ARTIGO

A Vida é Breve e a Arte é Longa

Cultura&Realidade - 13 de Novembro de 2019

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Arlicélio e Gisélia no último encontro. - Foto: Arquivo Pessoal

 

Por Arlicélio Paiva

O arquiteto e médico grego Hipócrates Asclepíades nasceu na ilha de Cos por volta de 460 a.C., na chamada idade de ouro da Grécia antiga. Muito do que se sabe a seu respeito foi escrito 500 anos depois de sua morte por Soranus, também médico grego. Por essa razão é possível que alguns escritos atribuídos a Hipócrates não tenham sido de sua autoria, como o famoso “Juramento de Hipócrates”, que é solenemente prestado pelos estudantes de medicina durante as cerimônias de formaturas, prometendo manter os padrões éticos da profissão.

A medicina hipocrática tem como princípios a dieta saudável e os exercícios físicos como forma de prevenir e combater a maioria das doenças, não dispensando o uso de medicamentos, quando necessário. Hipócrates utilizava de aforismos para falar sobre doenças e ensinar a arte da cura e da medicina. O aforismo é um texto conciso, usado para transmitir sabedoria acumulada no ramo das ciências, da filosofia e das artes. Hipócrates foi pioneiro na formulação de aforismos e o primeiro deles foi “Vita brevis, ars longa” que, traduzido do latim para o português, significa “A vida é breve e a arte é longa”. Hipócrates utilizou esse aforismo para ensinar a medicina, ressaltando as dificuldades e os perigos enfrentados pela profissão. No entanto, vários autores se inspiraram no primeiro aforismo de Hipócrates, adotando a livre forma de se expressar.

Sêneca, filósofo e estadista romano (4 a.C. – 65 d.C.), foi o primeiro a popularizar esse aforismo que inspirou Goethe a escrever “Fausto”, uma das suas principais obras, e a Tom Jobim a compor a música “Querida”.

Aqui, eu tomo a liberdade para utilizar esse aforismo para falar a respeito de Gisélia, uma mulher de imensa sabedoria, apaixonada pela literatura e que cativou muita gente, pelo seu jeito carinhoso no modo de tratar.

No final de julho de 2019 eu estava em Paulo Afonso, Bahia. O meu destino era a Grota dos Angicos, em Poço Redondo, Sergipe, onde fui participar de uma missa em homenagem aos 81 anos de morte de Lampião, Maria Bonita, mais nove cangaceiros e um volante. Paulo Afonso é um município que fica próximo da divisa dos Estados de Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Por essa razão, fiquei tentado em visitar mais algumas cidades. No entanto, tive o sentimento de que deveria viajar para Aracaju, a fim de fazer uma visita surpresa para Gisélia.

Esse foi o quarto encontro que tive com ela. O primeiro foi em sua residência em Recife, onde fiquei hospedado por uma semana, tempo suficiente para desfrutar da prazerosa companhia da sua família. As reuniões do final da tarde eram verdadeiros saraus, com músicas, histórias, poesias, muita alegria, boas risadas, café e bolo de rolo. Os momentos mais marcantes para mim foram as canções interpretadas pelo vozeirão de Fernando, seu esposo, e quando George, filho do casal, dedilhava o violão para ela declamar as músicas de Alceu Valença que, daquela maneira, tomavam um sentido muito mais poético.

Tivemos mais dois encontros, um em Feira de Santana e outro em Aracaju. Nessa última cidade, ela e Fernando estabeleceram residência. Como se tratavam de encontros familiares, nós não tínhamos oportunidade para conversar sobre livros, músicas e poesias, que ela tanto gostava. Mesmo assim, a gente encontrava uma oportunidade para abordar o assunto.

No último encontro, a surpresa também foi para minha esposa, sua prima. O meu paradeiro só foi revelado quando eu estava na casa de Gisélia. Passamos uma tarde conversando sobre a vida, família e arte. Apesar de ela estar com a saúde fragilizada, em nenhum momento eu ouvi alguma queixa; ao contrário, ela destacou a beleza da vida e o prazer de viver, me fazendo lembrar de Fernando Pessoa – “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.

O último poema que Gisélia recitou para mim foi “Bem-Aventurados” de Mário Quintana:

Bem-aventurados os pintores escorrendo luz
Que se expressam em verde
Azul
Ocre
Cinza
Zarcão!
Bem-aventurados os músicos…
E os bailarinos
E os mímicos
E os matemáticos…
Cada qual na sua expressão!

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia…

A impura linguagem dos homens!

Um mês depois da minha visita surpresa, Gisélia partiu aos 88 anos de idade e de sabedoria acumulada. Ficou a sensação de que ainda poderíamos falar mais a respeito dos livros, da música e da poesia, o que dá sentido, para mim, ao primeiro aforismo de Hipócrates – “A vida é breve e a arte é longa”.

Em se tratando de uma pessoa do mais alto grau de sensibilidade, de uma poetisa como Gisélia, não é implausível imaginar que ela foi recebida no céu por Fernando, seu esposo, acompanhado por um grupo de trovadores, poetas, pintores e anjos, todos eles celebrando o seu retorno.

Peço licença a Mário Quintana, para dizer que agora Gisélia está lidando com a pura linguagem dos anjos!

Arlicélio Paiva, Professor doutor da UESC, Ilhéus, Bahia