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BRASIL

Antes de deixar o Brasil, médicos cubanos relatam experiências

Cultura&Realidade - 26 de Novembro de 2018 (atualizado 26/Nov/2018 14h27)

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Médicos vão embora do Brasil após declarações e ameaças de Bolsonaro. Foto: Divulgação

Há pouco mais de dois anos no interior de Pernambuco, o médico cubano Yoendri Veras, de 34 anos, teve uma passagem rápida por Brasília nesta quinta-feira (22). Ele é um dos 430 profissionais de saúde que embarcaram na capital federal para retornar a Havana, com o fim do acordo Brasil–Cuba no programa Mais Médicos.

Enquanto esperava o embarque no avião fretado da estatal Cubana de Aviación, no Aeroporto Internacional de Brasília, Veras conversou com o G1. Disse levar, na bagagem, recordações da experiência vivida no agreste pernambucano.

Formado há seis anos em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas Mariana Grajales na cidade de Holguin, em Cuba, o profissional diz estar “tranquilo” ao deixar o Brasil, embora considere a decisão "política".

 “Falo com satisfação de ter atendido, principalmente, o povo pobre. Trabalhava na zona rural, onde a população falava que tinha anos que lá não chegava um médico. [...] Nós, médicos cubanos, estávamos onde nenhum médico brasileiro queria estar.”
No município pernambucano de São Caetano – a 155 km da capital Recife –, com cerca de 30 mil habitantes, Yoendri atendia na Unidade Básica de Saúde pelo programa de Saúde da Família.
O Mais Médicos foi criado, em 2013, para levar profissionais a regiões desassistidas. No entanto, um levantamento do Ministério da Transparência de 2017 mostrou que muitas prefeituras aproveitaram as contratações do programa para demitir outros médicos que já trabalhavam no município, o que é proibido pelas regras do Ministério da Saúde. Na prática, essas prefeituras fizeram manobras para economizar dinheiro.

Atendimento diferente
As 40 horas semanais de trabalho de Yoendri Veras eram divididas entre a medicina tradicional e o que ele chama de “jeito cubano” de exercer a profissão.
“A diferença é que nós, médicos, fomos formados desse jeito: gostamos de olhar para o paciente, distribuímos e recebemos muito amor e carinho”, explica.

“Só de olhar e escutar, pode ser que não resolva o problema. Mas, a gente procurava colocar a mão no ombro e, só por isso, eles [pacientes] falavam que notavam a diferença no atendimento.”

Além das lembranças e das histórias, o médico cubano também embarcou nesta quinta com uma bagagem recheada de presentes para a família. Como o voo fretado pelo governo de Cuba não estabelece limite de peso para bagagens, Veras embalou todos os objetos de valor comprados no Brasil.
Na mala despachada, ele carregava a televisão comprada em Pernambuco, um aparelho de som e presentes para a filha que mora em Cuba – e que ele não vê há 11 meses.
Ao desembarcar, o cubano diz que pretende retomar a vida que levava antes de ingressar no programa. Segundo ele, o dia a dia era "muito bom, ao lado da família", mas a possibilidade de uma nova missão internacional não está descartada.
"Tem muitos países no mundo que abrem as portas para nós, médicos cubanos. Temos credibilidade", afirma.

Trabalho interrompido

A médica cubana Anisleidi Alonso, de 33 anos, embarcou no mesmo voo de Yoendri Veras com destino a Havana. Especialista em saúde da família, ela deixa o trabalho que exerceu por dois anos no município de Crissiumal, no Rio Grande do Sul.
Com 14,2 mil habitantes, a cidade gaúcha tem cinco unidades básicas de saúde, e um médico formado em cada posto. Sem o Mais Médicos, dois profissionais foram embora – e, segundo Anisleidi, dois postos fecharam.
“Fico triste porque gostaria de poder terminar meu trabalho. Atendia os pacientes mais carentes de todo o município. Agora, os postos ficam sem ninguém até que a prefeitura consiga outros [médicos].”
Na região, Anisleidi pôs em prática os seis anos de formação em medicina na Universidade de Ciência e Saúde, concluídos em 2009. “A medicina em Cuba tem um plano de estudo comum em todas as partes do mundo”, diz.

Questionada sobre o retorno a Cuba, a médica disse encarar o fato com otimismo. O objetivo, até agora, é voltar à cidade onde morava, Villa Clara - a 400 km de Havana –, para atender seu próprio povo.
“Não tenho rancor dos brasileiros. Estou voltando para meu país, onde me formei como médica. Tenho que ser grata a ele.”
“Meu povo me emprestou para trabalhar, ajudar o Brasil, e agora preciso voltar. Lá tenho meus pacientes. Vou continuar feliz como sempre fui, mas com um pouco de saudade.”


Retorno à ilha

Ao todo, cerca de 430 profissionais cubanos que atuavam no Brasil em contratos do programa Mais Médicos embarcaram para Havana, a partir de Brasília, na noite de quinta (22) e na madrugada de sexta-feira (23).
Até o fim do mês, outros voos fretados pelo governo cubano junto à estatal Cubana de Aviación devem deixar o Aeroporto de Brasília. Os profissionais chegam à capital federal em ônibus também fretados, carregando malas, animais de estimação e eletrodomésticos.
O trajeto de 5,2 mil km entre o Aeroporto Internacional de Brasília (BSB) e o Aeroporto Internacional José Martí (HAV), em Havana, dura cerca de 7 horas. Nas companhias comerciais, o percurso costuma incluir uma conexão no Panamá.

Os voos previstos para os médicos cubanos, no entanto, são charters – ou seja, fretados especificamente para estas viagens. A Cubana de Aviación não tem voo comercial permanente para Brasília.
Voos fretados não estão sujeitos, por exemplo, às restrições de bagagem da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Nestes casos, o volume e o peso máximo das malas devem obedecer a regras específicas da companhia contratada. A restrição de explosivos, cortantes e aerossóis, por exemplo, continua valendo.


Da redação, com informações do G1