos, e será escalonado gradualmente até se tornar 100% digital em 2026.

Veja abaixo os principais pontos do projeto e as opiniões de dois pesquisadores especialistas na área de avaliações em larga escala:

  • Em 2020, o Enem terá as duas aplicações anuais, além de uma aplicação em formato digital em dois dias de outubro;
  • A aplicação em 2020 será em 15 capitais brasileiras (veja no mapa);
  • A adesão dos candidatos será opcional no ato de inscrição, até um total de 50 mil participantes, o equivalente a 1% do total de participantes;
  • O valor da inscrição será o mesmo para todos os participantes;
  • Entre 2021 e 2025, o Inep ampliará o número de aplicações do Enem digital, ainda em formato piloto e participação opcional; em 2026, a prova será 100% digital;
  • Tanto as provas objetivas quanto a prova de redação serão feitas em formato digital no piloto;
  • O Enem para Pessoas Privadas de Liberdade (PPL) só passará ao formato digital a partir de 2026.

 

Para comentar as mudanças, foram ouvidos o professor Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), e Tadeu da Ponte, professor e coordenador dos processos seletivos do Insper e fundador da empresa de avaliação Primeira Escolha.

Segundo Alavarse, é mais controlável a segurança por computador do que no papel, mesmo que não sejam eliminados todos os riscos.

Segundo ele, "existem questões de segurança que não dependem da mídia", já que o Enem é um exame visado por quadrilhas que tentam fraudar vestibulares para carreiras disputadas. "Mas quando você faz no papel, você tem que distribuir a prova, expõe muito mais o processo a ataques", completou.

No exame digital do Pisa, o ranking mundial de educação feito a cada três anos, o professor da USP explica que é comum que as máquinas usadas na aplicação passem por dois passos importantes: primeiro, apaga-se o HD dos computadores; depois, a internet é cortada.

"Você garante que não tem nenhuma cola instalada no computador e que ninguém de fora pode acessar a máquina. Isso diminui o risco, mas não elimina completamente, porque em algum momento essa prova foi elaborada, e alguém pode ter tido acesso a ela e repassado a alguém", diz Ocimar Alavarse (USP).

Tadeu da Ponte explica que, em alguns lugares do mundo, os candidatos inclusive são monitorados por câmeras que também captam o áudio ambiente, "para ver se ele não faz nada anômalo". Além disso, o especialista diz que já existem algoritmos de inteligência artificial capazes de fazer esse monitoramento, para evitar que alguém precise fazê-lo. "Porque daí seria a mesma coisa que aplicar no papel", explicou ele sobre a necessidade de contratação de fiscais.

No entanto, os especialistas lembram que tentativas de fraude sempre vão ocorrer em exames que servem para disputas altamente concorridas, como vagas em vestibulares de prestígio.

O Enem digital tem metodologia melhor?

Em termos. A metodologia continua a mesma: a famosa Teoria de Resposta ao Item (TRI). Mas a prova no computador pode dar ao avaliador mais informações sobre os candidatos. "Se o aluno faz a prova de linguagens em muito tempo, e sobra pouco tempo pra ciências humanas, você não tem como controlar no papel, é impossível", explica o especialista do Insper.

Na versão em tela, "você sabe qual foi o tempo que o aluno gastou para fazer cada uma das questões, é possível dar um tempo separado para cada área", diz Tadeu da Ponte.

Além disso, Alavarse lembra que os enunciados podem ser feitos usando fotos coloridas — muito caras para um caderno de provas impresso — ou vídeos, áudios, imagens em movimento, entre outras ferramentas que não chegam até o papel.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, também ressaltou que a tela oferece novos formatos de questões que são impossíveis no papel, e disse que, depois que a transição estiver completa, "a imaginação é o limite".

Apesar de a metodologia ser a mesma, o Enem digital abre caminho para a aplicação de tecnologias de avaliação com o auxílio do computador que são impossíveis no formato impresso.

Segundo os especialistas, uma prova pode ser simplesmente uma versão em suporte digital do que antes era impresso (ou seja, um "teste baseado em computador", ou TBC), mas também pode ser um "teste adaptativo informatizado" (TAI, também chamado de CAT, na sigla em inglês).

Nesse segundo caso, o computador vai adaptando o teste em tempo real e para cada participante, à medida que ele acerta ou erra as questões apresentadas. A grande vantagem disso é que, enquanto no Enem em papel todos os candidatos precisam responder a 45 questões de cada prova, para que o sistema consiga avaliar e colocar em uma escala a proficiência de cada um deles, no computador é possível chegar a essa mesma precisão com menos tempo.

Há alguns anos, a USP testou uma versão da hoje extinta Provinha Brasil na rede pública municipal em São Paulo. Na ocasião, foi adotado o método TAI. "As questões vão sendo apresentadas conforme o candidato vai respondendo. No TAI, em vez de o aluno fazer 90 questões, pode fazer de repente 30, ou 20, e você estima a proficiência muito melhor", explicou Alavarse.

Mas o projeto-piloto do Inep, pelo menos até 2026, não vai adotar esse método. Alexandre Lopes, presidente da autarquia, explicou que, enquanto alguns candidatos estiverem fazendo a prova em papel e outros, a prova digital, não é possível garantir a isonomia para adotar o TAI.

De acordo com Alavarse, provavelmente haverá um aumento da desigualdade,  principalmente no período de transição. Ele afirma que é inadequado que o Inep aplique um projeto-piloto que terá notas válidas para a concorrência com quem fez a edição em papel.

"Um dos principais problemas a serem enfrentados é: a dificuldade da prova em papel é a mesma da prova em computador? Vamos ter que pedir pro Inep estudos, pré-testes", disse ele.

O Inep informou que o piloto de outubro de 2020 será o primeiro teste do formato. A prova digital usará o mesmo banco de itens já existente.

O professor da USP afirmou que, na pesquisa da Provinha Brasil aplicada em alunos paulistanos, alguns dos itens da versão em tela apresentaram variação no nível de dificuldade em relação à edição em papel. Por isso, o ideal seria pré-testar e identificar quais questões podem ou não oferecer vantagens diferentes por causa do formato.

Da redação, com conteúdo do G1.