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Festival Gastronômico Paladares do Sertão

ADUTORA DO SÃO FRANCISCO: "Hoje em dia, até o gado bebe água doce, minha filha”

18 de Abril de 2016

adutora2.jpg [caption id="attachment_4501" align="aligncenter" width="300"]adutora Água, vida que se revela.[/caption]

População de Irecê e região ainda comemora chegada da Adutora do São Francisco, três anos após a inauguração da obra, que garante água de qualidade nas torneiras para mais de 300 mil pessoas

Há três anos, Tatiana Alves Oliveira não sabe mais o que é sofrer com a falta de água. A dona de casa de 41 anos, mãe de três filhos, e moradora de um pedacinho de terra na localidade do Achado, passava dias sem água na torneira, tendo que carregar lata na cabeça, mesmo que as dores nos rins fossem insuportáveis. Agora, ela até brinca e agradece a fartura do bem mais precioso do sertão. "Hoje em dia, até o gado bebe água doce. Pode uma coisa dessas, minha filha?", conta, rindo alto, sem disfarçar a alegria ao falar da água da Adutora do São Francisco. Tatiana e mais cerca de 330 mil pessoas da microrregião de Irecê compartilham dessa felicidade desde 2013, quando o projeto foi entregue à população, após um iminente colapso na Barragem de Mirorós, que abastecia toda a região. Também conhecido como Adutora do Feijão, o reservatório localizado no Rio Verde operava em seu nível mínimo, devido a um longo período de estiagem nas cidades do semiárido baiano e ao crescente número de pessoas atendidas. “Chegamos a pontos preocupantes de falta de água e, na época, nos preparamos para um possível colapso. Por determinação da ANA (Agência Nacional de Águas), houve interrupção no fornecimento para a irrigação e racionamento para o abastecimento humano, o que gerou muita revolta entre os agricultores”, relembra Odirlei Rocha, gerente da Embasa unidade regional Irecê. O Sistema Adutora do São Francisco atende a oito cidades da microrregião de Irecê, sendo elas Irecê, Central, São Gabriel, Jussara, João Dourado, América Dourada, Itaguaçu da Bahia e Presidente Dutra.  Outras oito são abastecidas pela Barragem de Mirorós. “Agora temos dois sistemas funcionando de forma integrada, melhorando a vida das pessoas e a economia regional. Isso é um luxo!”, avalia Elmo Vaz, ex-superintendente da Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento) e ex-presidente da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba). E, para quem sempre enfrentou a falta de água, tê-la em fartura é mesmo um luxo. Tem quem se empolgue. Em pleno sertão de terra vermelha batida, Estácio Pereira de Araújo, de 25 anos, lava a moto com orgulho. Há alguns anos, era praticamente impossível ver uma cena assim por aqui.  “Com a chegada da adutora, nossa vida melhorou bastante. Não tem mais essa coisa de falta de água, não. Antes, a gente ficava sem água dois, três dias, hoje isso acabou”, comemora o agricultor da comunidade de Lagoa Nova. Mas ele faz questão de dizer que não desperdiça: “Só lavo minha moto de 15 em 15, porque nunca se sabe o dia de amanhã, né?”. Dados da Embasa indicam que as dificuldades enfrentadas durante o pré-colapso na Barragem de Mirorós parecem ter mesmo despertado a consciência para a necessidade de se economizar água. Após a crise, cerca de 80% da população da região passou a pagar a tarifa mínima de água, de R$23. Paula Silva Santos, de 21 anos, por exemplo, reaproveita a água para os mais diversos fins.  “A água que lavo os pratos, eu uso para lavar o banheiro; a que lavo a roupa, aproveito pra passar pano na casa”, ensina a moradora da Lagoa de Tió. Dona de casa e mãe de dois filhos, ela veio de Itabuna há dois anos e diz que não tem o que reclamar quanto ao abastecimento e à qualidade da água de Irecê: “Lá em Itabuna faltava água oito, 15 dias. Eu tinha que pedir aos vizinhos que tinham tanque. Aqui, nunca carreguei água na cabeça. E a água é tão boa que eu nem fervo, já bebo direto e dou pros meus filhos, sem medo”. Charles Jefferson, de 32 anos, também comemora. Dono de um bar no Angical, ele diz que faltava muita água na localidade, o que causava transtornos ao seu comércio. “O que salvava era que eu tinha cisterna em casa, mas tinha dias que as pessoas não podiam sequer usar o banheiro e nem eu lavar os copos e pratos. E quem ia querer ir num lugar assim?”, questiona. “Tudo mudou pra melhor, com a nova adutora, graças a Deus. Sem água, a vida da gente é ruim demais. Água é riqueza. Água é vida!”, filosofa, com a sabedoria simples do homem do sertão. Elmo Vaz, figura determinante para a implantação da adutora Nascido em Ibititá, que na época ainda era Rochedo, e adotado por Irecê, Elmo Vaz foi figura fundamental para a implantação da Adutora do São Francisco. “Por entender a situação e a região, ele abraçou com força o projeto, viabilizando a execução da obra”, enfatiza Odirlei Rocha, da Embasa. Desde 2007, quando ainda ocupava um cargo técnico na Embasa, em Irecê, o atual pré-candidato à Prefeitura de Irecê pelo PSB, já alertava às autoridades sobre problemas futuros, caso não fossem tomadas providências para garantir fornecimento de água para a população urbana e rural. “Durante meu trabalho na Embasa e minha gestão na direção da Sucab (Superintendência de Construções Administrativas da Bahia) e na presidência da Codevasf, pude conceber o projeto básico junto com a Cerb (Companhia de Engenharia Rural da Bahia). Lutamos, de corpo e alma, inclusive politicamente, pela implementação da adutora”, diz Elmo, ao explicar os desafios enfrentados. “Mas valeu a pena, e comprovamos que, com foco, planejamento, gestão correta dos recursos e vontade política, é possível viabilizar obras estruturantes e promover o desenvolvimento, resgatando a dignidade das pessoas”, avalia.