Irecê e Região

Cotidiano do maestro Gerry Andrade, em tempos de Covid-19, em belíssimo texto, por ele mesmo

Cultura&Realidade - 20 de Abril de 2020

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Maestro Gerry Andrade, em um dos diversos momentos em que a sua arte faz cantar e encantar no Território de Irecê - Foto: Acervo pessoal

"Pausando a tristeza do silêncio na ausência dos ensaios, mas, consciente da necessidade do meu isolamento, já que transito pelo território trabalhando com 300 crianças e jovens, tenho dever de preservá-las"

 

Vivia como todos, no ritmo de uma vida intensa, allegro, alegricíssimo com os meus afazeres na Rede MGA, desenvolvendo atividades como Maestro e Professor de música no Território de Irecê, dirigia 1200 km por semana no traslado para atender quase 300 alunos em 6 cidades distintas. De repente, no frenesi do staccato das 6 bandas tocando intensamente, nas 70 apresentações de 2019, entre o forte e o fraco, o maestoso e o presto, a Covid-19 nos surpreende em um Sforzando e nos obriga a mudanças bruscas de intensidade e de andamento na pauta da vida, forçando-nos a cumprir as obrigações do retardando, do diminuendo, mudando para um andante, adágio, largo... desacelerando para corrigir as desafinações que 2020 nos impôs.

Como maestro, o desafio é encontrar alternativas nesta partitura da pandemia que atraiam a atenção e ocupe a mente de todos os alunos da Rede MGA. É impressionante a habilidade e solidariedade do corpo do músico ao se relacionar com as tecnologias, percebo que o meu cérebro instala alguns aplicativos para permitir que os benefícios das aulas sejam canalizados para a continuidade da formação musical de cada músico/aluno.


Hoje, respeitando o Isolamento Social, seguindo as recomendações das autoridades, aplico-me a fermata, suspendendo a contagem do tempo, estou enclausurado em um pentagrama de dois compassos entre ritornellos.

Pausando temporariamente as minhas atividades presenciais que tanto amo, divido a minha grade do tempo nos afazeres domésticos, com a elaboração de novos métodos e arranjando novas peças. Busco manter a batuta no ritmo, no foco, preparando-me para o tão esperado retorno das bandas. Pausando a tristeza do silêncio na ausência dos ensaios, mas, consciente da necessidade do meu isolamento, já que transito pelo território trabalhando com 300 crianças e jovens, tenho dever de preservá-las.

Não há como dissociar o ato educativo de maestro em instrumentos de sopros, com toda esta onda de transmissão do vírus que parte das gotículas da saliva, sem, no entanto, um eterno cuidado com todos para não disseminar o vírus nos ensaios e tocadas, mesmo sem suspeitos. Respeitando o tempo nestes tempos de corona, as pausas e o distanciamento são fundamentais para obtermos, mais adiante, melodias harmônicas na nossa convivência.


Deixo um abraços para todos da Orquestra Sinfônica de Irecê e das Filarmônicas: 19 de Setembro de Ibipeba, 25 de Fevereiro de São Gabriel, 12 de Agosto de Central, Ribeirinhos do Vale do São Francisco de Xique-Xique, Lira Barramendense de Barra do Mendes, saudades, até breve.

 

"Sou apenas uma pequena figura de uma semifusa perdida dentro do universo de uma semibreve sem clave definida"

Armando Gerry de Andrade, Maestro.

A pedido do Cultura&Realidade