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Cresce a frequência de matança da juventude ireceense

05 de Janeiro de 2016

matança.jpg   [caption id="attachment_3421" align="aligncenter" width="300"]matança Capa da edição impressa do Cultura&Realidade e os jovens recentemente assassinados: Glauber, Leo e Luiza.[/caption] Em sua última edição impressa, o jornal Cultura&Realidade traz à tona uma pauta que merece ser discutida por todos os setores sociais, desde os que compreendem da necessidade de "eliminação" dos "delinquentes", aos humanistas que apontam outro caminho de inclusão social como forma de prevenção à violência e criminalidade juvenil. Leia na íntegra a matéria. Ruas quase que desertas. Ainda não era meia noite, quando um tiro ecoa. Um corpo cai sangrando, atingido pelas costas. Glauberton dos Santos, apenas 17 anos não resiste e morre, próximo à quadra poliesportiva da Praça Ayrton Senna. O ato ocorreu dia 8 de dezembro, terça-feira, por volta das 23h30. Até o presente momento, não se sabe quem disparou o tiro certeiro, nem o motivo. No noticiário radiofônico, reproduzido pelas redes sociais, a informação seca, informando o local, o dia, a hora, a vítima e que será mais um caso a ser investigado. Dia 19, aproximadamente 21h00, disparos são ouvidos na rua conhecida por “Lagoa de Vivin”, próximo à Praça Ayrton Senna. A jovem Luiza Martins, de 16 anos, morreu ajoelhada aos pés dos seus algozes. Duas pessoas em uma moto a encontrou, pediu que ajoelhasse, o que fez inconteste e em seguida, tiros na sua nuca tiraram-lhe a vida. Modus operandi de execução. Informações dão conta que ela seria namorada de Glauberton e ameaçava identificar os assassinos do namorado. Caso ainda sem solução. Mais um a ser investigado. E assim, segue a crescente onda de matança da juventude ireceense. Não se tem disponibilizados os dados, mas sabe-se que os índices cresceram significativamente. Uma fonte confiável que trabalha no ambiente policial de Irecê diz que de fato tem aumentado o número de jovens que perdem a vida ainda adolescente. “Ouso dizer que de 85 a 90% destas mortes estão ligados à questão das drogas”, diz a fonte, que pediu anonimato. Diz ela, também, que a sociedade de Irecê está exposta a uma situação muito difícil na resolução dos crimes violentos. “A polícia não tem estrutura. Falta material humano, falta condições mínimas de investigação, para que se saiba, de fato, quais as causas e sobretudo quem são os autores, para que a justiça possa de fato apenar”, salienta, chamando a atenção: “Se a principal cidade da região está assim, imagine as demais!”. MAPA DA VIOLÊNCIA – Já que não se tem a elucidação dos fatos, que poderia também oferecer estatísticas causais, por hipótese, considerando o Mapa da Violência no Brasil, segundo relatório acolhido pela Organização das Nações Unidas e pela Organização Mundial de Saúde, feito pelo especialista Julio Jacobo Waiselfisz*, o perfil da violência juvenil em Irecê pode ter mais de uma causa. De acordo com o sociólogo, “hoje, com grande pesar, vemos que os motivos ainda existem e subsistem, apesar de reconhecer os avanços realizados em diversas áreas. Contudo, são avanços ainda insuficientes diante da magnitude do problema. O aumento da violência entre pessoas dessa faixa etária demonstra a omissão da sociedade e do Poder Público em relação aos jovens, especialmente (...) em áreas com domínio territorial de quadrilhas, milícias ou de tráfico de drogas (...).” Ainda segundo os estudos que ele fez, os crescentes índices de assassinato de jovens são explicados pela incidência de problemas estruturais de origem política, econômica e social, como desigualdade e falta de acesso a serviços básicos. Ele conclui afirmando que a violência na sociedade brasileira, especialmente entre os jovens, é o resultado de um modelo político, econômico e social. “Essas pessoas (jovens entre 15 e 24 anos) são os algozes, mas também as vítimas da violência estrutural da nossa sociedade”. NOSSA OPINIÃO - Após debates internos, envolvendo profissionais graduados e especialistas em comunicação social, serviço social, educação, gestão pública e sustentabilidade, o jornal Cultura&Realidade concorda que o perfil da violência juvenil é reflexo de graves problemas estruturais e sociais, e que a sociedade ireceense, através dos seus diversos segmentos, organizações sociais e poder público, cidadãos e cidadãs independentes, universidades e outros, devem promover atividades de estudos sobre a causa da violência juvenil local, identificar as políticas públicas existentes destinadas a este público, averiguar como as mesmas estão sendo de fato executadas e definir uma agenda afirmativa sobre o tema, inclusive cobrando do Estado as condições ideais para que as polícias preventivas e judiciária possam desenvolver suas atividades eficazmente. “Não podemos ficar o tempo todo apenas dando informações de mais um assassinato juvenil, culpar a educação e às famílias e fazer de conta que cada episódio é apenas mais um para a estatística e para o noticiário. Estamos perdendo nossa juventude muito precocemente e não há uma movimentação para prevenir esta matança”, salienta a bacharel em Serviço Social, Deuraci Vieira. Compreende-se da necessidade de avaliar a ordem de prioridade dos investimentos do município nas áreas de educação, esporte, cultura e lazer, bem como o uso dos diversos aparelhos existentes, como quadras poliesportivas e praças. “A que elas se destinam? Como estão sendo utilizadas? Quais as políticas socializantes que podem ser desenvolvidas? Que profissionais estão coordenando os usos destes equipamentos?”, questiona João Gonçalves, Pedagogo com especialização em gestão pública e sustentabilidade, para quem, a implantação de um programa voltado para a cultura de paz a partir das escolas, mobilizando a família e o seu entorno, e a presença de especialistas em arteeducação e esportes dirigidos nos espaços públicos poderia reduzir significativamente a violência juvenil, a partir da cultura de paz e novos referenciais. *Julio Jacobo Waiselfisz é Sociolólogo pela Universidade de Buenos Aires e Mestre em Planejamento Educacional pela Universidade Federal de Rio Grande do Sul e coordena a área de Estudos sobre Violência da FLACSO - Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e, dentre outras funções junto ao Unicef/PNUD/ONU, atuou como professor em diversas Universidades da América Latina, tendo exercido o cargo de Diretor de Departamento de Ciências Sociais na Universidad Nacional del Salvador/El Salvador/Centroamérica e da Universidad de San Juan/Argentina, além de Pró-Reitor Acadêmico na Universidad Nacional del Comahue/Argentina.