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Geral

Balanço: São João de Irecê se destaca como uma das grandes festas do interior

04 de Julho de 2016

barracão_sãojoão.jpg [caption id="attachment_4863" align="aligncenter" width="548"]Apresentação do cantor Lucas Lucco. | Foto: Ascom prefeitura de Irecê Apresentação do cantor Lucas Lucco. | Foto: Ascom prefeitura de Irecê[/caption] Festa atraiu visitantes da capital e de outras cidades do interior e deixou a cidade bastante movimentada, com reflexos positivos no comércio e serviços em geral, como demonstrou os 100% de ocupação nos hotéis e pousadas. A mudança no estilo musical acompanhou a tendência nacional; se ouviu praticamente de tudo, de sertanejo universitário a seresta, passando pelo arrocha e a jovem guarda - o forró tradicional quase não deu as caras. Efeitos colaterais, como o trânsito caótico, poluição sonora, o alto custo da festa e episódios de violência, são pontos de interrogação na avaliação. O custo-benefício social compensa? Por Rodrigo de Castro Os festejos juninos são a época do ano mais esperada pela maior parte das pessoas que residem no nordeste. Na Bahia, o interior do estado conta com festas tradicionais em diversas cidades, que se estabeleceram no calendário cultural do estado e movimenta o turismo, tanto interno quanto externo, graças à visita de pessoas de outros estados e regiões do país. Com o tempo, as tendências musicais das festas de São João, antes dominadas pelo tradicionalíssimo forró pé-de-serra, tem se diversificado. Variações do forró, como a vertente eletrônica de nomes como Calcinha Preta e Magníficos, passaram a fazer a cabeça do público. Nos últimos anos, estilos como o arrocha e variações da fórmula do forró eletrônico, como Aviões do Forró e Garota Safada (que lançou Wesley Safadão para o estrelato) passaram a ganhar destaque nos festejos juninos, se afastando da tradição musical que historicamente marcou o período do São João, embora conservando alguns elementos do forró tradicional. Cidades que realizam grandes eventos nesse período, antenados com a mudança na preferência musical das pessoas foram mais longe, praticamente abandonaram os artistas forrozeiros em detrimento do que tem feito sucesso com o grande público. Assim, nomes do Sertanejo Universitário, a vedete do momento, tem marcado presença maciça nos palcos nordestinos nos anos recentes. Mesmo em cidades de grande tradição forrozeira, como Caruaru e Campina Grande, essa tendência tem sido observada. Apesar da resistência do público mais purista, a mudança parece inevitável. Nesse contexto, Irecê passou a se destacar no cenário estadual de festejos juninos. A prefeitura, organizadora da festa, investiu pesado na contratação de alguns dos artistas mais badalados (e inflacionados) do momento. Paralelamente, festas particulares seguiram a mesma tendência e promoveram eventos com nomes concorridos, como Marília Mendonça e a dupla Jorge & Mateus. Em resposta, o que se viu foi uma grande procura pela cidade por turistas de cidades da região e da capital. Hotéis ficaram lotados, o trânsito ficou pesado como o de grandes cidades (um efeito colateral indigesto), o comércio se aqueceu. Na noite de abertura, estimativas apontaram que cerca de 70 mil pessoas comparecerem a Praça Clériston Andrade, local do circuito junino. [caption id="attachment_4864" align="alignright" width="430"]O barracão do mercado municipal foi muito concorrido durante todo o São João. | Foto: Ascom prefeitura de Irecê O barracão do mercado municipal foi muito concorrido durante todo o São João. | Foto: Ascom prefeitura de Irecê[/caption] As festas não ficaram concentradas apenas na praça central. O mercado municipal, com o grande barracão montado em frente e o palco instalado no bairro Boa Vista, que recebeu o São Pedro, foram medidas que descentralizaram a festa e possibilitou que um maior número de pessoas participassem dos festejos. Ponto para a organização. O impacto econômico só poderá ser medido com uma avaliação precisa de indicadores, algo que a Câmara de Dirigentes Logistas (CDL) pode fornecer detalhadamente. Porém, caminhando pelas ruas e conversando com comerciantes dá para perceber a diferença. O setor de serviços, como um todo, é claramente beneficiado com um evento desse porte. Outros tipos de impactos também foram sentidos. Algumas questões cotidianas, como o trânsito, foram claramente prejudicadas. Moradores de ruas centrais, adjacentes ao circuito da festa, tem sua mobilidade afetada, já que as ruas são fechadas e se transformam em estacionamentos. O barulho é outro problema sério, especialmente para as pessoas mais idosas. A limpeza pública também ficou comprometida. Em alguns momentos, a segurança pública ficou aquém das expectativas (clique para ler mais). Nesse ponto a conta é simples. Mais gente circulando atrai a atenção do crime, que enxerga oportunidades para agir. O grande número de roubos de celulares e carteiras registrado na abertura do evento, no dia 21, exemplifica essa tendência. Se por um lado não tivemos registro de morte em um evento tão grande - mérito do aparato de segurança, por outro o restante da cidade, especialmente em áreas periféricas, ficou com aspecto de ausência de policiamento. São efeitos colaterais que precisam ser considerados pelo poder público na hora de promover um evento que afeta de diversas formas a vida da população, para o bem e para o mal. Talvez fosse o momento de pensar um novo local com maior estrutura para a festa?  Planejar uma estrutura mais ampla do aparato policial para preservar o público e a cidade como um todo? - Aqui se deve registrar o esforço da Polícia Militar para fazer um bom trabalho com a estrutura existente, que resultou na queda significativa dos atos de furtos e roubos a partir do segundo dia, em comparação com a noite de abertura. Outra discussão que se impõe é relativa às despesas de um evento de grandes proporções como o desta edição. A prefeitura de Irecê ainda não divulgou o balanço de gastos, mas pode-se imaginar valores na casa dos milhões de reais, dado os cachês estimados dos artistas contratados e dos custos de logística, que não são baixos. O exemplo de Wesley Safadão, que chegou a ter o seu show em Caruaru - mais de meio milhão de reais de cachê - cancelado pela justiça atendendo a uma ação popular (depois voltaram atrás e o show ocorreu), chama atenção para os valores astronômicos que alguns artistas recebem. Quando tais cachês são pagos com recursos públicos, a justificativa para o cidadão precisa ser clara, afinal convivemos com falta de recursos em setores essenciais como saúde e educação. Ou seja, é preciso que se avalie o real custo-benefício para a população e para as finanças públicas ireceenses. Transparência por parte da gestão municipal é altamente desejável, ainda mais em tempos de déficit público acentuado pela crise econômica e política. Críticas e reflexões à parte, a festa desse ano impactou de forma substancial a economia da cidade e colocou Irecê sob os holofotes do circuito turístico do São João na Bahia e no Nordeste, por si só algo bastante positivo e que merece reconhecimento. Com melhor planejamento e infraestrutura, sem esquecer da transparência na viabilidade socioeconômica, a cidade pode se beneficiar ainda mais nos próximos anos.