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Irecê e Região

#DiaInternacionaldaMulher - Relato de dor, luta e libertação

Rodrigo de Castro Dias - 07 de Março de 2017 (atualizado 29/Jun/2017 09h46)

Relato de dor, luta e libertação

"Liberdade pra mim é isto: não ter medo" (Nina Simone)

Redação Cultura&Realidade

A advogada Lais Oliveira Abreu, que vive em São Gabriel/BA, é secretária adjunta da Comissão da Mulher Advogada da OAB/BA, subsessão Irecê, e integrante do coletivo Aracema Estudos Feministas. Hoje, na véspera do Dia Internacional da Mulher, celebrado todo dia 08 de março, ela publicou na página da Comissão no facebook a sua história: os abusos sexuais sofridos na infância e a longa e complexa trajetória para lidar com o trauma.

O Cultura&Realidade, com autorização de Lais, reproduz na íntegra o seu relato pessoal, em meio a série de matérias publicadas sobre o Dia Internacional da Mulher e as manifestações de mulheres do mundo inteiro contra a violência e desigualdade de gênero (que também acontecerão em Irecê). Confira o denso relato:

“Não quero ver você triste assim não, que a minha música possa te levar amor” (Criolo)

Bom, fiquei meio sem saber por onde começar, mas foi embalada no amor desta canção que fui conseguindo força para seguir, seguir, seguir... E assim, cheguei até aqui, neste momento de desabafo e gratidão pelas oportunidades de aprendizado e renascimento.

Há algum tempo venho escrevendo sobre o meu processo de ansiedade, depressão; às vezes, alguns versos sobre ânsia por liberdade, por necessidade “de um gole de vida”, e hoje, dando continuidade, estou aqui para partilhar também com vocês a causa das dores guardadas por muito tempo, que me sufocaram por muito tempo, e sou muito grata ao “quase”, foi ele que me concedeu a oportunidade de trazer-me de volta a/à vida.
Eu fui vítima de abuso sexual infantil por alguns anos. O abusador/criminoso se dizia meu tio (não é nada meu, diga-se de passagem) e se valia dessa condição de “quase tio” para se aproximar e me invadir, tocar meu corpo, fazer promessas em troca de dinheiro e várias outras coisas nojentas que vocês não merecem ouvir. Eu não tinha discernimento para entender e procurar ajuda, afinal, estava com um adulto. Já me libertei de várias memórias e as que ainda restam estão sendo aceitas para serem varridas.

Só consegui dividir essa história com alguém no auge dos meus vinte e dois anos de idade. Essa pessoa me ajudou e consegui força para procurar apoio psicológico. Contudo, logo na primeira sessão, quando me foi solicitado que eu contasse a alguém da minha família, eu fugi. Não era o momento. Não tinha força.

O tempo foi passando e fui seguindo. Crises intensas de ansiedade, sentimento de culpa, insegurança, medo, tristeza, insônia, vazio existencial, vontade de morrer... Mas, tentava mostrar para o mundo que eu estava bem, e fui me enganando, me enganando, até que chegou um momento em que meu corpo começava a dar sinais de que não era mais possível seguir com esse engasgo, os sintomas da ansiedade e depressão se intensificavam. Eu insistia em me enganar, e na guerra entre o eu e o ego, o ego queria insistir que era maior que o eu. Mas aí a bolha foi inchando, inchando até que... boooom!

Mas não foi a minha história que me fez desabar de vez, eu não cair sozinha. Veio à tona o caso do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro, o fatídico crime dos trinta e três contra uma, e tudo explodiu em mim. Eu que tinha dificuldade de chorar, chorava, chorava, chorava; eu que até então tinha medo de ler relatos de vítimas de abuso, comecei a ler. Li o relato da Joanna Maranhão, apesar de já ter ouvido falar do caso, ainda não havia encontrado força para ler mais detalhes sobre, pois eu também estava ali naquela história, e eu não queria estar, eu não queria aceitar. Vi alguns vídeos dela falando sobre o caso e isso foi fazendo com que eu perdesse o medo. Encorajava-me.

Quando da campanha #meuprimeiroassédio eu ficava com medo de abrir o meu facebook, pois sabia que me encontraria lá, no relato das meninas, das mulheres e eu não consegui participar dessa campanha. Ela também me esfaqueava por dentro.

Enfim, depois da história do mencionado estupro coletivo que fez eclodir o debate sobre a cultura do estupro no Brasil, eu não tinha mais como fugir de mim. A todo o momento, em todos os lugares, era disso que se falava. Foi pauta de debate do grupo feminista que integro (inclusive no dia dessa reunião eu não consegui falar nada, no entanto, por dentro tudo em mim gritava: SOCOOOOOORRO!).

Eu tive que começar a mexer na minha ferida. Fui cutucando e deixei sangrar. Foi um passo muito importante para a minha libertação. Quando me vi no fundo do poço, consegui contar para algumas amigas (dia 04 de julho de 2016); consegui escrever pela primeira vez sobre, escrevi um texto que intitulei de “meu vômito”. Consegui ir falando com mais pessoas, mas não tinha coragem de falar para a família, não via possibilidade para isso. Tinha medo, medo do que poderia vir depois, não queria ver minha mãe triste. Mas pior seria se eu tivesse cometido suicídio e deixado uma carta contando o horror que vivi. Foi o que passou por minha cabeça por um longo tempo. Eu só pensava em morrer, mas eu estou aqui contando a história. E que bom que estou aqui!

Novamente vi que era necessário buscar o apoio psicológico, já estava mais fortalecida. Na terapia, descobri que eu era capaz de contar à família, que era possível dividir com mais gente este peso que carreguei sozinha por anos. No dia 03 de dezembro de 2016, numa reunião por mim convocada com alguns membros da família, tomada por uma emoção muito forte, após passar noites seguidas sem pregar o olho, eu consegui. Nesse processo, descobri que não havia sido só eu, que outras mulheres da família foram vítimas do mesmo criminoso e foi um momento em que aquelas que nunca tinham falado sobre seus traumas conseguiram falar também. Foi pesado, continuei sem dormir, tudo pareceu pior, minha mãe e meus familiares muito abalados, mas ao mesmo tempo eu sabia que tinha dado mais um significativo passo.

Passei por profissionais que perguntavam como eu consegui ser ativa nesses anos, estudar, me envolver com várias atividades de militância, trabalhar. Eu não tinha resposta. Hoje estou buscando entender quem eu sou, imersa num processo de autoconhecimento e estou tendo a oportunidade de encontrá-las. Elas estão em mim. Conecto-me com as forças que estão aqui e sei que sou maior do que esse trauma. É uma marca que hei de carregar, mas ela é muito pequena em termos da grandiosidade do que sou. Não que eu seja mais que qualquer outra pessoa, mas estou aprendendo a reconhecer o meu valor, o quanto a minha vida é valiosa, o quanto tenho a aprender e como posso também ensinar.

Eu tombei e ao mesmo tempo permaneci de pé, descobri que tenho uma força muito grande, e que não é minha apenas. Vem das ancestrais; das avós; da guerreira avó Hosana; da aguerrida Maria de Fátima, minha mãe; de todas as mulheres – negras, índias, sertanejas, nordestinas - que é a mistura do que sou.

Não posso deixar de citar o meu pai, que voou quando eu tinha meus 14 anos, mas que não deixou de emanar luz, a força dele me amparou e me banha de amor todos os dias.

O processo de limpeza está acontecendo. O caminho é doloroso, mas é muito bonito e vale muito a pena. Contudo, entendo muito bem as pessoas que passam por esse trauma e não conseguem se conectar com a sua essência. Não é simples, não é fácil. Continuo disposta a ser uma mão amiga a vocês, mulheres e crianças, que viveram/vivem essa crueldade. Eu queria que isso não existisse, mas infelizmente é mais comum do que a gente imagina, e é por isso também que estou escrevendo sobre, para poder dizer que nós podemos abrir a boca, quebrar o silêncio, gritar, porque nós merecemos viver, e viver com dignidade. Não temam, gritem!

Eu sigo ainda mais engajada, com mais sede de justiça; respeitando e aprendendo com as crianças, clamando para que todas e todos nós, adultas e adultos, ofereçamos o máximo de amor e respeito possíveis a esses seres de luz, que são portais para um mundo mais belo, mais justo, mais verdadeiro. Cuidemos das crianças, por favor!

Hoje eu sei que as pessoas conseguem me enxergar mais, estou destruindo as minhas máscaras. Assuntem bem! No dia 24/02 fiz uma massagem que ajudou a liberar algumas emoções, fiquei muito sensível. Nesse mesmo dia, dei uma saidinha com minha mãe, mesmo não me sentindo bem. Uma mulher conhecida veio até a mim, pediu licença, tocou as minhas costas e fez uma oração. Disse que via em mim um sorriso lindo, mas o olhar era triste. De início eu fiquei sem entender, depois relaxei e me conectei à energia dela. Ela concluiu a oração e disse: não precisa falar nada, eu vi tudo. Um sofrimento que vem de muito tempo, vem da sua infância, e não foi fácil. Vou colocar seu nome em minhas orações. Eu agradeci, a abracei e falei que tudo estava sendo limpado, eu estava no caminho e estava recebendo muita luz. Voltei para casa muito tocada com aquilo tudo, mais sensibilizada ainda, e com mais emoções vindo para serem transformadas. É maravilhoso quando as pessoas conseguem nos enxergar, esse foi mais um lindo sinal de avanço.

Por um tempo eu não gostava de ser mulher, eu me perguntava o porquê de eu ter nascido mulher. Eu já pedi perdão a mim por ter falado isso. Tornar-se mulher nesse mundo patriarcal, machista, misógino e sexista é muito difícil, mas é muito bonito ser mulher, nós podemos ser, sem medo, pois “quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida” (Milton Nascimento).

Hoje eu já consigo meditar (coisa que achava impossível, pois tentava e a ansiedade não deixava eu me concentrar), faço terapia com acupuntura, massagem, ho’oponopono, corro, me alimento bem, faço banho com ervas, banhos de assento, escalda pés, repouso na argila, tomo floral, uso óleo essencial... Tenho buscado tudo aquilo que ajuda ao reequilíbrio energético. Ainda tenho ansiedade, dificuldade de concentração, mas sou outra, consigo dormir, consigo rir com leveza... As coisas estão fluindo, no meu tempo; eu estou perdendo o medo e vendo gosto no viver. Tem a natureza que nos energiza e alimenta, tem as pessoas - minha mãe e toda a minha família, as amigas e amigos -, tem um mundo para desbravar, nascer, morrer e renascer a cada dia. Ano passado eu deixei um dos trabalhos e estagnei algumas atividades, em breve conseguirei dar cabo ao que ficou pendente. Com fé!

Eu tive o amparo de muitos seres de luz que me ajudaram e ainda me ajudam nessa passagem. Fica aqui publicizada a minha gratidão a todas as pessoas que a mim estenderam a mão. Vocês são amor e luz!

Gratidão à minha família e em especial a minha amada mãe, minha inspiração.

Digo que a poesia, o feminismo e a espiritualidade também me salvaram. A poesia de Maria Carolina de Jesus foi uma companheira; o rap, a história e toda a obra do Criolo também me acompanharam e acompanham. A canção Ainda há tempo virou mantra, uso em minhas meditações.

E para finalizar, utilizo de trecho da fala de uma musa negra que desde que li nunca fugiu de mim e se interconecta com esse momento de desabafo: “Liberdade pra mim é isto: não ter medo!” (Nina Simone).

Eu sou Laís Oliveira Abreu, tenho 28 anos, mulher, feminista, gabrielense, baiana, sertaneja, nordestina, escorpiana – e eu falei!

“A cada mil lágrimas sai um milagre” (Alice Ruiz)

Ainda há tempo!

Aproveito para reforçar o convite para a Marcha Territorial de Mulheres: contra os retrocessos e pelo fim da violência, no dia 08 de março, em Irecê. Concentração às 09h, na Praça do Banco do Brasil.

SEGUIREMOS EM MARCHA...