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Bahia

Bahia: o caos social, a ilusão da maquiagem e a (re) configuração da politicagem

07 de Dezembro de 2016 (atualizado 07/Fev/2017 23h52)

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Foto: a comunidade do Alagados, em Salvador, é um dos símbolos máximos da ausência do Estado na promoção de melhoria das condições de vida da população baiana, grande parte dela ainda vivendo na pobreza (Margarida Neide/Agência A Tarde) 

Por Tássio Barreto Cunha*

São séculos de luta em busca da alforria, desconstruída desde a chegada de Cabral em 1500 por essas terras. Os índios, europeus e, sobretudo pardos e negros, expressam o perfil étnico baiano, estruturado em uma extrema exclusão social há 516 anos. Segundo o IBGE, em 2010 cerca de 78% da população baiana se declarou Parda ou Negra, distribuída por todo o Estado.

Principalmente no campo, nas periferias das cidades e perambulando “Brasil a fora” em uma constância transumante na labuta para sobreviver. Genocídio étnico racial e de gênero, imposição religiosa, alta concentração fundiária e de renda, corrupção, má gestão etc., são características históricas encarnadas no Estado da Bahia, ramificadas para a população pela maioria dos poderes que controlam esse espaço, em um pacto/interesse de classe responsável por alicerçar uma verdadeira convulsão social em alguns territórios, sobretudo aqueles presentes na periferia dos “polos regionais de desenvolvimento” e nas regiões metropolitanas.

Capitanias hereditárias, sesmarias, tráfico negreiro etc., foram políticas sustentadas por oligarquias latifundiárias atrasadas, do ponto de vista econômico-intelectual, que se revestiram em tonalidades diferentes ao longo dos tempos, mas que reinam em absoluto até os dias atuais. Os grandes latifundiários “ociosos” de ontem, hoje são dinamizados por uma forte influência de capitais internacionais e nacionais, gerenciados, sobretudo no centro-sul do país. Uma significância de total dependência externa, já que a Bahia, mesmo possuindo a 8ª maior arrecadação tributária do país, representa apenas 2% do total nacional, segundo a Receita Federal.

Além da pobreza econômica, o Estado baiano foi o 3º com a maior concentração de riquezas em 2013. Ou seja, um território pobre, com sua renda pessimamente distribuída, concentrada sumariamente na Região Metropolitana de Salvador – RMS e em alguns polos de atração, como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Teixeira de Freitas, Itabuna/Ilhéus, Juazeiro, Jacobina, Luís Eduardo Magalhães/Barreiras e Guanambi/Caetité. Riqueza estruturada sumariamente pelo setor industrial da RMS, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Teixeira de Freitas e Ilhéus/Itabuna; o turismo na RMS, no litoral norte e sul; o agronegócio em Luís Eduardo Magalhães/Barreiras, Juazeiro e Ilhéus/Itabuna e a mineração em Jacobina e Catité/Guanambi.

Com exceção das indústrias, o restante são setores que produzem mercadorias de baixo valor agregado, o que faz gerar pouco emprego, concentrar capitais e em alguns campos como o agronegócio e a mineração, degradarem diretamente o ser humano e a natureza. Tais atividades demandam condições de trabalho precárias e degradantes, visto que essas são circunstâncias cruciais para dinamizar as suas cadeias produtivas. Condição que levou o Estado baiano ser o campeão em acidentes de trabalho e mortes relacionadas ao trabalho em 2014, conforme informou o Relatório Anual de Informações Sociais, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego – MTE.

No mundo em que o dinheiro representa a principal expressão da riqueza, sendo um dos sustentáculos da sobrevivência, o fluxo de migrações comumente seguem as rotas de capitais. É dessa forma que grandes contingentes populacionais são direcionados para os polos de atração. Contudo, se tratando da Bahia, pode-se confirmar que a maior parte desses (as) trabalhadores (as) vivem em situações extremas de vulnerabilidade social, sobretudo, pardos e negros, mulheres, índios e LGBT’s. Desse modo, entende-se que essas são as pessoas mais propícias a sofrerem com agraves sociais, por conta principalmente, de estarem marginalizadas socialmente.

Vinculadas a uma hierarquia sociológica estruturada há séculos, na qual o “cume” é composto principalmente por homens heterossexuais e brancos. Midiaticamente, a Bahia é conhecida pelo perfil “romantizado” do carnaval, das belas praias e um povo que vive “de boa” (preguiçoso “na real”). Um olhar cravado sobre o litoral, que distorce as inúmeras particularidades do Estado e que oculta à precariedade social vivenciada, como a camuflagem de possuir a maior taxa de desemprego formal do Brasil em setembro de 2016 (15,5%). Um número crescente, depois de seguidas taxas de declínio na última década. Era que o Estado mais recebeu recursos e arrecadou tributos na sua história, com uma pujança econômica superior a média nacional.

Entretanto, o boom econômico possuiu um desenvolvimento superior a políticas de inclusão social esquecidas historicamente pelo Estado baiano, mesmo com todo um elo de projetos criados pelo governo federal em combate a miséria extrema na era PT. Sobretudo por tais programas possuírem como cunho principal o aumento no consumo e não na inclusão social. Parafraseando Frei Beto – “O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais”.

Uma injeção de capitais por meio de programas de transferência de renda (via bolsa família e previdência social), responsável por criar microcircuitos econômicos no vasto campo baiano (a Bahia é o Estado brasileiro com a maior população rural, com cerca de 4 milhões de habitantes), nas pequenas cidades (mais de 90% das cidades baianas possuem menos de 50 mil habitantes) e nas periferias das médias e grandes cidades. Somado a uma injeção financeira direta do governo federal por meio do seguro safra, financiamento de obras públicas, crédito etc., com a injeção de capitais privados, circulação de dinheiro e geração de empregos nunca vista na Bahia até então. Porém, mesmo se incluindo economicamente, a estratigrafia social baiana foi mantida. Onde os flagelados das secas, o camponês, o quilombola, o fundo e fecho de pasto, a mulher, o índio e o LGBT, historicamente reprimidos, se mantiveram na base social.

A continuar como uma população miserável, iletrada, desempregada etc., que foi impulsionada a seguir os principais circuitos de capitais direcionados para a RMS e os polos regionais, o que contribuiu para o constante inchaço das periferias desses lugares. No caminhar desse itinerário financeiro, começa a se impulsionar no Brasil o tráfico de drogas e consequentemente uma maior ramificação do crime organizado de nível internacional, nesses locais até então não ocupados. Que dentre outras estratégias, conseguiram infiltrar nos bolsões de miséria da nação uma substância de alto poder viciante e barata - o “crack” (droga relacionada em cerca de 60% dos 5450 homicídios ocorridos na Bahia em 2014). Entorpecente que contribuiu diretamente para a Bahia se tornar o Estado campeão de homicídios em números absolutos no ranking nacional. Esse grave problema de saúde pública é somado ao aumento de preconceitos ligados à mulher e aos LGBT’s, o que tornou a Bahia em 2015, o 2ª Estado que mais matou LGBT’s no Brasil e violentou mulheres. Um caos social ligado diretamente ao altíssimo déficit educacional da população, em que 17% dos habitantes são analfabetos, 49% só possuem o ensino fundamental incompleto, 12% o ensino médio incompleto, 17,87% o médio completo e somente 3,8% o ensino superior completo.

O rebatimento na maioria da população da excludente construção social baiana é fruto de políticas extremamente concentradas, voltadas diretamente para os poucos que construíram os sustentáculos do seu poder por meio do controle estatal, em nome dos seus anseios. Com a construção de uma exclusão da maioria da população, que mesmo com o alto combate a miséria extrema realizada na última década, ainda posiciona a Bahia no topo do ranking nacional, como o Estado com o maior número de pobres (10,4% são considerados pobres, com rendimento mensal entre R$ 84 e R$ 168 per capta) e miseráveis (6,5% dos baianos ainda vivem na extrema pobreza, com menos de R$ 84 de renda domiciliar mensal per capta).

No bojo desse caos social, o modelo triplo concreto–festa–propaganda enquanto forma de controle das massas, continua a ser praticado, unido ao fetiche do consumo, a música apologética do status e da riqueza, a repressão da força e da ameaça etc., muito comum entre os gestores municipais simpatizantes das práticas coronelistas, que encontram nessas formas de domínio, maneiras de conter a rebeldia do povo e manter o seu status quo. Práticas atualmente ainda exercidas, contudo, não com o mesmo valor de antes, quando o slogan desses atos era transmitido “pelo dinheiro na mão e o chicote na outra” (frase de Antônio Carlos Magalhães).

Sobretudo pela ascensão social que o povo brasileiro e baiano adquiriu na última década, em todas as políticas de inclusão social e consequentemente com a maior intensificação do poder cognitivo da população na compreensão do atual mundo existente. Porém, essa percepção não virá “do dia para a noite” e o Estado não priorizará as massas “logo amanhã”. Enquanto isso, “A Bahia pede socorro! Negões e mulatos (as) estão em apuros! Enquanto o povo grita, a elite comenta somente com sussurros. São desempregados, analfabetos, sem amparo social. Sacrificados por um sistema estruturado na exclusão social.

Avante meu povo! Necessitamos urgentemente de mudança. O concreto, a festa e a propaganda, não sustentam mais a tão clamada esperança. A agonia da violência nos assusta, e impulsiona o desespero. Fazendo o povo com medo, agir mesmo dessa forma. Pois a ânsia pela vida nos transforma, e a luta segue como o último enredo. Talvez de mais uma vítima, ainda em vida, que “roda” (trecho da poesia – A injusta roda da vida [do autor desse texto])”.

*Ser humano, ireceense, bunda vermelha do Canoão, Geógrafo, mestre em Engenharia Urbana e Ambiental (UFPB) e doutorando em Geografia (FCT/UNESP).