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Cultura, Esporte e Lazer

A chegada do samba catingueiro

Rodrigo de Castro Dias - 18 de Abril de 2017 (atualizado 21/Jun/2017 15h01)

Imagem: provavel capa do futuro disco de 'samba da caatinga' (Divulgação)

Imagem: provavel capa do futuro disco de 'samba da caatinga' (Divulgação)

Redação Cultura&Realiadade - Por Líris Gamper Machado* & Kalil Albergaria**

Em janeiro de 2003, Uibaí experimentava o início de um período de aquecimento cultural surgido com o Praça Inquieta, evento idealizado pelo Caderno Cultural Boca do Inferno, que felizmente retirou o município do deserto cultural de dez anos no qual estava mergulhado. Os responsáveis pelo Caderno Boca do Inferno, na época, Alan Oliveira Machado e Rui de Oliveira, dois irmãos comprometidos com atividades culturais no município, apresentaram o projeto aos moradores da Casa de Estudantes de Uibaí em Brasília e depois realizaram uma reunião de organização do evento já no município, com a participação de jovens e demais interessados em concretizar as atividades propostas para os dois dias do evento.

O Praça Inquieta foi tão impactante, tão bem-sucedido em sua gana de discussão de temas políticos importantes à época e de atividades artísticas como recitais de poesias, apresentações musicais, feira de artesanato, lançamento de livro, oficinas de teatro e apresentações teatrais que desde então a chama das artes nunca mais se apagou, nunca mais permitiu que a desertificação tomasse conta da cultura. Devido a isso, muitas coisas boas continuaram a acontecer no município nos anos seguintes, algumas à revelia dos interesses políticos locais. Assim, sob as cinzas da indiferença e do boicote, as brasas da resistência liberavam o calor da criatividade, permitindo o aparecimento de novas ações e de novas atitudes frente ao que já havia sido domesticado pelo poder ou pelo ímpeto copiador dos incompetentes com alguma esperteza e nenhuma criatividade.

Foi assim que no meio poético e musical surgiu, já quase no fim da primeira década dos anos 2000, um projeto criativo com o intuito de inventar um samba de temática catingueira e ribeirinha. Movida por uma pesquisa musical que incluía, entre outros clássicos do samba, a audição atenta de Clementina de Jesus, Noel Rosa, Cartola, Adoniram Barbosa e Nelson Cavaquinho, a dupla de irmãos Rui de Oliveira e Ari Oliveira principiou a produção de uma espécie de samba com sotaque catingueiro, cuja temática se estendia das barrancas do rio São Francisco, em Xique-Xique, às grotas da Serra Azul em Uibaí. O samba regional de Ari e Rui produziu algumas pérolas como Samba da caatinga: "Mulherada gentileza/justifique numa boa/quem coloca o ovo azul /o cancão ou a cancoa?/... Diz o samba da caatinga/na cantiga do cangaço/cabaça cheia de furos/cabeça, chuva, cabaço" (...) e Ribeirinho canoeiro: "joga tua rede pro ar, canoeiro/sobre o espelho barrento/que o rebento do lado de cá/ancora couro ao tempo... O homem, peixe-boi se foi/da paisagem no momento/cantiga, força, corpo, luz/ navegando contra o vento"; Fuminho na lixeira: “Pode acender tuas velas, nega/ que dessa noite não passa/ eu boto as tramelas nas portas/ e jogo fora tua cachaça”...

Em seguida, os dois inventaram um personagem para assumir artisticamente as letras feitas em parceria e individualmente. O personagem chamou-se Clementino Redentor (homenagem à Clementina de Jesus), um catingueiro pescador que vivia na beira do rio, em Xique-Xique, onde frequentava a boêmia nos botecos de pescadores e manobristas de balsas. Clementino virou heterônimo autor das letras de samba feitas por Rui de Oliveira, Ari Oliveira e Alan Oliveira Machado, que integrou o projeto de samba catingueiro em seguida, com letras como Nêga Rosa: “Ôh nega boa/ ôh Nega Bela/ rosa cheirosa/meu barco a vela”... Vem vadiar: “Fui vadiar/ lá na beira da barranca/ morena pulou no rio/ escondeu de mim as ancas”..., Carranca minha: Carranca minha/eu me lembro a chuvarada/ peixe escondendo do fio/canoa triste amarrada”... Todas produzidas em 2009.

O conjunto de letras produzidas pelos três poetas e unificadas ficticiamente como obra do personagem Clementino Redentor deveria, ao fim das experimentações públicas, compor um CD de samba da caatinga, já que a temática é o sertão, a natureza e os costumes do catingueiro ribeirinho. O projeto do CD ainda espera um incentivo cultural que possibilite a gravação em estúdio das 12 canções clementinas produzidas. Enquanto isso, a turma do samba clementino prepara novas aventuras literárias e musicais ao mesmo tempo em que espalha as crônicas poéticas de Clementino Redentor pelo sertão catingueiro do baixo-médio São Francisco.

*Estudante de Música na Escola Técnica Federal e Primeira Fagotista da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás. **Estudante de Psicologia do IESB- DF e músico.