CORONAVÍRUS

Bolsonaro modera o tom e prega "união" em pronunciamento nacional sobre coronavírus

Cultura&Realidade - 01 de Abril de 2020 (atualizado 01/Abr/2020 08h47)

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"Agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto pela preservação da vida" - Foto: Ilustração

O presidente Jair Bolsonaro baixou o tom de embate que vinha marcando suas declarações sobre a crise do coronavírus e pregou "união" no enfrentamento à doença em pronunciamento em rede nacional de televisão na noite desta terça-feira (31/03).

Em diversos momentos da fala, ele repetiu a importância de conciliar as medidas de preservação à vida com a proteção dos empregos, sem abordar a necessidade de as pessoas continuarem ou não em quarentena para evitar a expansão da doença.
"Estamos diante do maior desafio da nossa geração. Minha preocupação sempre foi salvar vidas, tanto as que perderemos pela pandemia quanto aquelas que serão perdidas pelo desemprego, violência e fome", ressaltou.

"Agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos. Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade", disse ao final do pronunciamento.

No momento em que sua mensagem era transmitida, brasileiros realizaram panelaços contra o presidente em diversas cidades do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Brasília.

Em outra fala em rede nacional há uma semana, Bolsonaro adotou tom bem mais beligerante, tendo atacado governadores por adotar medidas como fechamento de escolas e comércio. Na ocasião, ele também criticou a imprensa e disse que o coronavírus seria apenas "uma gripezinha" para a maioria dos brasileiros que vierem a contrair a doença.

Já no pronunciamento desta noite, Bolsonaro reconheceu que "o vírus é uma realidade e ainda não existe contra ele vacina ou remédio com eficiência cientificamente comprovada". Ainda assim, ele voltou a exaltar os supostos benefícios da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, dizendo a substância "parecer bastante eficaz" para esse fim.

O presidente destacou ainda que "laboratórios químico-farmacêuticos militares entraram com força total e em 12 dias serão produzidos um milhão de comprimidos de cloroquina".

As sucessivas falas de Bolsonaro propagandeando o potencial dessa substância no tratamento da covid-19 têm gerado críticas de médicos e cientistas, já que não há comprovação da sua eficácia.

O Ministério da Saúde divulgou, nesta terça-feira (31/03), que o número de mortos pelo novo coronavírus no Brasil teve o maior salto diário e subiu para 201 - foram 42 óbitos confirmados nas últimas 24 horas.

Os casos confirmados do novo coronavírus no país chegaram a 5.717. A taxa de letalidade é de 3,5%, segundo a pasta.

OMS
Assim como havia feito pela manhã na saída do Palácio do Alvorada, Bolsonaro também usou o pronunciamento para citar declarações do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, em defesa da proteção dos mais pobres em meio à crise do coronavírus.

"Pessoas sem fonte de renda regular ou sem qualquer reserva financeira merecem políticas sociais que garantam a dignidade e permitam que elas cumpram as medidas de saúde pública para a Covid-19 recomendadas pelas autoridades nacionais de saúde e pela OMS", havia dito o diretor-geral da OMS na segunda-feira.

"Eu cresci pobre e entendo essa realidade. Convoco os países a desenvolverem políticas que forneçam proteção econômica às pessoas que não possam receber ou trabalhar devido à pandemia da covid-19. Solidariedade", afirmou ainda Ghebreyesus na ocasião.

Bolsonaro citou trechos dessa fala para reforçar seu argumento de que o enfrentamento ao vírus não pode ser feito às custas da paralisação econômica. O presidente tem criticado medidas de isolamento social de toda a população sob o argumento de que isso criará recessão e desemprego, ignorando o fato de a maioria dos epidemiologistas defender a ampla quarentena para evitar uma explosão de casos da doença. Esse cenário, dizem os médicos, provocaria o colapso do sistema de saúde do país e um número elevado de mortes.
"Todo indivíduo importa. Ao mesmo tempo, devemos evitar a destruição empregos que já vem trazendo muito sofrimento aos trabalhadores brasileiros", disse Bolsonaro no pronunciamento, após citar as falas de Ghebreyesus

"Repito: os efeitos colaterais de combate ao coronavírus não podem ser pior do que própria doença", reforçou o presidente.

Nesta tarde, porém, a OMS reagiu a declaração feita de manhã por Bolsonaro e reforçou que a fala do seu diretor não foi contra as medidas de isolamento social, mas sobre a importância de simultaneamente a essa política os governos adotarem ações para proteger os mais pobres durante a quarentena.

No pronunciamento desta noite, Bolsonaro não defendeu explicitamente que as pessoas voltem à vida normal, como havia orientado aos brasileiros jovens e saudáveis uma semana atrás. No entanto, ele novamente não usou o espaço para dar qualquer orientação aos brasileiros no combate à doença, como sugerir que evitem aglomerações e lavem as mãos.

Por outro lado, ele agradeceu os esforços de diversos profissionais contra a doença: "Aproveito a oportunidade para me solidarizar e agradecer o empenho e sacrifício pessoal de todos os profissionais de saúde, da área de segurança, caminhoneiros e todos os trabalhadores de serviços considerados essenciais, que estão mantendo o país funcionando, bem como aos homens e mulheres do campo que produzem nossos alimentos".

Medidas do governo
O presidente também usou o pronunciamento para exaltar as ações anunciadas pelo governo contra a crise.

"Determinei ainda ao nosso ministro da Economia (Paulo Guedes) que adotasse todas a medidas possíveis para proteger sobretudo o emprego e a renda dos brasileiros", disse.

"Fizemos isso através de ajuda financeira a Estados e municípios, linhas de crédito para empresas, auxílio mensal de R$ 600 aos trabalhadores informais e vulneráveis, entrada de mais de 1,2 milhão de famílias no programa Bolsa Família", exemplificou.

Embora o presidente venha se colocando como responsável pelo auxílio emergencial de R$ 600 aprovado nesta segunda pelo Congresso, o governo originalmente propôs um benefício de apenas R$ 200. O valor só foi elevado após a pressão de parlamentares e nas redes sociais.

No pronunciamento, o presidente não deu previsão de quando os pagamentos começarão. Até agora, o governo não publicou o decreto regulamentando como será feita a liberação.

Nesta tarde, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o pagamento só poderá ser iniciado depois que o Congresso aprovar uma alteração na Constituição criando um Orçamento paralelo de enfrentamento ao coronavírus e, assim, liberando recursos para ao auxílio emergencial.

Nas redes sociais, políticos e economistas passarão a usar as hashtags #PagaLogoBolsonaro e #QuemTemFomeTemPressa para cobrar a rápida liberação do benefício.

A previsão do governo é que o auxílio atenda mais de 24 milhões de pessoas, o que representará um gasto de ao menos R$ 14,4 bilhões por mês.
Com conteúdo de BBC Brasil