JOVEM ESCRITOR C&R

#2 Entrevista, por Victor Guilherme Feitosa

Cultura&Realidade - 25 de Outubro de 2019 (atualizado 25/Out/2019 16h00)

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Entrevista

Oi. Posso começar?
É para falar sobre o que?
O que eu quiser?

Ah! Sim. É que não me lembro de muita coisa. Desde que vim parar aqui, os comprimidos que eles me dão me fazem esquecer. Às vezes me lembro de uma coisinha ou outra, vou me esforçar.

Quando eu quiser começar? Tá bom.

Olha, eu gostava de brincar, né? Toda criança gosta de brincar. Joguei muita bolinha de gude, corri na rua. Certa vez até meus pais entraram na brincadeira. Um homem corria atrás da gente e então, como eu não conseguiria ganhar sozinho, meu pai fez cavalinho e, depois de conseguirmos despistá-lo, ainda brincamos de esconde-esconde. Nem preciso dizer que a gente ganhou, não é?! Éramos muito bons nisso.

Minha mãe? Não, ela não brincava muito, não. Ela gostava era de ler. Certa vez ela leu um texto lindo, lindo. Ela dizia que esse texto era o que fazia ela ter esperanças. Até hoje não entendo o porquê de ela querer ter um insetinho desses, tão frágil a esperança, não é? Até hoje acho que todas elas são, então não gosto muito.

O nome do texto? Vou buscar na cabeça, daqui a pouquinho quando eu lembrar, te digo.

Quando foi? Acho que não sei. Eu nasci em 1960, não me lembro bem a idade que eu estou contanto, deve ser uns 12 anos. Com 12 anos é que os pais ensinam a brincar de correr e esconder. É, deve ser essa idade mesmo. Conte aí, 1960 + 12; acho que é uns anos aí, não me lembro direito como se conta, de contar, só sei contar história.

Não senhor, não lembrei ainda não. Mas vou lembrar, não se preocupe não que quando o remédio passar eu lembro.

Olha, não me lembro direito, mas meu pai, acho que trabalhava em um negócio de fazer liberdade. Acho que era uma roupa, que nem camisa; eu visto camisa e ele fazia liberdade para vestir. Eu ouvia ele falando que estava muito difícil no trabalho, que tinha que ter mais liberdade porque os amigos dele estavam precisando. É estranho pensar nisso. Meu pai fazia para os outros, mas acho que ele não gostava do que fazia, nunca vi ele ou minha mãe vestirem isso, a liberdade. Sei que é importante, mas isso aprendi aqui. Eu pedi uma ao senhor, aquele da agulha e dos remédios; ele sorriu e disse que se eu achasse uma, algum dia, ele também queria. Pena que meu pai foi fazer elas lá longe, mas quando ele voltar, vou pedir uma para mim e outra para o senhor, quem sabe assim ele deixa de fazer eu me esquecer das coisas.

Oi?

Não, não lembro, sei que ele foi fazer longe, acho que foi porque lá eles precisam mais. Quando lembrar te digo, mas vou falando de minha mãe.

A minha mãe trabalhava no telefone. Quando ela não estava no telefone, estava me contando história... Olha, lembrei! Lembrei. Lembrei por causa de liberdade. No texto tinha que a liberdade ia ser viva e transparente. Eu ria sempre nessa parte.

Ah, ria porque é engraçado a liberdade ser viva e transparente; imagine só você vestido de uma coisa transparente, vestir uma dessas assim ia ser ficar pelado, aí ficaria vestido de liberdade e com a bunda aparecendo. Acho que é do Thiago de Mello, depois você procura, o nome é os estatutos do homem.

Sim, minha mãe trabalhava no telefone ligando para as pessoas.

Ah, perguntava muitas coisas quando ligava. Do que estavam precisando, essas coisas. Acho que ela ligava muito para organizar essas brincadeiras de esconde-esconde.

Oi?

Porque ela perguntava se já tinham achado o lugar onde eles se esconderam. Não sei direito onde ela está agora, não. Acho que os homens que nos encontraram ganharam. Eles a levaram e fui me escondendo até parar aqui, depois. Mas um dia eu ainda descubro onde é que se salva e salvo minha mãe para ela se esconder de novo.

É, pensando por esse lado, então eles não ganharam não, ainda posso salvar, não é?

É. Meu pai também quando ele voltar.

Ele vai voltar. Quando acabar por lá ele volta. O lugar que ele está é ara alguma coisa. Arajaia, aracaia...

Isso, isso! Araguaia! É lá mesmo. Deve ser bonito o lugar, meu pai está fazendo liberdade por lá.

Sei, o nome dele parece com médico, Médici. Vi ele ali naquela televisão. Acho que ele não gosta de quem faz liberdade.

Como vim parar aqui? Eles me pegaram na rua e disseram que menino não pode ficar na rua.

Menino não pode é ficar trancado.

Eu gostava de andar na rua. Ia daqui até ali bem rápido. Eu sempre voltava, a brincadeira de minha mãe uma hora tinha que acabar, mas estava demorando e eu fui procurar por ela. Aí eles me pegaram quando estava andando pela cidade.

Não sei, deve ter uns dois anos depois do ano que eu te disse. 1960+12+2. É. Se 1960+12+2 é 14, então eu acho que tenho 14 anos.

Senhor, eu ouvi dizer que a gente não pode mais falar, é verdade? Se for eu não posso mais falar, não é?

Eu sei, eu estou falando, mas é porque eu ouvi na televisão que tem gente que vai embora daqui porque fala. Será que eles vão me mandar ir também? Não queria não, se eu for, meu pai e minha mãe voltam e eu vou estar é longe.

Um dia eles voltam. Aí eles me buscam aqui.

Se eu cortar a língua outra nasce depois? Aí eu não falo mais, nem para desgostar da esperança.

Ah! Então tudo bem.

Fique mais um pouquinho, me conte do senhor agora. O senhor indo eles vão me dar outro remédio e aí eu vou esquecer das coisas que eu queria lembrar.

Mas e se o senhor não voltar?

Então tá bom, vou ficar esperando e não vou falar muito não, viu? Para eles não me mandarem embora e o senhor me achar aqui de novo.

De nada, o senhor é bom de conversar.

Conversar é bom, senhor.

O senhor vai me dar remédio de novo e eu vou esquecer, mas eles vão voltar, minha mãe, meu pai e o senhor, aí o senhor pode me dar remédio que depois eu não tomo mais não.

Eu vou esperar, é o que sobra.

 

Victor Guilherme Feitosa, Irecê Ba, 22 anos, 7º semestre do curso Licenciatura em Letras Vernáculas, UNEB-Irecê.

“Meus textos (assim como o de todos os artistas) são frutos de atravessamentos. Certa vez ouvi de alguém que escrever é o exercício de quebrar; de fato me quebro enquanto escrevo. Me rasgo. A minha relação com esse exercício de escrever é sempre assim, um exercício de dor e problematização dessa dor, utilizando-me dela para me potencializar, tanto na escrita quanto na minha vivência. Eu escreveria um texto enorme, no entanto o fim pode ser antecipado: escrevo para me manter vivo, para não afundar.”

 

 

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Da Redação.